Fotos: Veri-vg/ Imagens do Povo

Motos, em geral, representam um meio de transporte próprio mais acessível financeiramente para pessoas moradoras de favelas e periferias; com suas funcionalidades, garantem em muitas circunstâncias o acesso de forma mais digna e veloz ao conjunto da cidade e seus serviços; e “cabem” com um certo grau maior de conforto na urbanidade diferenciada de muitos territórios – que se expressa em vias mais estreitas e nem sempre asfaltadas. 

Neste sentido, as motos se consolidaram como possibilidade concreta de deslocamentos para moradoras/es de favelas e periferias e, naturalmente, também se consolidaram como ferramenta de trabalho para estes territórios e suas/eus sujeitas/os, inventivas/os por natureza, às/aos quais muitas vezes não resta outra opção que não mobilizar soluções criativas – para o deslocamento, para a urbanidade, para as práticas de lazer e sociabilidade e por aí vai.

Assim, estamos falando de um meio de transporte responsável por parte considerável dos fluxos e ritmos das favelas e periferias do Brasil e suas conectividades com outros territórios das cidades, que “ampliam a compreensão do fenômeno da mobilidade nas cidades brasileiras contemporâneas, expandindo seu sentido e abrindo espaço à inovação socioeconômica”; que muitas vezes é o único possível “em determinados trajetos, horários e circunstâncias” e é fonte de renda significativa para muitas famílias, conforme apontaram João Felipe Brito e Aruan Braga. 

Nós, do Observatório de Favelas, provocadas/os pela presença forte de um movimentado ponto de mototaxistas ao lado da nossa sede, pela nossa histórica convivência, inclusive como usuárias/os do serviço e pelas análises já mobilizadas pela pesquisa sistemática sobre mobilidade favelada a partir do mototáxi, realizada na Maré e compartilhada neste texto para a Revista Periferias, fizemos a opção estratégica por, no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil, que atinge de forma específica moradores de favelas e periferias, apoiar diretamente mototaxistas com materiais que ajudassem estas pessoas a se manterem trabalhando, já que parar não é uma opção, com proteção e segurança contra o vírus.

Com apoio de parceiros, foram distribuídas quase 1000 máscaras e cerca de 300 frascos de álcool gel para mototaxistas de 30 pontos dos Conjuntos de Favelas da Maré e da Penha, além da produção de conteúdo de comunicação (áudio, peça gráfica e vídeo) focado em apresentar soluções e caminhos para que essas pessoas, que não podem parar, se cuidem diante do vírus que vem assolando de forma muito contundente, e pouco assistida, as regiões mais pobres das nossas cidades. 

No movimento de distribuição, circulando pelos dois territórios, diversos e amplos, ouvimos muitos agradecimentos, uma série de “até que enfim lembraram de nós” e algumas histórias sobre o medo de se contaminar e não poder parar. Na garupa da moto, o medo, a angústia e a ausência de direitos trabalhistas são velhos companheiros, muito antes do coronavírus chegar por aqui. A pandemia aprofundou as incertezas.

De certeza, há a urgência e a importância de contribuir com o cuidado e a proteção desses profissionais que antes, durante e pós pandemia reinventam a cidade e garantem que o fluxo de pessoas, ações e possibilidades não pare nas favelas e periferias e no conjunto das cidades.