por João Felipe Brito* (joao@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – A cidade vota, e vota a cada dois anos. Naqueles outubros adesivados, com amontoados de papeis e números e siglas, no intervalo dramático entre a casa e a urna, ela se divide entre os que votam cobrando mais eficiência administrativa na urbe, os que miram as taxas, e tendências, o destino, e os que presentificam essa coisa toda, que exigem mais atuação localizada dos poderes constituídos. Para os primeiros, a cidade é fruição, meio e representação. Para os outros, ela é palco de estratégias pessoais, locus de correria diária. Quanto mais segregado o lugar, mais pragmático o voto: uma linha de ônibus que circula até mais tarde, uma passarela pra atravessar a avenida, uma ponte sobre um rio ou valão, uma praça num terreno baldio, uma reforma no centro comunitário. Quanto mais pobre, mais imediatista a escolha: óculos, dentaduras, exames médicos, um “projeto social” para as crianças e velhos. Dentro de cada um desses lugares, uma arranjo de necessidades e crenças diferentes e desniveladas.

E eis que surge a figura mais importante do processo eleitoral em micro-escala: o cabo eleitoral. A ele, ou ela, cabe uma percepção sensível e propositiva diante dessas demandas locais. Associa-se ao vereador ou ao deputado, coronel ou patrão, ao filho ou ao camarada desses. Trabalha aperfeiçoando o sentido do discurso e a tamanho das promessas do candidato, sempre à medida do potencial de votos que aquela área pode resultar. Há um cálculo no comitê que ajusta o dinheiro gasto com a campanha e o número de votos conseguidos, a cada eleição, em cada zona. O cabo eleitoral com renome na praça é aquele que entrega mais votos pelo menor custo. Sabe do cruzamento ideal para a faixa, da sombra para o palanque, do público de cada seção, de quem tem estima e jeito para bater de porta em porta. Esse sujeito tem virtudes de antropólogo e urbanista, jornalista e pastor. Compreende o cotidiano e o nível de inserção urbana da comunidade ou bairro a ponto de sugerir ao chefe intervenções emblemáticas, talvez caras, mas muito resolutivas. E no entanto, diálogo ainda com cada alma isolada, intranquila e desejante. Faz acenos e escutas, esbanja eloquências e constatações em bares, beiras de campo e portas de igrejas. É um especialista na arte de intermediar vontades. Contra o cabo eleitoral, não há revolução possível. É um invencível conhecedor do patrimonialismo nacional e da insuperável escola de vida das filas, esquinas e calçadas brasileiras. Num cenário de fundos partidários escassos, é esse o mestre-de-obras que comanda o canteiro.

Sobram memes e vídeos nas redes sociais. São desiguais a grana e o tempo de TV, os debates pegam apenas os insones e os mais curiosos, só apresentam a disputa ao cargo mais alto, mais distante, e presidente não vai lá onde moro. Na poeira das ruas, pois, é onde a coisa vai se decidir, de novo, ainda. Já começou, já tem recrutamento e gente batendo aqui. A virada eleitoral começa com carro de som e termina em churrasco, para honra e glória dos senhores eleitos.

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*João Felipe Pereira Brito é carioca e nasceu e cresceu em Bangu, periferia oeste do Rio de Janeiro. É pesquisador e atua no eixo “Direito à vida e Segurança Pública” do Observatório de Favelas. Bacharel em ciências sociais pela UFRJ, fez mestrado e doutorado em sociologia e antropologia pelo PPGSA-UFRJ e extensão em planejamento e gestão de políticas socioambientais pela PUC-Rio.