Por Eduardo Alves* (edu@observatoriodefavelas.org.br)

Dia 13 de maio, é o dia da abolição da escravatura, por conta de uma lei assinada pela Princesa Isabel em 1888. A lei foi assinada, mas como “os lírios não nascem da lei” os escravos continuaram. Sem que se fizesse a superação das condições de trabalho e da vida; sem a superação dos poderosos de então, não se poderia viver o fim da escravidão. Seguiram ganhando novas formas é verdade. O modo de produção escravista não existe mais, mas a manutenção das profundas desigualdades, a exploração da força de trabalho e a interdição do potencial humano criativo mantiveram, em novas condições e novos formatos, a escravidão na atualidade. Na sua grande maioria, são as pessoas negras que seguem vivendo mais abruptamente tais consequências.

Não há, portanto, abolição para se comemorar nesse dia, ainda que exista muito para ser conhecido, estudado e divulgado para não se permitir que a naturalização de tal situação tome cabeças e corações. A maioria das pessoas, que no Brasil vivem as consequências dos novos açoites, são as negras. Por aqui, os meios de comunicação, não se cansam em publicar estudos apontando as desigualdades em comparação de pessoas negras e brancas. Seja nas condições de manutenção da vida, por meio do trabalho assalariado, seja em toda superestrutura que se ergue na educação, nas artes, nas filas absurdas dos hospitais ou nos locais de moradia.

A maioria das pessoas das periferias são negras e não poderia ser diferente, sem que exista uma ação contundente para superar a exploração. Se os transportes financiados pelo Estado são empilhados de pessoas negras isso já se torna natural para os sentidos e se transforma em deboches. As piadas não param de circular os encontros e se ouve ainda, aos quatro cantos, palavras pejorativas sobre pessoas negras e moradoras de favelas. A potência criativa que marca a identidade com as periferias, segue para baixo do tapete para quem não quer enxergar as ações contundentes já existentes. E são, essas ações criativas, frutos de inventividade, que são criadas rasgando o véu das desigualdades.

Há frestas da potência, que pulsam em atividades artísticas e em trabalhos coletivos que chamam atenção. Nesta hora as lentes surgem de vários lados para buscar os lindos desenhos, sem compromisso de lembrar que superam os limites impostos pela ordem estabelecida. Em atos inflamados, repletos de inspirações revolucionárias, há uma pulsão humana falando mais alto e as pessoas negras mostram que estão construindo a transformação. Assim foi, por exemplo, com o samba da Tuiuti ou com a mostra Diálogos Ausentes que ocorreu no Galpão Bela Maré.

A exposição Diálogos Ausentes, que apresenta produções contemporâneas de pessoas negras no Brasil, é uma demonstração do que se comemorar. Comemorar as ações que apresentam caminhos para se romper com as barreiras da escravidão; as ações que criam frestas criativas de uma humanidade pulsante e com potencial transformador; a presença marcante que o poder busca apagar com balas e interdições. Tal potencial criativo precisa sim ser comemorado, mas não no dia da tal abolição, que serviu como manto ideológico para expor uma liberdade inexistente. Deve-se comemorar todos os dias de vitória que as pessoas negras constroem frente a toda as adversidades impostas pelo mercado e pelo Estado.

O desafio é organizar a potência que pulsa e que marca tais territórios em ações que possam vencer as desigualdades em todas as suas formas, com arquiteturas cada vez mais coletivas. Há condições, há forças, há possibilidades e caminhos para ações transformadoras cada vez mais amplas para construir a verdadeira abolição. Uma revolução que o trabalho ôntico seja conquistado e que a dignidade humana seja resplandecente nos múltiplos aspectos da vida. Para isso é necessário muita unidade organizada e investimentos comprometidos na formação teórica-política continuada.

Mas não se pode esquecer: neste dia 13 de maio, coincidindo com o segundo domingo do mês, também foi o dia das mães. Que pese o fato de ser a segunda principal data para o comércio, houve o que se comemorar nesse dia, portanto. Que se abracem todas as mães, afinal, isso é o que importa e é o grande presente dessa história, nesse e em todos os dias do ano. Principalmente as mães que se assumem no papel de educadoras, em um mundo que transforma seres humanos em objeto, são dignas de todos os abraços. Gritos eufóricos para as mães negras, que vivem todas as consequências mais duras que a vida tem para apresentar pela imposição das desigualdades. Suas filhas e seus filhos estão construindo ações potentes e criativas nas artes, nas escolas, nas universidades, em todas as rodas das periferias. Valeu comemorar a força da mulher: Viva o dia das mães!

*Eduardo Alves é Diretor do Observatório de Favelas