Por Gabrielly Pereira (gabrielly@observatoriodefavelas.org.br)

No Rio de Janeiro, a atual política de drogas e sua ineficácia sistematizam uma violência que se estabelece, sobretudo, nas favelas e periferias da cidade. São essas regiões que historicamente tem sofrido com o descaso e a negligência do estado e mesmo assim, experimentam processos auto-organizados para efetivar suas demandas. Exemplo disso foi o Encontro Territorial, que aconteceu nos dias 4 e 5 e reuniu moradores, estudantes, organizações civis e instituições do quadrilátero Manguinhos, Jacarezinho, Complexo da Maré e do Alemão que discutiram política de drogas, saúde, violência e importância do debate público permear tais eixos.

Na manhã de sexta-feira (4), participaram da mesa Raquel Willadino, diretora do Observatório de Favelas, Nísia Trindade, Presidenta da Fiocruz, Vanessa Berner, coordenadora do curso de Relações Internacionais da UFRJ e Kátia Nascimento, do Movimento Popular de Favelas. Em seguida, Tainã de Medeiros, do Coletivo Papo Reto e Movimentos, Eliana Sousa, diretora da Redes da Maré, Wanda, redutora de danos do Centro de Atenção Psicossocial Miriam Makeba e Francisco Netto, pesquisador do Programa Institucional Álcool, Crack e outras Drogas.

Toda a conversa, que aconteceu em primeiro momento na sede do Observatório, na Maré, abrangeu a experiência pessoal de todos os profissionais convidados e das 47 pessoas presentes. A partir de cada eixo, houve trocas de vivências fundamentais para a segunda etapa do Encontro no Centro de Artes da Maré, que aconteceu na parte da tarde do mesmo dia. No mesmo local, na parte externa, o grupo realizou atividades culturais e contou com a presença dos Poetas Favelados, que declamaram poesias de autoria própria contribuindo cada vez mais para a produção da literatura marginal.

Após a imersão, os grupos entenderam a necessidade de atividades como esta serem frequentes para a mobilização social nas favelas e o Encontro Territorial se expandiu para o formato de Fórum que funcionará como dispositivo de formação, construção e difusão de conhecimento a fim de unir e potencializar os trabalhos desenvolvidos, fortalecer os diferentes atores e territórios. O Fórum Territorial, pretende circular entre os espaços físicos do quadrilátero de favelas e debater coletivamente o cenário para potencializar e agir de maneira direta na incidência de políticas públicas.

O médico sanitarista e presidente de gabinete da presidência da Fiocruz, Valcler Rangel Fernandes, explica que a política da redução de danos uma estratégia bem sucedida em outros países, mas esbarra com rejeições e intolerâncias na sua implementação. “Eu diria que o preconceito é o principal obstáculo. O preconceito e a discriminação de se trabalhar com pessoas que usam drogas como se as drogas fossem algo que não fizesse parte da nossa vida cotidiana e da história da humanidade. Reduzir danos significa fazer com que as pessoas tenham liberdade de escolha e essa liberdade de escolha que tem que passar por essa perspectiva de acolhimento de uma equipe de saúde e de uma comunidade que conheça a estratégia”, afirma.

“Na favela, não se fala sobre política nem sobre drogas. Esse é assunto que gera conflito nos lugares, nas famílias. Acredito que este Fórum seja um convite a mais pessoas e acredito que assim o assunto vai chegar dentro das casas. A informação é a porta de entrada.” A fala é da redutora de danos Wanda, que convida a todos para o próximo encontro, no dia 9 de junho em local a ser definido.