Por Jorge Barbosa*

A cidade do Rio de Janeiro é bonita por Natureza. Beleza revelada em suas praias e montanhas. Em todos os seus cintilantes azuis. Foi fundada para o combate: para guerra contra piratas e corsários e a tomada de terras dos grupos indígenas. Entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar, a cidade não era uma cidade. Era apenas um recurso natural. Mudou de localização. Mas continuou próxima ao mar. Cidade marítima. Avistada por seus visitantes logo na primeira luz da manhã. Suas primeiras ruas: a Direita e a da Lama já demonstravam o encontro impar da tradição portuguesa com o popular em formação. Por elas percorriam homens negros e mulheres negras. Cortejos para o trabalho, para celebrar deuses, para festejar a vida. Os olhares estrangeiros transportavam a cidade para África. Não era surpresa. A cidade chegou a ser uma das maiores cidades negras do Atlântico do século XIX. Por isso os batuques e cantorias da diáspora africana muitas vezes abafavam os açoites da escravidão. A cidade proclamou a liberdade do cativeiro, mas não igualdade entre brancos de posses e negros desapossados. Em seguida, a cidade proclama a república para o país, e não para os homens e mulheres comuns. Mas foram os intelectuais, poetas, músicos e prostitutas é que transformavam a cidade em um espaço cosmopolita. Mas de tão africana foi preciso mudar a paisagem. Era preciso vestir a cidade de Europa, no modelo Paris. Avenidas, praças e ruas foram abertas para reconfigurar a paisagem celebrante do moderno século XX. O porto moderno aterrou praias e ancoradouros. Bondes levaram para mais longe os ricos dos pobres. Quiosques, casa de cômodos e cortiços foram declarados insalubres e socialmente perigosos. Bota-se abaixo! E foi-se o colorido da África: das vestes, dos turbantes, dos colares (ainda nos resta a feira da Iabás em Madureira para encantar o presente!). Removidas também foram as lagoas, os morros, os outeiros, os manguezais. Boa parte das obras da história da natureza sobreviveu o suficiente para a cidade ser chamada de maravilhosa. Natureza convertida em símbolos: Corcovado e Pão de Açúcar. Nossa geografia de encontros não aconteceu sem perdas e danos. Cordiais, nunca fomos, especialmente quando se trata dos diferentes. Mas, não foi Capricórnio, ou Carmem Miranda, nem mesmo o Zé Carioca de Wal Disney, o (a) criado(a)r de nossa identidade tropical. Nossa tropicalidade, geralmente tratada como exótica ou como uma vergonha a ser coberta, é pouco entendida como uma expressão generosa da pluralidade de encontros que a cidade abrigou, e ainda abriga, felizmente. A cidade do Rio de Janeiro é tropical porque é uma obra da geografia particular de encontros das diferenças socioculturais, algumas delas envolvidas nos caprichos da natureza. Por isso, talvez seja fácil ser carioca, mesmo não sendo da gema. Embora seja extremamente difícil se afirmar como cidadão em nossa cidade. Começamos como índios, portugueses, marranos e africanos. Não somos uma mistura de liquidificador. Somos uma cidade que precisa reconhecer as experiências mais plenas do existir no mundo. Um bom começo para celebrar os nossos 450 seria reconhecer a nossa matriz tropical. Esse pode ser um caminho seguro, embora não sem conflitos, para inventar um presente de convivências mais generosas. A cidade como geografia de encontros!

*Professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense e diretor do Observatório de Favelas