Por: Jailson Souza e Silva (jailson@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Terça-feira, 26/09, foi um dia sublime no Observatório de Favelas. No dia de nossa reunião geral, que ocorre mensalmente, tivemos a oportunidade de conversar sobre os temas que estão presentes no título acima. Eles são decorrentes do fato de estarmos abrindo no dia 30/09, 16:00hs, no Centro de Artes Visuais Bela Maré e no Centro de Artes da Maré, as exposições Diálogos Ausentes e a Ocupação Conceição Evaristo, ambas em parceria com o Itaú Cultural e com o apoio da Fundação Roberto Marinho. Ambas revelam obras de artistas negras/os de variados cantos do Brasil, numa linda manifestação da nossa condição plural no campo das artes visuais contemporâneas e na literatura, algo ainda pouco reconhecido e visibilizado.

De modo informal, tivemos um diálogo aberto com Diane Lima, curadora da exposição, Vinicius Rodrigues – educador do Itaú Cultural; Simone Moura – curadora e fotógrafa mineira, residente do programa de formação do Instituto Maria e João Aleixo; e Adriano Chuva, jovem artista paulista que fez uma obra especial sobre a Maré. A forma já era linda: quatro personalidades negras, dois homens e duas mulheres, periferias representadas, falas teóricas sofisticadas e muita experiência na afirmação das identidades complexas como seres subjetivos/seres sociais.

O que quero destacar aqui do rico encontro que tivemos foram temas como o lugar das identidades e dos marcadores sociais na luta pela democracia/contra o racismo – que são inseparáveis, cabe salientar. Essas questões atingem de forma direta todos os que se colocam numa posição necessária de afirmação de seu lugar de sujeito no mundo social. Assim, não queremos ser intelectuais, curadoras/es, pesquisadoras/es, artistas adjetivados: negras/os; da periferia; da favela etc. Queremos poder tratar, com autonomia e liberdade, tratar de temas que não se reduzam aos assuntos da negritude ou das favelas. Afinal, temos potência para falar de qualquer questão humana, em sua pluralidade e complexidade, tal como os artistas e intelectuais de outras cores/etnias.

Ao mesmo tempo, se não afirmamos marcadores identitários que nos permitam trazer à visibilidade temas que afetam os negros, índios, periféricos, favelados etc, corremos o risco de nos diluirmos no universalismo meritocrático, que se utiliza do discurso da competência para mascarar as formas indignas de reprodução da desigualdade. Logo, como não pedir mais negros e negras na universidade, nas mídias, nos órgãos do Estado? Como aceitar que grande parte dos presos seja negra e que quase a totalidade dos juízes, procuradores e promotores que os enviam às prisões seja constituída por homens ou mulheres brancas?

Vivemos um paradoxo: afirmar a identidade particular como referência para enfrentar as formas perversas de reprodução do racismo e do patrimonialismo institucionais afirmados no discurso que universaliza a singularidade e a meritocracia ideologizada. E devemos fazer isso sem abrir mão de nossa subjetividade plural, para além das demarcações particulares.

Do mesmo modo: como usar o termo “raça”, tão do gosto dos que defendem a eugenia e uma mitificada biologização e diferenciação do homo sapiens? Ao mesmo tempo, como não reconhecer que a “racialização” expressa nos fenótipos orienta as formas de classificação e representação sociais, culturais e econômicas existentes, sustentando o racismo?

Não há solução fácil para esses dilemas que enfrentamos na luta pela revolução humana e democrática. O que não podemos, em momento algum, é abrir mão do debate e da intervenção. Por isso, participe dessas reflexões, intervenções, debates. Uma forma de fazer isso é vir ver uma das mais interessantes e contemporâneas exposições que o Rio já teve, além de sentir a energia vibrante e suave de Conceição Evaristo. Tudo isso na Maré. Será um lindo momento.

Ps. Adoraria falar do debate sobre o “colorismo”. Ele ficará para outro post.