Marcar a Juventude Negra Para Viver

Por: Piê Garcia pie@observatoriodefavelas.org.br

Foto de capa: Washington Santana/ESPOCC

A campanha Jovem Negro Vivo chegou à Maré no dia 9 de maio. O Observatório de Favelas se juntou à Anistia Internacional e à Redes da Maré para chamar atenção para o alto número de assassinatos de jovens negros no país. A ação teve como objetivo reforçar o direito à vida, dar visibilidade ao tema e pedir políticas públicas de segurança, educação, saúde, trabalho, cultura e mobilidade urbana para o enfrentamento dessa realidade. Ou seja, apresentar a juventude negra, pobre, das periferias e favelas, como um grupo marcado pela vida. Como o Observatório de Favelas já apresentava, por meio da ESPOCC, em 2013, a Juventude Marcarda para Viver.

Jovem Negro Vivo

Jovens de organizações civis debatem caminhos para diminuir a violência contra a juventude negra. Foto: Washington Santana/ESPOCC

A tradicional Feira da Teixeira, que acontece todos os sábados na principal rua da Maré, foi palco para os bailarinos da Escola Livre de Dança da Maré fazerem uma intervenção para lembrar os sete jovens mortos a cada duas horas no Brasil. Segurando roupas que traziam marcas que simbolizavam sangue e furos de bala, fruto da violência a que os jovens estão expostos diariamente.

 

Nos vídeos produzidos pela Anistia, os jovens são invisíveis quando mortos e foi no intuito de dar vida e visibilidade a quem sofre esse tipo de violência que o corpo de dança vestiu as roupas e clamou por uma juventude viva. Na sequência, houve a apresentação do grupo de passinho Rua C. A companhia de dança, que nasceu na Lona Cultural da Maré é um dos exemplos de protagonismo dos jovens da favela.

 

O grupo de ativistas da Anistia circulou por toda a feira recolhendo assinaturas para o manifesto e distribuindo panfletos que explicavam que dos 56 mil homicídios cometidos no Brasil por ano, mais da metade atingem os jovens de 15 a 29 anos e 77% das vítimas são negros.

 

Iniciativas de mobilização pela valorização da vida

No segundo momento da atividade, que aconteceu no Centro de Artes da Maré, os representantes das instituições que organizaram a atividade chamaram atenção para a articulação feita há muitos anos em relação ao tema. Em 2012, as três instituições realizaram a campanha “Somos da Maré e temos direitos”. Raquel Willadino, diretora do Observatório, lembrou da exposição de fotografia “Até Quando”, realizada em 2005. E foi assim que ela terminou sua fala, questionando até quando os jovens negros serão mortos.

 

Átila Roque, diretor da Anistia Internacional, falou sobre a invisibilidade desses números, “A gente precisa como sociedade dizer um basta a isso. A gente não pode continuar a conviver com índices tão altos de mortes.” Edson Diniz, diretor da Redes de Desenvolvimento da Maré, completou, “61% da população da Maré é composta, na maioria, por pretos e pardos. Realizar a campanha na Maré é fundamental por colocar o foco nesta população que é a mais atingida pela violência. Precisamos desnaturalizar as mortes e quebrar uma cultura em que a morte de um menino negro na favela parece ser o desfecho esperado de uma trajetória”.

Aberta a roda de conversas, lideranças de projetos voltados para a juventude, que atuam na perspectiva de dar protagonismo a esses jovens, falaram sobre as suas experiências. Bruno Duarte, rosto da campanha e da equipe de comunicação da Anistia Internacional, mediou o diálogo.

 

Mc Succo e Mayara Donaria, representando a ESPOCC, falaram da Campanha Juventude Marcada para Viver, realizada em 2013 com ações de guerrilha que levaram à visibilidade do tema na cidade. Os ex-alunos lembraram da ação dos corpos feita no Largo da Carioca e o lançamento da campanha no Parque de Madureira. Dudu do Morro Agudo, do Movimento Enraizados, convocou a todos para lutar com eles pela vida dos jovens na Baixada. “A nossa única arma é o Hip Hop”, disse.

No evento, jovens dançam passinho e break, símbolos de atividades artísticas da periferia

No evento, jovens dançam passinho e break, símbolos de atividades artísticas da periferia. Foto: Gabriel Irene/ESPOCC

Giordana Moreira, do coletivo Roque Pense, explicou como as mulheres são afetadas pela morte dos jovens negros: “Elas morrem em vida”. Binho Cultura, coordenador da Flizo, disse que nunca se sentiu invisibilizado, “muito pelo contrário, eu sempre tive um fuzil apontado para a cabeça”. Binho, que é escritor falou do quanto a cultura e a educação foram importantes para que ele não fizesse parte da estatística de jovens mortos.

 

Davi Amen, do Raízes em Movimento, se emocionou ao lembrar do início da ESPOCC, “A gente tinha que continuar insistindo porque um dia a favela seria o nosso principal parceiro. É muito importante falar isso aqui porque essa iniciativa começou no Circulando que se formou na primeira turma da ESPOCC”. Já Gilmara Cunha, do Conexão G, provocou, “Precisamos criar ações específicas para falar também da morte dos homossexuais”.

 

O evento terminou ao som do grupo Los Chivitos, com a participação teatral da Cia. Marginal.

 

Juventude potente da Maré

 

Como foi falado e reforçado pelas instituições organizadoras e convidados da Roda de Conversas, as articulações em prol da redução da violência letal contra jovens, principalmente negros, na Maré, já vem de muitos anos. As ações de diversas organizações locais são imprescindíveis para ampliar a potência da juventude. O Curso pré-vestibular da Redes, o método de ensino no Projeto Uerê e a inclusão através do esporte feita pelo Luta pela Paz são apenas alguns exemplos de projetos voltados para adolescentes e jovens que agem nessa perspectiva.

Ato em favor da vida chama a atenção para o número crescente de assassinatos contra a juventude. Foto: Gabriel Irene/ESPOCC

Ato em favor da vida chama a atenção para o número crescente de assassinatos contra a juventude. Foto: Gabriel Irene/ESPOCC

Michelle Henriques, pedagoga do Vida Real conta que lá eles oferecem oficinas de reforço escolar, informática, grafite, serigrafia, música, canto, fotografia e vídeo. Além disso, promovem atividades culturais externas, como passeios a museus, cinemas, teatros, exposições de arte etc., na perspectiva de mostrar a estes jovens que há outros espaços sociais na cidade que podem – e devem – ser ocupados por eles. “A finalidade é que os alunos consigam dialogar, ter novas experiências, conhecer novos lugares, criar, viver novas experiências e conhecimentos.”
Eduardo Alves, diretor do Observatório de favelas e coordenador da ESPOCC afirma que a maioria dos jovens não vai para o crime, ao contrário do lugar comum defendido por quem tem uma visão preconceituosa em relação à favela. Para ele, os jovens de favela “se virão dentro das possibilidades para ter conquistas” e projetos como a ESPOCC colaboram para uma ação de cidadania plena que “através da convivência dialoga com toda a diversidade da cidade metropolitana” e completa, “é preciso pensar em saídas para a garantia de direitos da juventude.” Essas e outras ações são fundamentais para garantir os jovens vivos.


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