Reportagem – Gabrielle Araujo (gabrielle@observatoriodefavelas.org.br)
Arte – Taiane Brito (taiane@observatoriodefavelas.org.br)

O verso, que intitula a matéria e introduz o texto, é da canção Transgressão, de autoria da cantora paulistana Jup do Bairro em parceria com Felipa Damasco, e é um manifesto de liberdade. Direto e sem rodeios. Em uma analogia ao Dia Nacional da Visibilidade de Transexuais e Travestis, comemorado todo dia 29 de janeiro, a música ajuda a refletir sobre a perspectiva a qual pessoas travestis e transexuais estão inseridas na construção de suas identidades, garantia de direitos e, principalmente, na qualidade do seu bem-estar social e psicológico.

O tema da saúde mental ganhou destaque no último ano com o início da pandemia de coronavírus, instaurada no Brasil em março de 2020. Nas redes sociais, o discurso sobre estratégias de autocuidado e falas de especialistas integram múltiplos formatos de comunicação, como podcasts, artigos ou documentários. Matéria publicada pelo Estadão, com dados exclusivos fornecidos pelo Google, mostra que em 2020 houve um aumento de 98% das buscas sobre transtornos mentais na plataforma em relação a 2019. Porém, o acompanhamento psicológico ainda é um ponto crítico. 

Para o estudante de Relações Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ativista pela defesa dos direitos da criança, do adolescente e da juventude e morador da Maré, Rahzel Alec, de 23 anos, é urgente a necessidade de estabelecer mecanismos de conforto para garantir o acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) de transexuais e travestis de forma integral e humanizada. “Existem psicólogos no nosso SUS, mas esses profissionais estão devidamente capacitados para acompanhar pessoas trans, respeitando nome e identidade de gênero? Não. A tia do postinho vai chamar a travesti no feminino? As pessoas que fazem os agendamentos no sistema sabem da existência do nome social e como incluí-lo na carteirinha? A falta da capacitação desses profissionais, por exemplo, podem causar constrangimento e afastar a população trans desses espaços”, comenta.

Para debater esse ponto com as informações necessárias, é importante navegar na história e resgatar movimentos sociais que existiram para fomentar essa garantia de direitos. Como exemplo, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT do Ministério da Saúde, que é um conjunto de protocolos e diretrizes que visa orientar sobre as demandas específicas que atendem a população LGBTQI+. Apesar do documento ser um marco histórico na luta pela garantia do acesso integral ao SUS, ainda há muitos desafios a serem rompidos – principalmente na postura dos profissionais responsáveis pelo atendimento.

“A transfobia, que desumaniza os corpos trans, não é uma violência criada pela nossa comunidade. E não deveríamos falar sobre isso apenas em Janeiro” – Rahzel Alec

Ao falar sobre saúde mental, é comum relacionar a criação de redes de apoio, sejam de amigos e familiares ou de instituições da sociedade civil. Contudo, por vezes essas iniciativas surgem como forma de reduzir os impactos da ausência do Estado em promover políticas capazes de atuar em prol das demandas do público LGBTQI+. Questionado sobre esse assunto, Alec pondera que é válido, mas não devemos omitir o papel dos governantes e das pessoas cis. “É urgente! Hoje têm existido cada vez mais movimentos e instituições lutando pela garantia dos direitos das pessoas trans, seja pela inclusão na educação ou seja no cuidado. O problema, no geral, é das pessoas cis acreditarem que apenas nós devemos lutar pela garantia dos nossos direitos. Quando a transfobia, que desumaniza os corpos trans, não é uma violência criada pela nossa comunidade. E não deveríamos falar sobre isso apenas em Janeiro”, desenvolve.

