Por Priscila Rodrigues*
(priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – “Precisamos achatar a curva!” é o que se repetia dia após dia no rádio, na televisão, nos jornais e na internet. “Somente com a participação de todas as pessoas é possível”, complementavam clamando ao sentimento de comunidade. No entanto, o conceito de humanidade, sempre em disputa – sobretudo em sociedades estruturadas em desigualdades – em tempos de calamidade, pandemia são postos ainda mais à prova. Quem são os humanos? Quem são as pessoas?

Nas orientações amplamente divulgadas a resposta é direta: pessoa é quem pode parar sem que seus direitos fundamentais tenham que ser negociados. Diante desse cenário, começam a surgir inúmeras denúncias – sobretudo a partir do trabalho incansável de comunicadores comunitários – destacando a invisibilidade dos moradores de favelas e periferias nesse contexto.

O Observatório de Favelas atua e sempre atuará no campo da proposição. Em tempos desafiadores, como seguimos comprometidos com a nossa natureza e missão de compromisso intransigente com o fortalecimento da democracia e de atuação centrada na redução das desigualdades? Essa foi a questão colocada e a resposta foi coletiva. 

Diante da pandemia de coronavírus no Brasil,  além de desmobilizar o funcionamento dos três espaços que ocupa – a sede do Observatório e o Galpão Bela Maré, na Maré, e a Arena Carioca Dicró, na Penha –, o Observatório se propôs a incidir pública e politicamente por meio da comunicação, costurando narrativas de proteção, enfrentamento e cuidado pensadas para e a partir de moradoras/es de favelas e periferias. 

Desde o início do isolamento social, o Observatório de Favelas – uma equipe majoritariamente feminina, jovem, preta e periférica – vem se dedicando diariamente à campanha “Como se proteger do coronavírus”. Campanha de comunicação que consiste na produção de conteúdo (peças gráficas, áudios e vídeos) a partir do diálogo com especialistas e na divulgação desse conteúdo principalmente via whatsapp, e também nos perfis institucionais da organização no facebook, twitter, instagram e youtube

Como parte da estratégia de comunicação, paralelamente também pautamos a mídia hegemônica sobre o tema da campanha buscando sempre alcançar moradores de favelas e periferias e tensionar debates e a construção de políticas públicas que visem a proteção dos direitos fundamentais das populações em situação de maior vulnerabilidade frente aos impactos da pandemia.

Diante do desafio, fizemos o que fazemos todos os dias: tensionamos o deslocamento das favelas e periferias para o centro do debate. Nunca sozinhos, é importante ressaltar. Um conjunto de iniciativas, em diversos campos, tem realizado esforços complementares nesse sentido. Estamos aqui somando forças, sendo assim, parte importante da estratégia da campanha é disponibilizar todo o conteúdo para uso na íntegra e/ou que sirva de inspiração e subsídio para a construção de conteúdos outros. 

Diariamente, os materiais produzidos chegam a cerca de 5000 pessoas (entre as pessoas das nossa equipe, suas listas de contatos e as interações nas redes sociais) e não temos como mensurar o quanto estas também compartilham com suas redes – a partir das listas. O que temos recebido são muitos retornos positivos de moradoras/es de favelas e periferias e também de lideranças de outras organizações e coletivos que têm usado os materiais. O objetivo fundamental é chegar nas pessoas.

Chegar em mais pessoas é também o nosso grande desafio. Para além da produção do conteúdo, definimos estratégias de alcance que extrapolam até mesmo o campo virtual, embora este seja o meio base da campanha. Estratégias como hospedagem de todo o conteúdo no domínio Observatório de Favelas facilitando e tornando mais segura a disponibilização do conteúdo e a disponibilização de um número de whatsapp para que pessoas do Brasil todo que tenham interesse em receber o material possam fazer contato já estão em curso e outras novidades também estão à caminho!

E assim seguimos materializando as nossas utopias: disputando coletivamente narrativas de existência para e a partir de moradores de favelas e periferias.

* Priscila Rodrigues é coordenadora de comunicação do Observatório de Favelas