Gabrielle Araujo - Reportagem

Gabrielle Araujo - Reportagem

gabrielle@observatoriodefavelas.org.br

Marcella Pizzolato - Arte

Marcella Pizzolato - Arte

marcella@observatoriodefavelas.org.br

Rio de Janeiro – Cada vez mais, a arte é utilizada como ferramenta para debater sobre temas que são latentes na sociedade. Assim foi com a chamada pública “Cenas DELAS: direitos, política e arte“, no qual cinco artistas foram escolhidas para amplificar o enfrentamento da violência letal e não letal contra mulheres. A iniciativa foi promovida pelo Programa de Direito à Vida e Segurança Pública do Observatório de Favelas com apoio da Open Society Foundations. 

O objetivo central do projeto foi fomentar o trabalho produzido por mulheres negras, cis ou trans, que fossem moradoras de favelas e periferias do Brasil. Além disso, todas as propostas devem considerar também marcadores sociais, como raça, classe social, sexualidade e identidade de gênero. Para esse desenvolvimento, foram escolhidas cinco mulheres, sendo três do Rio de Janeiro e duas da Bahia. Todas elas receberam um prêmio de R$1000,00 para suprir as demandas da produção de suas obras. Ao todo, foram 30 inscrições, de mulheres com faixa etária entre 22 e 45 anos, e com predominância de mulheres negras.

A pedagoga, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGECC/UERJ) e pesquisadora do eixo de Direito à Vida e Segurança Pública (DVSP) do Observatório de Favelas, Natalia Viana, comenta que o “Cenas DELAS” foi o resultado de uma série de incidências sobre a garantia de direitos das mulheres, com a interseccionalidade de raça e gênero, promovidas pelo DVSP ao longo de 2020 e 2021. Como exemplo disto, há a formação online “Curso DELAS“, realizada durante os meses de agosto e setembro do ano passado e que resultou no “E-book DELAS: estratégias de enfrentamento à violência de gênero e letalidade feminina”. “Estamos desenvolvendo pesquisas e incidências públicas que tenham relação com o tema da letalidade feminina. Ter a possibilidade de produzir intervenção audiovisual nesse contexto, onde conseguimos trazer a atenção para essa temática tem esse lado positivo de você conseguir explorar dentro da temática outras formas de denunciar.”, completa.

A proposta, dialoga ainda com uma realidade imposta com a chegada da COVID-19. “Como pesquisadora, eu acho que tem uma questão que é o desafio que a gente vivenciou da pandemia, que agravou as desigualdades sociais”, reforça Viana. As taxas de violência contra a mulher tiveram um aumento em 2020. O canal 180, que recebe denúncias, marcou crescimento de 37% em abril do ano passado quando comparado ao mesmo período em 2019. Os dados são do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, divulgados um mês após o decreto da pandemia e com as medidas restritivas de isolamento em vigor.

Para a chamada pública, a equipe não se limitou em selecionar uma única linguagem artística, para isso foram aceitos vídeo-arte, vídeo-performance, filme ou sequência de imagens (gravuras, colagens, fotografias ou pinturas). “Dessas obras, nós conseguimos compilar em um único vídeo que foi exibido em uma intervenção no Complexo do Alemão, projetado no muro do Teleférico”, explica Natália. Essa ação foi feita através de uma parceria com a Casa Brota, espaço cultural que trabalha com hospedagem sustentável, empreendedorismo, cultura e comunicação.

Foto: Patrick Mendes/Imagens do Povo
Thais Gomes, coordenadora do Programa DVSP, em diálogo com moradora do Alemão durante projeção – Foto: Patrick Mendes/Imagens do Povo

Para a moradora do Alemão, Renata da Silva, 42, que acompanhou a projeção no Alemão, uma das formas de reduzir as agressões contra as mulheres começa dentro de casa, com a educação. “Muitas se calam, isso é certo. Eu tenho dois filhos homens, um de 28 e um de 11. Principalmente com o de 11, eu tenho uma disciplina boa, digo para não trair a mulher. Não quer? Não fica mais com ela. Essa questão de agressão ele nunca viu acontecer dentro de casa. Mas fica na rua ouvindo os coleguinhas falando que teve briga dentro de casa. Por isso, eu falo muito com ele para não chegar a este ponto quando ele estiver maior”, afirma.

O jornalista e cineasta João Araió, foi o responsável pela edição do vídeo final do “Cenas DELAS”. Ele integra a equipe do GatoMÍDIA, rede de metodologia e aprendizado em comunicação e tecnologia para jovens moradores de favelas e periferias. “Eu acho que foi muito potente ter feito essa escolha de misturar as linguagens dentro do audiovisual. Você vê que tem um trabalho inspirado no teatro, mas tem as colagens, que é uma coisa mais visual e possui sua poética. Além disso, tem o roteiro de alguns dos vídeos, com falas muito fortes. No fim, você junta esses trabalhos para dar força a um grito que não é somente sobre aquela realidade, mas que você quer transcender e provocar as pessoas para que possamos construir outra realidade”, elucida João.

Ao encontro de Natália, a doutora em Psicologia Social pela Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense de Madrid (UCM) na Espanha, diretora do Observatório de Favelas e coordenadora geral do DVSP, Raquel Willadino, afirma a importância de articular projetos com um objetivo único que é promover a sensibilização e meios para reduzir a violência contra a mulher. “Desenvolvemos o Curso ‘DELAS: Direitos, Política e Arte’ que foi voltado para mulheres, negras ou periféricas, com o objetivo de fortalecer a atuação de mulheres na conquista de seus direitos e no enfrentamento de violências. Para isto, além de oferecer aulas centradas no enfrentamento de violações de direitos e da violência de gênero, o curso envolveu um trabalho no campo artístico a partir da fotografia, poesia, expressão corporal e audiovisual.  Este contato, foi um elemento importante para ampliar as percepções sobre violências de gênero e gerar estratégias de incidência política articuladas com intervenções artísticas. Nessa perspectiva, criamos a iniciativa ‘Cenas DELAS'”, acrescenta.