Sobre os cuidados com o psicológico, o jovem dialoga sobre as ações de auto escuta  e quebra de um padrão de masculinidade que tenta impedir os homens de externalizar os seus sentimentos. “Sempre busco refletir sobre o que tem me machucado. Porque, no final, não vou poder evitar todas as violências, mas posso filtrar esse sentimento de alguma forma. Conversar com amigos também é um grande refúgio. Não é um problema demonstrar que eu também sinto as coisas”, explica. Neste movimento de busca pelo seu bem-estar, o estudante mobiliza uma vaquinha online, chamada de “O Alec sem peito, é o Alec feliz” (acesse aqui), para custear a cirurgia de retirada das mamas, a mastectomia. A motivação veio, principalmente, após contrair COVID-19 em 2020 que fez com que o uso do binder – faixa que reduz o volume dos seios por baixo das roupas – que já era um processo doloroso, se tornasse insuportável, comprometendo a realização de atividades simples da rotina. “Não é estética e sim a materialização da liberdade e do estar bem consigo mesmo”, finaliza.

“O politicamente só é chato quando você não é a vítima desse processo”.

Semelhante a Rahzel, a publicitária e ativista dos direitos humanos, da igualdade racial e da garantia de direitos de LGBT e outras minorias políticas, Ludymilla Santiago, de 38 anos, afirma que o Estado deve investir em políticas públicas para transexuais e travestis. “Quando a gente não trabalha em cima disso, a gente não garante que essas pessoas tenham a manutenção do que de fato foi construído e dado. Dependendo do tipo de política que temos no poder ou que nós fortalecemos e, dentro de uma conjuntura que não há separações, fazemos com que políticas que foram construídas com muito custo e demoraram a ser efetivas e trabalhadas com populações de minorias políticas, sejam perdidas”, completa.

Ludymilla é uma mulher negra e trans, moradora do Distrito Federal. Sua trajetória no movimento social teve início em 2009 através da participação na Associação do Núcleo de Apoio e Valorização à Vida de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Distrito Federal e Entorno (ANAVTrans), na qual permanece até hoje como colaboradora. Além disso, também é integrante da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), criada em 2000 na cidade de Porto Alegre, e referência em articulação e ações de promoção da cidadania da população de Travestis e Transexuais no Brasil. “Com o decorrer desses onze anos de participação de movimentos, tiveram vários processos que eu entendi que não iria passar dos 35 anos. Ainda é uma realidade muito cruel. De acordo com alguns estudos, você vê que a população geral vive até os 75 anos. E 35 não é nem a metade disso. É muito doido ter autocuidado com isso e se manter dentro de uma expectativa de vida como essa”, apresenta.

“A população geral vive até os 75 anos. E 35 não é nem a metade disso. É muito doido ter autocuidado com isso”, Ludymilla Santiago

A relação com a família, com falta de apoio e respeito, ainda pode ser um desafio para pessoas LGBTQI+. Segundo o Censo da População em Situação de Rua, da Prefeitura Municipal de São Paulo, são 386 pessoas trans vivendo nas ruas. O levantamento reúne uma pesquisa feita em 2019 e expõe ainda que, deste total, 78 são mulheres e 49 pretas ou pardas. Viver com a família afetiva, foi uma das escolhas de Ludymilla para manter o seu autocuidado. “Durante muito tempo, uma forma de fazer esse autocuidado, foi me isolar dessa parte de família sanguínea, porque muitas pessoas incidiam sobre essas questões. Até onde se tem entendimento, eu fui a primeira mulher trans da família”, pondera. A comunicadora aproveita ainda para relembrar o período durante a graduação de publicidade no qual lidou com uma depressão e foi uma das etapas de seu processo de entendimento sobre saúde psicológica. “Eu comecei a fazer terapia, porque na época ainda tinha o suporte de um plano de saúde. Pelo fato de eu não conseguir sair no portão nem para colocar o lixo na rua, trocar o dia pela noite para não querer falar com as pessoas e não saber explicar o que eu estava passando”, relembra. 

Ela é enfática ao dizer que ao dialogar sobre zelo pessoal, ainda passa pela autoproteção da cultura social que por vezes marginaliza e criminaliza corpos trans. “O politicamente só é chato quando você não é a vítima desse processo. Como Angela Davis diz, nós só vamos movimentar uma sociedade, quando a gente for na base, que são as mulheres negras e de classes baixas. E vou parafrasear ao dizer que nós vamos nos movimentar ainda mais, quando a gente entender que as mulheres travestis pretas e periféricas, tem muito a contribuir com isso”, finaliza.

