Por Jailson de Souza e Silva*

Rio de Janeiro – Chegamos, tal como a crônica de uma tragédia anunciada: foram 61.600 assassinatos no Brasil em 2016, 169 por dia. Ultrapassamos a barreira das sessenta mil e, seguramente, novo recorde será contado em 2017. O país é líder mundial da violência letal com quase 60.000 homicídios ao ano, como aponta a campanha Instinto de Vida, que pretende reduzir os assassinatos em 50%. Em um quadro desses, assistimos ao governo golpista permanecer completamente inerte diante dessa que é a maior das múltiplas violências brasileiras. E vários estados diminuírem os investimentos em segurança pública. Sabemos que o fato dela atingir principalmente jovens negros das periferias é, certamente, a principal razão para que o genocídio seja invisibilizado, naturalizado e banalizado pela maior parte da sociedade nacional. É chocante ver grupos se mobilizando para atacar museus e agredir artistas, mobilizando milhares de pessoas para isso enquanto o massacre cresce e se dissemina por todo o país.

O genocídio não ocorre em função da falta de sensibilidade de criminosos sem alma e coração; não é fruto de uma ampliação irracional da violência. Ele ocorre a partir de práticas deliberadas, consentidas pelos poderes dominantes, em que as mortes de jovens das periferias, de mulheres e de homossexuais são tentativas de controle dos corpos e dos territórios dos empobrecidos. O genocídio e as práticas de poder caminham juntos. Logo, temos de falar em política, agir politicamente para enfrentar o dragão da maldade e da dor.

Vários movimentos têm surgido no Brasil tendo como bandeira central a renovação da política. Suas características são distintas, mas os que mais se visibilizam são hegemonizados por homens, jovens adultos, brancos, ricos ou de classe média, neoliberais e conservadores. Os discursos desses grupos privilegiam a luta contra a corrupção, o que é uma bandeira óbvia e que não poderia diferenciar nenhum cidadão, pois honestidade é atributo e não qualidade; afirmam a meritocracia como critério para a eleição para cargos públicos e defendem a propriedade privada em detrimento da ação estatal na economia. Vários deles defendem a democracia como um valor, embora não haja uma associação entre esse valor e o enfrentamento da desigualdade, por exemplo.

O limite desses grupos é evidente: a política brasileira já é feita por homens, adultos, brancos e ricos. Eles são os principais responsáveis pelo racismo institucional e pelo patrimonialismo que tornam o Brasil um dos países mais desiguais do mundo. Logo, a renovação política do país só virá quando tivermos a presença efetiva de sujeitos das periferias – jovens, mulheres, trabalhadores do campo e da cidade, negros – no centro da cena política. Sujeitos políticos que representam os anseios reais da imensa maioria da população por justiça, por distribuição das riquezas, por um Estado republicano e a serviço efetivo dos cidadãos.

Essa revolução democrática não acontecerá por acaso. Precisamos criar movimentos mobilizadores e centros de formação política, que ampliem o repertório dos sujeitos das periferias para fazerem a disputa no campo político partidário, já que essa é a estrutura possível na conjuntura. Trata-se de formar pessoas que tenham em suas vidas, em suas trajetórias, em sua cor da pele o compromisso em superar o racismo que gera o genocídio, em enfrentar o patrimonialismo institucional que permite a transferência massiva de recursos públicos para alguns privilegiados, que contribua para superar o sexismo e as absurdas violências contra as mulheres.

O pensamento fascista clama contras as artes e a monstrualiza, ao mesmo tempo que aos pedófilos, usando esse instrumento para ocultar seu apoio ao desgoverno golpista. Nosso desafio, em outro extremo, é humanizar as práticas políticas e reiventar as formas dela se realizar. Nossos movimentos precisam crescer nessa direção.

* Jailson de Souza e Silva é Fundador do Observatório de Favelas e Diretor Geral do Instituto Maria e João Aleixo