Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)
Foto em destaque: Douglas Lopes – Obra da Anarca Filmes exposta no Bela Verão Transcendências

Rio de Janeiro – “Bixa loka preta favelada / Quicando eu vou passar e ninguém mais vai dar risada”¹. A cantora Linn da Quebrada, em seus versos, retrata um pouco do cotidiano das pessoas LGBTQI+ que residem em favelas e periferias do país. Assim como ela, inúmeros artistas LGBTQI+, moradores de territórios populares, utilizam a arte como ferramenta de denúncia e também de fortalecimento da identidade dessa parcela da população. Pensando em visibilizar o trabalho realizado por esses artistas, o Galpão Bela Maré, no fim do ano passado, lançou um edital específico para artistas LGBTQI+, oriundos de espaços populares do estado do Rio de Janeiro. A seleção resultou na edição 2019 da exposição Bela Verão, esse ano intitulada Bela Verão Transcendências.

Equipe Bela Maré na Abertura do Bela Verão Transcendência - Foto: Douglas Lopes

Equipe Bela Maré na Abertura do Bela Verão Transcendência – Foto: Douglas Lopes

Financiada pelo edital “Periferias Interiores” da Funarte, a exposição Bela Verão Transcendências esteve em cartaz no Galpão Bela Maré durante os meses de janeiro e fevereiro e abrigou obras de dez artistas LBTQI+. Devido a quantidade e qualidade dos projetos inscritos, alguns artistas – que não selecionados para compor a mostra – foram convidados para participar da programação que contou com oficinas para público adulto e infantil, sessões de cinema, prosa com artistas entre outras atividades. Transbordando a exposição, o objetivo é fortalecer a cena e a rede entre artistas LGBTQI+ periféricos.

O Bela Verão Transcendência é resultado de uma construção do Galpão Bela Maré como explica Jean Carlos Azuos, curador e idealizador da mostra. “É fundamental entender a importância de uma exposição como essa no país que mais mata LGBTQI e também entender que o cenário das artes visuais é ainda muito masculino e elitista. De que maneira o Bela Verão que já tem em seu escopo ser uma exposição de artistas de periferias e espaços populares daria conta agora também de um outro recorte que é muito caro pra gente: o recorte LGBTQI? Na concepção três conceitos foram fundamentais: arte, periferia e diversidade”.

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Edição Isoporzin do Bela com Karaokê das Bixas Pretas

Jean que também é coordenador do educativo do espaço reforça a importância da edição anterior do Bela Verão (em 2018) que teve como mote a produção de artistas periféricos para construção da edição Transcendências. Outros fatores também são parte do acúmulo do espaço como o “Isoporzin do Bela” – atividade que acontece na parte externa do Galpão e tem uma expressiva participação da população LGBTQI – e a diversidade da equipe “Bela Maré” que conta com pessoas LGBTs entre os seus integrantes.

Quitta Pinheiro é uma dessas integrantes. Além de ser comunicadora do Galpão Bela Maré, ela também é idealizadora da Baphos Periféricos, na Baixada Fluminense, e recentemente, esteve à frente da produção executiva do Festival Transarte, evento que aconteceu na região central do Rio de Janeiro. Com apenas 22 anos, Quitta já acumula uma vasta experiência de produções específicas para o público LGBTQI+ e faz uma análise, a partir de suas experiências, da presença desses corpos nos diferentes territórios.

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Apesar da pouca idade, Quitta Pinheiro já acumula uma vasta experiência em produções específicas para o público LGBTQI+

“A galera da Baixada sai para atuar no Rio. Enquanto tem uma galera atuando lá. E esses grupos não se encontram. Porque a gente da Baixada é forçado o tempo inteiro a sair do nosso território pra trabalhar, desenvolver sua arte, ser militante ou até mesmo ir em um centro cultural. A Baphos sempre pautou o quanto é necessário que esses movimentos aconteçam também no nosso próprio território para que os que vierem depois de nós não passem pelas mesmas situações de invisibilidade e violações que a gente passou”, analisa.

