Por Jailson de Souza e Silva*

Rio de Janeiro – Minha perspectiva com esses mini ensaios semanais é contribuir para que nos coloquemos diante do desafio de reinventar a revolução – aqui entendida como o processo de radicalização da democracia e da perspectiva republicana – no contemporâneo brasileiro. Diante disso, não podemos deixar de falar das práticas fascistas que têm dominado o cenário político e tentam expulsar do debate público qualquer pensamento crítico ou simplesmente racional.

Costumamos vincular o fascismo a um sistema político centrado no Estado e na construção de corporações a ele obedientes, sob o monopólio de um partido único. No entanto, essa é sua manifestação política histórica. Os fascistas contemporâneos, e não só no Brasil, defendem, ao contrário do passado, um Estado mínimo – centrado no controle autoritário dos direitos – e um Mercado máximo, com todo poder e liberdade aos detentores do Capital para maximizarem seus lucros, tendo as pessoas e a natureza como seus instrumentos e fontes de riqueza material. Defender essas concepções no contemporâneo esbarra nos limites objetivos da natureza, que sofre os impactos da ação humana – especialmente no âmbito do clima -, e no direito das pessoas aos seus corpos, acesso a condições básicas de vida e sua dignidade preservada.

Desde o renascimento, a disputa no mundo ocidental entre aqueles que defendiam a liberdade do indivíduo e do Mercado diante do Estado e os que valorizavam a eliminação da igualdade como a maior necessidade do sistema social ocorreu mediada pela razão. A crença que seria possível construir uma sociedade organizada a partir de grandes consensos – a hegemonia gramsciana – a partir do convencimento racional foi se tornando aceita e pressuposta pelos atores relevantes no mundo social. O campo político, no processo, foi se afirmando como a instância de construção de caminhos para dar uma resposta institucional às posições políticas, com a perda de substância das posições políticas fascistas e, no outro extremo, Stalinistas.

A grande novidade dos tempos recentes, em particular depois da derrocada do socialismo de Estado e da crise do Welfare State, é que aqueles que defendem o poder absoluto do Mercado sobre as pessoas e sobre a natureza têm como estratégia negar, de forma extrema, o campo da política como espaço de negociação. Ao mesmo tempo, afirmam e praticam uma relação antagônica com a diferença, na perspectiva de hierarquizá-la. O outro, o distinto do mesmo, deve ser radicalmente subordinado ou, no limite, eliminado.

A negação da política como campo de mediação dos conflitos e do direito do outro a existir como ser social precisam apelar para a desrazão, pois não há argumentos racionais que permitam a construção de uma narrativa lógica e coerente que sustente essas proposições. A desrazão, então, é construída de forma progressiva, sistemática e ordenada pelas forças fascistas. Nesse movimento é que se fabricam as “pós-verdades”, se busca eliminar o pensamento crítico na escola – escola sem partido e com ensino confessional, se constrange a liberdade artística a partir de sua identificação com práticas pedófilas, dentre outras experiências de monstrualização das práticas sociais consideradas antagônicas. A emoção desvinculada da razão e a aceitação da violência decorrente passam a ser utilizadas como base da formação de um visão de mundo que visa eliminar qualquer possibilidade de afirmação da autonomia do sujeito, do exercício democrático e de luta pela igualdade.

Nesse quadro, utilizar a razão e a plenitude da corporeidade humana são instrumentos – até mesmo antídotos – contra o pensamento fascista. Não no diálogo diretamente com ele, por razões óbvias, visto que ele nega essas premissas, mas na disputa no campo da vida, em geral. Construir narrativas sistemáticas, ordenadas e de fácil entendimento para o leque mais ampliado possível de pessoas é, portanto, o desafio central que as forças democráticas devem dar conta nesse período histórico.

* Jailson de Souza e Silva é Fundador do Observatório de Favelas e Diretor Geral do Instituto Maria e João Aleixo