Por Eduardo Alves*(edu@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – O COMUM aparece de três formas diferentes, no entanto, profundamente articuladas. Há o COMUM que nos é apresentado todos os dias, nos vários caminhos e desconcertos da vida. Consiste na projeção que o sistema produz para colocar cada um de nós em uma normose pacífica e contínua. Apresentam-se, assim, as grandes festas, os espaços das compras, as mercadorias, as aparições públicas, as propagandas de consumo e de felicidade e os grandes encontros como sendo aquilo que é de todas as pessoas, objeto comum de nosso desejo. São criadas as máscaras que passam a ser assumidas como os próprios rostos, as identidades impostas assumidas como próprias e as pessoas se tornando personificação das coisas: para que nos vendamos, no mercado, nos olhos e na alma; para comprarmos. Assim, como nos é apresentado pelo marcante samba da Tuiuti, “planta-se gente”. Vive-se, desta forma, a força da ideologia, que opera em toda a superestrutura do sistema existente. A terra fértil da ideologia reside no mercado, onde as pessoas são coisificadas, transformadas em mercadorias, na medida em que as relações entre as pessoas se dão pela troca, pela concorrência e pela ilusão da individualidade como condição humana. Ergue-se, assim, uma grande muralha para que as miragens se tornem signos, símbolos e representações, transformando, como fetiche, aquilo que é de poucos num mistificado COMUM desejado por todas as pessoas. E seguimos festejando e desejando a aparência mistificadora imposta pelo mercado e pelo desumano lucro acima da vida.

É necessário romper com o véu místico deste COMUM ilusório e alcançar um outro COMUM: a potência criativa e coletiva humana. Temos em comum a qualidade ôntica para nos relacionarmos entre nós e com a Natureza para a satisfação plena das necessidades humanas e não humanas, em todos os sentidos e universalmente. Marca-se, assim, a importância de enxergar o COMUM como a realização da potência humana, na atuação mais significativa para a realização da humanidade, a partir da qual as diferenças individuais e coletivas alcancem, de fato, a diversidade plena e não mistificada.

Este COMUM, no capitalismo, é inalcançável. Porque a terra, as fontes e os recursos múltiplos para a vida plena, assim como a capacidade de transformá-las para benefício de todas as pessoas, humanas e não humanas, foram-nos roubados. No capitalismo, o trabalho aparece como sobrevivência em um mar de exploração; a relação com o que é visto como Natureza realiza-se para explorá-la e para esgotá-la, e não para transformá-la buscando sua ampliação criativa e inventiva; a senciência é colocada em oposição à humanidade e as próprias pessoas disputam entre si a sobra do grande fardo das opressões, da exploração e das interdições impostas pela grande superestrutura que organiza o poder econômico. Assim, para além de ficar distante o COMUM que deveria predominar, ele é escondido, mascarado e apresentado em uma bandeja de intolerâncias, opressões, discriminações e preconceitos.

Mas esta condição comum a nós, quando aparece aos sentidos e é construída em conhecimento, precisa ser a força numinosa na vida. Esta força potente comum a todos nós, interditada e irrealizável nesta engrenagem da morte-em-vida, deverá ser conquistada e construída como obra coletiva no mundo atual. A apropriação e a inversão do COMUM pelo mercado, administrado pelo Estado, organizado para o lucro acima da vida e para a circulação das mercadorias, inclusive em forma de pessoas, só serão superadas por obra das mesmas pessoas que vivem esse fardo histórico. O capitalismo é um sistema que atua como obstáculo para o COMUM da potência humana. Através do Estado, nos diversos níveis, seus sustentáculos organizam a ideologia e a repressão como formas materiais de sua violência. Suas intervenções, usurpando a vida e a potência humana, são realizadas de forma política, ideológica, jurídica e militarmente, todos os dias, alternando a intensidade e centralidade, conjunturalmente, de seus aparelhos. Além disso, este sistema cria outra terra na qual as desigualdades assumem lugar central e determinante.

Mas o capitalismo não é imbatível, tampouco estável, como seus “donos” gozam em apresentar. Trata-se de um ambiente de guerras, destruições, assombrosos esmagamentos de diferenças, de poder concentrado pela força do lucro. Ainda que profundamente instável, plana sobre as cabeças com uma força que aparenta inquebrável e faz de sua instabilidade alicerces para uma miragem que pulsa como perene.

Nesta esteira, eis o terceiro COMUM, que se apresenta, hoje, como tarefa central: a consolidação de um projeto que unifique todas as pessoas que vivem e sofrem a exploração, as opressões e as interdições impostas pelo Estado e que apostam na dignidade humana. Organizações da sociedade civil, sejam em formas de partidos, movimentos, coletivos e grupos, dedicadas a enfrentar, raspar as desigualdades, ampliar a vida nas condições que estão dadas, formam o COMUM que pode ser poderoso.

Trata-se de apostar em uma grande unidade, com diversidade, com respeito à convivência e com as diferenças, para potencializar a possibilidade de enfrentar e vencer as desigualdades. No Brasil, construir unificadamente a conquista de uma república que enfrente o racismo estrutural tem peso estratégico e fundamental. Mas, para além dos temas que um programa unificado deve trazer, é preciso avançar nos direitos, na participação ativa das pessoas, assim como na superação das desigualdades territoriais, embalando-nos por ênfases antirracistas, antimachistas e antissexistas e acumulando forças para construir uma sociedade progressivamente menos desigual.

A organização da sociedade mercantil capitalista sustenta as desigualdades, através da coisificação das pessoas e da personificação das coisas. Neste grande comércio de exploração está o escravo que não se foi, oculto pelo novo ambiente de ilusória liberdade, que é tudo para o mercado e nada para quem trabalha. Escravas dos quilombos das favelas – como simbolizou, inequívoca, a Tuiuti! –, pessoas das periferias, que vivem do próprio trabalho, recebem “a escravidão e um prato de feijão com arroz”.

As desigualdades aparecem escancaradas, todos os dias. Nos transportes, na saúde, nos hospitais, nas escolas, nos salários, nos arranjos formais e informais de trabalho, na moradia, no acesso à cidade… Na dor diária transformada em alegria. Na tristeza profunda ensangüentada de euforia. Na violência da vida interrompida. No ferro do Estado. Na máscara da ideologia. No açoite da “justiça”. E no arrastão do mercado, onde a vida menos-valia. Isto ocorre, ainda com mais força, nas periferias.

Os sujeitos das periferias – que já mostraram e apresentam a potência criativa, inventiva e de atuação para transformar as condições e ampliar a vida –, possuem papel central nesse processo: construir esta grande unidade de todas as pessoas que vivem o peso das desigualdades em suas vidas e sofrem a interdição da potência criativa da vida. Pessoas negras, cujos corpos trazem o peso da grande diáspora e as marcas do racismo estrutural. Indígenas que vivem ameaçados pelo poder da indústria e pela devastação antropocêntrica. Moradoras de periferias, que vivem o peso mais avassalador das desigualdades em suas vidas. Todas as pessoas que vendem sua força de trabalho, mercantilizando seus corpos e mentes para a brutal força da exploração humana.

Unificar todos os sujeitos do COMUM, construindo uma grande unidade, em um grande encontro de diversidade, é o caminho para o momento no qual vivemos.

*Eduardo Alves é membro da direção do Observatório de Favelas.