No mês de agosto muito temos para comemorar. O Observatório de Favelas completa, no dia 20 desse mês, 13 anos de vida. Uma adolescência madura, repleta de repertório para conquistar uma cidade de direitos. Na busca constante de formulações em políticas públicas e metodologias que possam ampliar a potência para uma cidadania ativa e uma outra estética de Estado, seguimos na fermentação dos nossos projetos. Trata-se de elaborar alternativas de caminhos e aproximação de parceiras que fortaleçam a jornada por mais direitos, em busca da superação das desigualdades e ampliação da democracia.

Dois grandes exemplos de encontros potentes na cidade são o Fórum Rio e o Travessias. No dia 16 de agosto, no Crescer e Viver, casa de parceiros estratégicos, juntaremos mais de 30 organizações da sociedade civil em busca de construção de ideias que potencializem a cidadania ativa. O encontro que está aberto para a inscrição de qualquer pessoa através do site e tem como objetivo elaborar sínteses para apresentar uma carta à sociedade, ao Estado e aos candidatos ao governo do Rio para uma cidade com mais direitos. Trata-se de um debate focado em quatro pontos centrais sobre os quais se pretende criar metodologias, simbolismos e propostas de políticas públicas: gestão metropolitana; promoção de igualdade; aprofundamento democrático e desenvolvimento sustentável.

Já no dia 23, na Maré, haverá a realização da terceira edição do Travessias. Encontro de toda a cidade, na favela, para conhecer, participar, contribuir e celebrar a arte em várias perspectivas. A apresentação de obras de artistas plásticas, fotografias e expressões diversas, sugere um encontro que coloca o protagonismo das pessoas no eixo central. Moradores de todos os territórios da cidade estão convidados para celebrar e participar ativamente, não apenas como expectador, das exposições e das várias atividades que percorrerão cerca de quatro meses.

Mas, para além disso, é importante lembrar que no dia 25 de julho passado, a sociedade pôde comemorar o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Colorimos nossas letras com a lembrança e celebração dessa data tão importante e que reforça os movimentos pela superação das desigualdades raciais e de gênero. Superar a formação social racista e machista, ainda hegemônica no Brasil e com fortes traços conservadores e autoritários é uma das prioridades do Observatório de Favelas. Divulgamos com entusiasmo a data, mas para além disso, persistimos no caminho de apresentar alternativas para que os governos assumam, diante do Estado, um papel de diálogo com a sociedade civil para ampliar as políticas públicas e ações institucionais que materializem a inspiração democrática.

Como proposta, iremos realizar no dia 28 de agosto, no Centro de Artes da Maré, o seminário de lançamento da publicação do projeto Direito à Comunicação e Justiça Racial, que dentre outros indicativos, aponta a ascenção de grupos e coletivos de mulheres negras que discutem representação, direito e identidade nos meios alternativos. O evento é gratuito, aberto ao público e todos estão convidados. Para saber mais, clique aqui.

Em pleno século XXI, temos o grande desafio de empurrar todos e todas, assim como as instituições (estatais, públicas e privadas) para estéticas e práticas contemporâneas. Está na ordem do dia a compreensão da diferença entre essas três dimensões existentes na sociedade, com desafios para todas elas. Mas, principalmente para o Estado, pois este possui uma tradição que até hoje é determinada pela lógica da arrecadação, do controle e repressão. É um desafio, de toda a sociedade civil vinculada a projetos democráticos, populares e que buscam a ampliação dos direitos, superar essa realidade.

Trata-se de criar canais de democracia direta (presencialmente e com auxílio da tecnologia da comunicação) e de democracia quase-direta (como consultas e plebiscitos) contribuindo para construir uma outra hegemonia das políticas no Estado e das ideias que predominam majoritariamente na sociedade. Alternativas como repassar responsabilidade do Estado para o setor privado ou com o próprio Estado se apropriando do público (por meio do controle totalitário) não apostam em uma sociedade com potência para ampliar uma cidadania ativa. Precisamos ter o público diferenciado do Estado, com espaço para iniciativas que possam inventar a vida de várias formas e construir uma cidade de direitos, com uma lógica humanitária e solidária nas várias dimensões humanas.

Essa é nossa utopia para hoje, que deve ser construída agora, nas ações, nas ideias, na estética, nos encontros e práticas da sociedade civil. Vamos então beber dos ventos do mês passado na comemoração do dia 25 com as mulheres e negras. E nos nutrir, para todas as atividades desse mês, rico e repleto de potência, nos fazer mais fortes para construir, coletivamente, nos encontros e celebrações, práticas de vida coerentes com o século XXI.

Editorial de Agosto preto e branco em baixa (1)
Davi Marcos / Observatório de Favelas