A mídia e a construção da identidade

Para a DJ, produtora cultural e estudante de Cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF), Ivy , 21 anos e natural de Pernambuco, as produções audiovisuais são uma das responsáveis pela criação de narrativas que permeiam os imaginários sociais e isso interfere na construção da identidade social. “Eu penso que as produções são primordiais na nossa construção como seres sociais, das nossas idealizações, dos nossos sonhos e da forma como nos relacionamos com o outro. Mas temos que pensar que a maioria das produções de hoje e de toda a existência do audiovisual ou de outro produto midiático, são voltadas para uma lógica cis”, apresenta.

O desconforto é objetivo, além de ser um dos segmentos de constante crescimento no país, o audiovisual movimenta não apenas uma estrutura social, mas também a economia. Como mostra o estudo da Agência Nacional do Cinema (ANCINE), que apontou que em 2018 o setor movimentou cerca de 26 bilhões de reais na economia do país. A pesquisa foi publicada no Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA) e reúne um levantamento de 2015 a 2018.

Com tantos números, investir em profissionais plurais e diversos para estampar as produções cinematográficas não seria um problema. Entretanto, essas pessoas ainda precisam lidar com papéis secundários e, por muitas vezes, satirizados. E isso impacta na saúde mental de transexuais e travestis. “Durante muito tempo a nossa construção da identidade é feita a partir do que o outro viu e não do que é a realidade para nós. Sejam as histórias dos adolescentes nas escolas, as dos relacionamentos ou dos personagens tentando conseguir trabalho. Esses papéis em que as pessoas que estão em destaque, raramente são corpos que se assemelham aos nossos ou são os nossos. Isso acaba nos colocando numa posição de inexistência e isso vai interferir diretamente no nosso psicológico. A gente não vê na mídia, logo não vai ver na sociedade”, sintetiza a produtora.

“Pessoas que estão em destaque, raramente são corpos que se assemelham aos nossos ou são os nossos”, Ivy

De exemplo recente, a Rede Globo está com uma reprise da novela “A Força do Querer”, que tem a atriz Carol Duarte interpretando o personagem Ivan, que passa pela transição de gênero. “Por mais que eu entenda que a narrativa que ocorre é fictícia, mas quando você fala sobre a vivência trans e não contrata atores trans para viver esses personagens ou qualquer outro, você está usurpando um discurso e perpetuando a marginalidade daquele corpo. Mas ainda assim, aquela narrativa é essencial para a sociedade entender quem nós somos e o que vivemos. Conheço homens trans que assistiram a novela e somente depois conseguiram entender e se identificar como pessoas trans”, completa. Incentivar a participação de travestis e transexuais nas produções cinematográficas, como pontua Ivy, é primordial para criar possibilidades. “Nos mostra como somos e também ajuda a ver que são realmente pessoas que vivenciam aquilo e vai ser importante para o nosso processo mental por entendermos que somos capazes. Ver essas pessoas nesses locais é fortalecedor e essencial para a nossa saúde”.

Para finalizar, Ivy é objetiva ao pontuar que o que movimenta as estruturas e garante bem-estar psicológico, também tem ligação com os acessos ao emprego, direito à vida e formação das redes de apoio. “Algo que me fez sair desse lugar de depressão ou do mal psicológico, foi ver que portas estavam se abrindo para mim. Comecei a estagiar, a morar em uma casa boa. Muitas coisas acabam nos prejudicando por essas incertezas, de ter uma casa, um emprego, alguém do meu lado. A partir do momento que temos oportunidades, nossa saúde mental vai se estabelecendo de uma forma saudável”, encerra.

Para alcançar a máxima do bem-estar social, que possamos para além do dia 29 de janeiro, propor uma reflexão sobre o contexto ao qual travestis e transexuais estão inseridos, seus atravessamentos e processos de existência. Parafraseando Jup do Bairro, Alec, Ludymilla e Ivy seguem longe, e sem fazer parada.