“Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar”
Amanhã será o Primeiro de Maio. Iniciar esse artigo com essa parte da música, conhecida nas vozes de Zé Geraldo e de Zé Ramalho, significa olhar para esta data considerando quatro aspectos fundamentais: o trabalho como condição humana fundamental, o processo de trabalho historicamente, a divisão social capitalista do trabalho e as condições histórico-sociais desiguais das trabalhadoras e dos trabalhadores no mundo e no Brasil hoje.
Em todas as sociedades o trabalho possui centralidade, pois ele é a condição básica da vida humana: o trabalho é a condição humana fundamental para a realização das necessidades materiais e espirituais, pois é através do processo de trabalho que a humanidade produz tudo o que lhe confere e garante vida e sobrevivência. Por isso, em artigo anterior (http://of.org.br/noticias-analises/o-trabalho-como-prosa-da-vida/), consideramos o trabalho como a condição ôntica fundamental da humanidade, pois a produção de todas as coisas de que necessitamos é resultado da relação que homens e mulheres mantêm entre si e com a Natureza para a manutenção da vida e de suas plenas necessidades. A condição ôntica da humanidade é esta potência criativa de transformação da Natureza para o pleno desenvolvimento da sociedade e para benefício de todos os seres que nela vivem.
Porém, na história da humanidade – e, portanto, da relação que mantemos entre nós e com a Natureza para a manutenção da vida – as pessoas que de fato produzem todas as coisas do mundo não o fazem para a realização de suas plenas necessidades. Ao contrário, são afastadas de sua condição ôntica – criativa, potente e transformadora! – para se converterem em seu contrário, ou seja, para alienar de si mesmas e de sua realização plena e coletiva o seu próprio trabalho. O trabalho social e, portanto, a produção social humana, ao invés de nos conduzir ao nosso pleno e coletivo desenvolvimento, passa a servir para a manutenção da concentração de poder e de riqueza de grupos poderosos. Assim, o trabalho social se converte em escravidão e servidão humanas em suas formas históricas variadas: foi assim nas sociedades antigas, nas feudais e, agora, nas capitalistas.
Hoje, em nossa sociedade e em todo o mundo esta história continua e, cada vez mais, se aperfeiçoa: trabalhadoras e trabalhadores de todo o mundo, alienados de sua condição fundamental humana, tornam-se objetos – e não sujeitos – desta engrenagem em que o lucro se coloca acima da vida. Nas sociedades mercantis capitalistas, o processo de trabalho se realiza para a produção de mercadorias e para a satisfação dos lucros que de sua venda provêm; assim, trabalhadoras e trabalhadores de todo o mundo se tornam objetos para a satisfação da riqueza alheia, servindo-lhe de combustível para a produção da gigante montanha de mercadorias que precisam ser compradas para que o lucro, então, se realize.
Neste sentido, as pessoas que produzem não são os sujeitos desta produção: não organizam e não decidem o quê, para quê e por que produzem. Tornam-se predominantemente – mas não exclusivamente – trabalhadoras e trabalhadores assalariados que vendem sua força de trabalho por um valor ínfimo se comparado ao que de fato produziram e, com isso, reproduzem, de modo desigual, a sua própria vida.
A partir da divisão social do trabalho, o valor da força de trabalho se torna substancialmente desigual e o acesso aos bens produzidos e disponíveis socialmente também. A reprodução e aprofundamento destas desigualdades, em diferentes escalas, se reforçam e se enraízam, histórica e socialmente, acimentados pelo racismo e pelo machismo estruturais, tornando-se mais profundos e candentes nas periferias. São as pessoas, trabalhadoras das periferias, que passam predominantemente a ocupar os setores mais precarizados e pauperizados da divisão social do trabalho, mantendo-se como heróis sobreviventes, pelos sonhos inventados, pelos desejos criados, pela alegria triste e pelo alimento das ilusões impostas.
E é nesta desigual e espacial divisão histórica do trabalho social que as pessoas construtoras não compartilham, não usufruem, não escolhem, não dirigem e não decidem pelo construído. Mas são elas que constróem tudo a nossa volta: das mansões às “casinhas de sapê”.
