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Por Observatório de Favelas
Foto: Agência Brasil

Rio de Janeiro – No dia 22 de setembro, a Rocinha, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, viveu a expressão máxima, em forma de guerra, do controle territorial. O governo, decadente e acabado, do estado do Rio de Janeiro, que tem controle das forças de segurança, respondeu chamando as forças armadas do Governo Federal golpista. A grande mídia, por sua vez, respondeu transformando o episódio em um espetáculo televisivo, para as pessoas ficarem ligadas em suas programações e ampliando os seus lucros com audiência.

O que ocorreu na Rocinha não é expressão de conflitos. Uma cidade vive conflitos todos os dias e de todas as ordens. Os conflitos são expressões democráticas da convivência com as diferenças. Fazem parte da democracia. Ao contrário, os confrontos são a negação da diferença. As guerras são confrontos de destruição! São entulhos da política que aposta no lucro acima da vida. A situação máxima que ocorreu na sexta-feira, na Rocinha, parou a cidade. Para além de obstruir avenidas centrais da cidade, a exemplo da Lagoa-Barra, maximizou sentimento de medo geral, que há muito já acompanha a vida dos moradores.

Maré, Cidade de Deus, Alemão, Turano, Fumacê, Vila Aliança, a própria Rocinha, cenário fundamental televiso do dia 22, entre outras, são palcos de explosões armadas que não se pode chamar de conflitos. Conflitos há todos os dias na cidade, na Tijuca, no Méier, no Leme, no Leblon, na Barra, em Copacabana, famosa princesinha do mar. Já é demais chamar os tais arrastões, nomenclatura que virou normal do linguajar carioca, para falar de acontecimentos nas praias, como conflitos. Não são, são políticas que apostam em lucros na construção de presídios e vendas de armas e munições. Mas o que ocorreu na Rocinha se foi uma guerra, há o único lado que se pode escolher é o que não está em guerra com ninguém e muito menos em confronto com a cidade: os moradores.

O que se identifica facilmente são jovens, negros, moradores das periferias morrendo. Pobres, negros, lotando as carceragens. Pessoas, que descem, sobem, circulam a cidade, todos os dias, em busca de emprego, educação, atendimento médico, com suas vidas ameaçadas pela violência letal.

A busca constante de uma fresta pública, o que não existe no Estado brasileiro, é a única ação que pode nos unificar. Muito menos existe, em um Estado destruído como o do Rio de Janeiro, que não paga os professores, não mantém a Universidade Estadual de excelência, que é a UERJ, fica meses sem pagar policiais e outros trabalhadores, por irresponsabilidade contínua e progressiva. Tal situação, ainda mais quando vive com um discurso absurdo de “guerra às drogas”, não tem outras finalidades que não sejam da própria guerra como biombo para sua gestão fracassada e desprovida de compromissos públicos com os diretos á cidadania em nosso estado e na cidade do Rio de Janeiro.

A tal “guerra às drogas” é um discurso que aposta no que ocorreu na Rocinha. Tratar o que deveria ser assunto de saúde, de qualidade de vida, de políticas públicas do Estado, como algo que é jogado para ilegalidade e para o salve-se quem puder, é irresponsável e antiético. Não teria outro resultado, ainda mais em uma conjuntura que o Governo se torna totalmente dependente dos investimentos privados, enxerga o lucro como atividade de governar e lança os moradores da cidade ao azar da (des)política. Não foi um acaso. Trata-se de uma política em curso que deve ser paralisada e superada, o que exige a superação das desigualdades e constituição de uma cidade de direitos.

Os direitos nos territórios exigem investimentos sobre todos os aspectos da vida – educação, saúde, segurança, transporte, moradia – em todos os espaços da cidade. As desigualdades existentes, o maior problema que vivemos no país e no Rio de Janeiro, demanda investimentos de ordem inversa aos que vem ocorrendo. Claro que o som dos tiros cria pânico para quem não mora em periferias e favelas. Os mesmos tiros que tiram as vidas dos moradores que estão onde armamentos e munições circulam como o pão do dia-a-dia comprado nas padarias de cada esquina.

Há responsáveis. São os governantes, que não apostam em políticas públicas. A maioria dos poderes legislativos e judiciários é também responsável pela existência das cidades desiguais. E, é claro, há os que mais sofrem: as pessoas que vivem nas cidades, principalmente os moradores das periferias e favelas. Não se pode tratar o ocorrido, assim como não se pode enxergar e sentir, o que ocorre todos os dias nas favelas cariocas, como natural.

O que ocorreu no dia 22 de setembro na Rocinha, deve ser visto, ao menos, como um aprendizado (desnecessário, mas que ao menos seja assim) para que isso não se repita. Não é com guerra que se impossibilita as tais guerras. Para que guerras não existam são necessários direitos. Deve-se criar políticas púbicas, investimentos e inteligência. No século XXI já há inteligência coletiva de sobra para que tal acontecimento não se repita. Não se pode ver o que ocorreu na Rocinha como algo normal, natural, compreensível ou que faça parte da vida dos moradores, seja em que lugar da cidade estejam. Não se pode ter tolerância frente aos acontecimentos que coloca a vida das pessoas em risco. Agora, o que se deve exigir, são políticas públicas de qualidade, com envolvimento na vida dos moradores, de toda periferia, em todas as favelas. Uma ação que acabe com a presença e a circulação das armas imediatamente.

Investimentos em toda a cidade, para que a mobilidade plena – corporal e simbólica – ocorra, garantindo a vida com dignidade de todos os moradores é ação imediata para o momento. Não existe território sem pessoas e as pessoas vivas, com vida digna, com direitos: eis o papel central de qualquer governo. Naturalizar a violência nunca foi solução, estimulá-la, recorrendo ao poder armado e letal do Estado, é uma irresponsabilidade.

A violência é o grande monstro visível para todas as pessoas, principalmente a violência letal. É hora de se apostar em um grande consenso, com um pacto decisivo em busca da convivência plena. Vamos garantir uma cidade de direitos, isso é obra de todos os moradores do Rio de Janeiro. E uma grande aliança para exigir que o governo cumpra, ao menos, seu papel elementar: garantir a vida com dignidade. São os moradores das favelas as grandes vítimas dessa política e nós conclamamos uma ação solidária em toda a cidade frente aos moradores da Rocinha, exigindo direito e a garantia da vida, com dignidade, de todas as pessoas. A Rocinha é um patrimônio púbico e a principal expressão disso está na garantia da vida das pessoas que lá vivem. Somos todos Rocinha, somos todos a favor da vida e dos direitos em toda a cidade.