Novembro é o mês de celebrar a luta e resistência do povo negro. A comemoração é fundamental, pois há conquistas na história. Lembrá-las é sempre um alimento para fortalecer a jornada por novas vitórias. Modificar a convivência na cidade, com respeito, aprendizagem, superações e criações de novos encontros é sempre um desafio. Faz parte do rumo por uma cidade de direitos, com ampliação da participação das pessoas. Afinal, as cidades existem, devem ser pensadas, devem ser estruturadas, para as pessoas e não para as mercadorias. Eis um grande desafio e muito temos para aprender com os negros que vivem até hoje, em pleno século XXI a opressão do racismo, nas sombras e a luz do dia.

 

O direito à vida é a parte mais importante da história. Portanto, não poderíamos deixar de citar a relevância da aprovação do projeto de lei 4471 que está na Câmara Federal. Acabar com os tais “autos de resistência” e estabelecer regras para as práticas do braço mais repressor do Estado, que nos ajudem a construir as formas de respeito à humanidade é uma das tarefas centrais. Nada mais simbólico que o mês de novembro seja marcado pela votação desse projeto. Assim, como nada mais importante que aprová-lo. Trata-se de um instrumento que somará forças para a redução da violência letal, principalmente a cometida pelo Estado.

 

Os números dos homicídios de jovens negros no Brasil são assustadores: 30 mil morrem por ano; 2.500 morrem por mês; 82 morrem por dia, dados do Mapa da Violência – Jovens do Brasil 2014. Informações bem lembradas por campanhas como a Juventude Marcada para Viver (#JMV) em 2013, da Escola Popular de Comunicação Crítica – ESPOCC. Além disso, a Anistia Internacional, com a campanha Jovem Negro Vivo que está com uma petição online para romper a indiferença de grande parte da sociedade brasileira para os altos índices de homicídios de jovens, especialmente negros, no país. Para além das alterações nas leis e no Estado, muitas mudanças precisam ocorrer na cultura que predomina nossa sociedade.

 

O Boletim de Notícias & Análises do mês de novembro apresenta três matérias que refletem sobre o racismo em diferentes campos. O racismo “invisível” que aparece à sombra, escondido na ausência de representações do povo negro e na imposição de padrões brancos como universais. Essa falta de representatividade começa desde a primeira fase, a infância. Quantas bonecas negras vimos nas vitrines? Refletir sobre esse aspecto simbólico é absolutamente central na formação de uma sociedade que respeite à diferença e assuma a diversidade de forma ampla.

 

Para isso, o respeito à diferença religiosa também se faz necessário. É estarrecedor saber que são quase 2000 denúncias de ações violentas, desrespeitosas, discriminadoras às religiões no estado do Rio de Janeiro nos últimos dois anos. Dessas, 93% foram contra religiões de matrizes africanas, demonstrando que a intolerância religiosa também passa pela questão da cor e pela falta de conhecimento sobre as culturas africanas.

Não há desenvolvimento sem diferença, respeito, multiplicidade e isso também se aprende na escola – ou deveríamos aprender. No Jardim América, Zona Norte do Rio de Janeiro, um professor de biologia inventa formas lúdicas e potentes de contar a história da África e da luta dos negros no Brasil. O projeto “Qual é a graça?” estimula o respeito e a cidadania articulando ações de enfrentamento ao racismo com as disciplinas do currículo escolar: Biologia, História, Literatura e Geografia. Essa iniciativa demonstra que quando se tem compromisso e boa vontade é possível ir longe.

 

Por fim, convidamos nossos nossos leitores para uma programação especial em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra na Arena Carioca Dicró, na Penha. O Festival Da Cor da Gente vai reunir cinema, oficinas, debates, teatro e dança, valorizando e comemorando a contribuição da povo negro na formação da cultura brasileira. Vem com a gente!