Jean também faz essa relação entre “arte e território” que, não por um acaso,dá nome ao eixo temático ao qual o Galpão Bela Maré – junto com a Arena Carioca Dicró, na Penha – faz parte no Observatório de Favelas. “Ao mesmo tempo que a gente propõe um deslocamento do restante da cidade até o Galpão Bela Maré com esses dez artistas, também precisamos entender como o território (Maré) lida com eles. O tempo todo essas pautas são espelhadas: tanto para o restante da cidade como para dentro do território. E são duas impressões diferentes. Lá fora que já entende um pouco mais o que é as artes visuais e como ela se dá a partir desses corpos. E aqui dentro em que as artes visuais é um campo novo de experimentação para muitos e como se dá a pauta LGBTQI nesse lugar. É importante para ambos. E há um terceiro ponto que são os artistas que vêm de diversas zonas da cidade, convergem e trocam aqui e depois retornam criando outras redes de afeto e luta”.

Território, gênero e sexualidade

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Equipe Conexão G visitando a exposição Bela Verão Transcendências – Foto divulgação

Gilmara Cunha sabe bem a importância de criar redes de afeto e luta. Fundadora do Grupo Conexão G de Cidadania LGBT de Favelas, há 13 anos se articula com outros grupos, em diversas frentes, pela garantia de direitos para a população LGBT moradora de favela. Lançada recentemente pelo Conexão G, a cartilha “Juventude LGBT de Favelas – Prevenção e enfrentamento da violência contra a juventude LGBT de favelas” explica a importância de garantir políticas públicas que incidam nessa parcela específica da sociedade. “A população LGBT de favelas vive um cotidiano de dores diversas que são continuamente apagadas pela sociedade de modo geral, incluindo pela própria população LGBT que não vive em territórios de favelas. Os direitos sociais, civis e políticos que colocam para a população LGBT não favelada, em sua grande maioria, não chegam aos LGBT de favela”

A partir das ações do Conexão G, também surge na Maré a Coletiva Lesbi de Favelas. Formada por seis mulheres lésbicas e bissexuais moradoras de favelas, a Coletiva em 2016 entende a necessidade de se tornar independente e de pensar as pautas específicas das mulheres lésbicas e bissexuais a partir desses corpos. Para além de se organizar, a Coletiva tem como objetivo acolher essas mulheres. “A questão da lésbica de favela é complicada. Geralmente são meninas bastante reprimidas pela família, pela sociedade e quase sempre é muito difícil encontrá-las. A gente acaba caindo em um lugar de invisibilidade e controle extremo dos nossos corpos”, afirma Kamilla Valentim, integrante da Coletiva Resistência Lesbi de Favelas.

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Integrantes da Coletiva Resistência Lesbi de Favelas – Foto Jéssica Pires

O Brasil é o país que mais mata LGBTQI+ no mundo². A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado³. Com a justificativa de uma pretensa guerra às drogas a sociedade naturaliza o extermínio por parte do Estado de pessoas pobres nas favelas e periferias das cidades. A Medida Provisória 870, publicada no Diário Oficial da União (DOU) no último dia 02 de janeiro, não deixa explícito que a população LGBTI faz parte das políticas e diretrizes destinadas à promoção dos direitos humanos, como constava anteriormente. Todos esses fatores atravessam diretamente o cotidiano da população LGBT moradora de favelas e territórios populares, mas Quitta, Kamilla, Jean, Gilmara e tantas outras reafirmam todos os dias que a luta não começou ontem e nem terminará amanhã. Assim como os versos de Linn da Quebrada. “Se tu for esperto, pode logo perceber / Que eu já não tô pra brincadeira…”¹.

¹Mc Linn da Quebrada – Bixa Preta. Assista o clipe aqui.
²Grupo Gay da Bahia
³Mapa da Violência