O projeto mundial de acumulação ampliada de capital aprofunda a exploração das trabalhadoras e dos trabalhadores no mundo e reproduzem a divisão social do trabalho em diferentes escalas, reforçando, a partir do Estado e de seus diversos aparelhos, cada vez mais profundamente, as desigualdades e as condições desumanas de trabalho e de suas reservas.
O Primeiro de Maio, por isso, é data de se ver a importância dos que vivem do seu trabalho na construção das coisas: trata-se das pessoas que fazem a vida girar nas estradas, prédios, transportes, escolas, alimentos, estruturas físicas e relações humanas do Estado e do Mercado. Pessoas que recebem todo o mês um salário ou que entram em cada mês sem saber se o salário existirá para a sua sobrevivência e dos seus: mães, pais, filhas, filhos, companheiras, companheiros (a lista é grande).
É data, também, de saudar a organização das pessoas que vivem da venda da sua força de trabalho para ampliar o tempo em suas vidas, para viver. É preciso reconhecer conquistas históricas e vislumbrar tantas outras e necessárias: precisamos conquistar e ampliar os tempos de Arte, lazer e estudo. Que o tempo deste trabalho, da morte-em-vida, seja cada vez mais reduzido para sua conversão em potência criativa humana. Deixar de ser aceitável a naturalização das condições de exploração, a partir da qual uma pessoa gasta mais do que 1/3 de seu dia apenas para sobreviver que, se somado ao tempo de transporte, da distância entre trabalho e moradia e adicionadas as condições de mobilidade do corpo, alcançam fácil e indiscutivelmente as 12 e 16 horas do passado.
Como símbolo de organização e de mobilização da potência operária, é justo que as pessoas que trabalham tenham o seu próprio dia para a lembrança de tudo aquilo que constróem. Justíssimo, também, que este dia seja feriado, sem desconto dos salários. E, sobretudo, cabe comemorar e enfatizar as conquistas organizativas e de conhecimento acumulado que este grupo social, com potencial de se constituir em classe e em unidade, conquistou histórica e socialmente. São legítimas razões, tanto para sair às ruas em atos, quanto para as comemorações em festas.
Mas seria tão legítima quanto fundamental, nesta data, uma jornada de formação política sobre o trabalho, sobre sua condição ôntica, sobre o processo de sua realização histórica, sobre as suas condições materiais e concretas e sobre as consequências deste processo face à divisão social e mundial do trabalho, face à dinâmica de sua organização e face aos interesses econômicos e conjunturalmente oligárquicos que lhes correspondem. Torna-se, assim, tarefa central pensar coletivamente a respeito da natureza ôntica do trabalho humano, mobilizando o que nos é COMUM.
É legítimo lembrar das atrocidades de patrões na década de 80 do século passado, nos Estados Unidos, tanto quanto da iniciativa de declarar o dia como feriado nacional na extinta União Soviética em 1920. É importante lembrar de todas e todos que morreram em luta pelas várias causas, vitórias e conquistas importantes, desde o direito ao voto até o direito ao estudo, com seus múltiplos alargamentos, colocados em risco e ameaçados de perda a todo o tempo e conjunturalmente. Mas devemos, sobretudo, numa unidade com diversidades, acumular: estudar e construir coletivamente frestas para ampliação da potência humana, buscar, no encontro de toda essa energia de luta, de mobilização e de ativismo, a potência para o conhecimento, para a formação política e para a mobilização nos novos tempos. E o caminho coletivo e da unidade, nas múltiplas diversidades estéticas, culturais, étnico-raciais, de gênero, de sexualidades e de afetividades, é uma estrada fundamental para esse processo.
Que este primeiro de maio venha assim então: como momento de comemorações de conquistas, de lutas e de encontros coletivos de formação e como uma grande unidade que possa alinhavar as diferenças como nutrição para a força de transformação, para enfrentar as desigualdades, para identificar os aliados, para enxergar nas ações criativas da vida uma grande estrada de mudança nas relações entre as pessoas e com a Natureza para a sua transformação qualificada e criativa.
Que esse grande COMUM se imponha e que o primeiro de maio seja fortalecedor para a vida com dignidade e plena.
Eduardo Alves