Querido Miguel Otávio,

Eu sei bem as dores e as alegrias de ser uma criança preta no Brasil. Eu fui essa criança nos anos 90. Minha mãe já precisou trabalhar como diarista e para que isso fosse possível, muitas vezes eu ficava com minha avó materna e quando não, eu também já cheguei a ir com minha mãe até o local onde ela fazia faxina.

Assim que soube de sua morte, um fio de memórias minhas se misturaram com a sua história, sem que a gente sequer tivesse a chance de se conhecer.

Os relatos de sua mãe e de sua tia, noticiados amplamente na imprensa, questionando o tratamento que você recebeu de Sarí Cortes Real, me invadiram de modo descomunal: senti raiva, indignação e anseio por justiça para você e sua família.

Há semanas atrás, eu e algumas colegas do Programa de Direito à Vida e Segurança Pública, escrevemos um artigo de opinião sobre o quão devastador era a pandemia para a vida de mulheres negras e suas famílias. De modo nada profético, mas apoiado em constatações evidentes questionávamos: quem cuidará das mulheres negras e suas famílias, já que estas – por necessidade – estão diretamente implicadas em trabalhos ligados aos cuidados dos outros e também dos seus? Nós queríamos que nosso questionamento ecoasse por todo país e há anos nós estamos lutamos por leis e políticas públicas que garantam direitos para mulheres trabalhadoras e suas famílias. Enquanto escrevíamos o referido artigo, alertamos em debates da agenda pública sobre a gravidade de perdas de direitos no campo trabalhista, principalmente se tratando de mulheres negras e periféricas ligadas a economia dos cuidados.

A verdade é que se vivêssemos num país antirracista, capaz de enxergar o serviço doméstico por outras lentes, que não as do legado escravocrata, mulheres como a sua mãe e a minha teriam seus trabalhos valorizados. Se nós vivêssemos num país com proteções trabalhistas efetivas, em tempos pandêmicos, todas as trabalhadoras domésticas teriam direito a quarentena com remuneração. O fato é que no Brasil isso ainda está muito distante de acontecer e mesmo o trabalho doméstico não sendo um serviço considerado essencial, as mulheres negras e pobres estão em maioria precisando se expor ao vírus para garantir o sustento de seus lares. Assim, o isolamento social necessário tem sido, para muitas de nós, partes de nossas utopias.

O capricho da branquitude potencializa o risco de mulheres negras e periféricas serem vetores do vírus para suas famílias. Por isso também frisávamos: “Essas mulheres continuam trabalhando no cuidado de outras pessoas fora do seu contexto familiar, circulam pela cidade, utilizam transporte público e retornando para suas casas são demandadas a cuidar de suas famílias. No entanto, uma vez adoecidas, quem cuidará dessas mulheres e de suas famílias?”

Hoje me pergunto: por que Sari não cuidou de você? Por que ela, como mãe, não viu naquele momento a necessidade de te proteger dos perigos externos, assim como sua mãe protegeu e zelou pelos filhos de Sari como se fossem seus? Por que aqueles que julgam de modo desenfreado seu jeito “levado” não conseguem ver em você um criança esperta, habilidosa e com potencial para ser um grande líder, um advogado, um doutor ou o que você sonhasse em ser?

A resposta todos nós já sabemos e nela a cor não é um elemento desprezível.

Me dói perceber que você – tão novo – teve que passar por isso. Me dilacera saber que o vazio que sua mãe sente por sua partida jamais cessará. É cruel constatar que você sequer tinha idade para entender o quão violento o mundo pode ser para pessoas negras. É possível que você nem tivesse chegado à fase de aprender a ler e escrever suas primeiras palavras. Mesmo assim, transformo essa revolta coletiva neste escrito dedicado a sua memória e, também, endereço essas linhas a todos os filhos e filhas de trabalhadoras domésticas do Brasil.

                Com amor e ímpeto por justiça,

                           Aline Nascimento

Coordenadora Executiva do Programa de Direito à Vida e Segurança Pública
do Observatório de Favelas.