Raquel comenta ainda que não apenas em iniciativas pontuais, mas que o DVSP busca sempre considerar os principais marcadores sociais para pensar em atividades e demais iniciativas que pautem a temática de gênero de forma inclusiva, diversa e capaz de retratar as multiplicidades de demandas que permeiam a vida de mulheres moradoras de favelas e periferias. “Consideramos que esse enfoque é fundamental para  pautar políticas de atendimento especializado a mulheres em situação de violência, que considerem os contextos e as demandas de acolhimento específicas”, pondera.

Além da intervenção no Teleférico do Alemão, uma parceria com o Metrô Rio foi formalizada para que o teaser do “Cenas DELAS” fosse exibido nas televisões dos trens durante março de 2021, mês que marca a luta por garantia de direitos das mulheres. Além de colaborar com a sensibilização acerca da violência contra a mulher, a ação contribui ainda para que mais pessoas possam se engajar em prol desta temática. “O objetivo central era possibilitar que o debate circulasse pela cidade para mobilizar moradoras e moradores de diversos territórios a partir de trabalhos artísticos produzidos por mulheres”, assegura Raquel.

A coordenadora executiva do DVSP e especialista em Movimentos Sociais pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEPP-DH/UFRJ), Thais Gomes, cita alguns dos desafios enfrentados ao longo do caminho. “Para nós, que trabalhamos com o debate da violência, sobretudo com ênfase na violência letal, é muito desafiador produzir uma comunicação sobre a temática que atinja a população de modo sensível, sem deixar de ser informativo, e que ao mesmo tempo se comprometa com uma linguagem que humanize as vítimas dessas violências”, transcorre.

Thais pondera ainda que é preciso pensar para além das narrativas que são propagadas diariamente, mas pensar em uma forma de incidência política e social que seja efetiva e atenda às pluralidades. “Esperamos contribuir para redução das múltiplas expressões da violência que atingem negras, cis ou transexuais, moradoras de favelas e periferias, e lésbicas”, elucida a pesquisadora.

Para este ano, além da expectativa de colher resultados das estratégias iniciadas em 2020, Gomes enumera que o DVSP pretende lançar uma pesquisa sobre violência letal e não-letal contra mulheres no Estado do Rio Janeiro no segundo semestre deste ano, além da segunda edição do Curso DELAS. “Ainda para o primeiro semestre nós estamos desenhando o curso que tem perspectiva de lançamento de edital agora no mês de abril. Ademais, seguimos esse ano comprometidas em construir coletivamente espaços de articulação política que tenham por objetivo fortalecer o enfrentamento à violências contra mulheres, bem como o acesso delas aos seus direitos”, conclui.

Em colaboração com as perspectivas sobre a garantia de direitos das mulheres, convidamos as cinco artistas que integram o Cenas DELAS para nos ajudarem a responder:  Para você, qual a importância de utilizar a arte como ferramenta para propor uma reflexão sobre violência de gênero, letalidade feminina e a afirmação do direito à vida das mulheres?

Brainer Lua

"A arte é uma manifestação clara e potente. É um quadro em branco que a gente vai lá e coloca o que queremos como expressão. A arte, como essa ligação de comunicação, também serve muito para autenticar e fortalecer vias. É necessário que esse projeto esteja caminhando e articulando entre outras fronteiras, agências e periferias para que possamos entender que os corpos e mulheridades são diversos. Assim, a gente começa a saber em que as mulheres trans realmente estão atuando e como está essa geração e o suporte delas. Esse trabalho me deu força, ele é potente”.

Érica Sansil

"Antes de qualquer coisa, a violência de gênero é um crime e, como tal, deve ser combatido por toda a sociedade. E os artistas não podem se omitir diante dessa prática. Eu acredito que produzir obras que refletem, questionam, denunciam esse tipo de conduta é essencial para construirmos um diálogo mais leve, e consequentemente alcançar mais pessoas."


Lidiane Souza

“A arte é o meu lugar de fala. Eu digo com ela aquilo o que no meu dia a dia eu não consigo falar. Por meio dela consigo me comunicar com muitas outras pessoas aquilo o que eu sinto. E participar do Cenas DELAS foi muito forte pra mim e para todas aquelas que estavam ao meu redor e acompanhou o processo de criação. Pensar a violência de gênero é algo muito doloroso que perpassa o corpo daquela que reflete essa questão. A arte é importante, porque ela tem essa potência de fazer a gente emergir e sentir o lugar do outro, e ver a partir do olhar do outro é algo transformador.”

Naira da Hora

“A arte é uma arma potente, ela atinge a nossa sensibilidade de forma direta, e tem o poder de transformar de dentro pra fora. A arte salva, porque ela planta sua semente de mudança no coração do público, ainda que seja a partir da provocação de indignação no indivíduo. A arte é a arma mais potente.”

Thamires Fortunato

“A importância de ter sido possível ressignificar o olhar sobre as imagens e consequentemente problematizar aspectos que foram negativados  na história da população negra. Nesse intuito é reconstruir a narrativa periférica e preta, com aspecto da luta que envolve incríveis mulheres negras lutadoras no contexto de  resistência no território do Rio de Janeiro.”