Por Jailson de Souza e Silva¹ (jailson@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Sábado, 09/12/2017, Gilmara, fundadora do Conexão G – grupo que trabalha pelos direitos da população LGBT na Maré -, fez uma nota que deixa qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade impactada; comigo, não foi diferente: Luany, uma jovem trans que participava das oficinas, eventos e atividades do coletivo, foi assassinada. De acordo com Gilmara, ela estava no local onde exercia seu trabalho de acompanhante quando um carro parou repentinamente, vários homens dele desceram e começaram a agredi-la covardemente, batendo na cabeça e no corpo inteiro com chutes, pauladas e socos. Ela ficou longo tempo esperando a ambulância. Depois de dias no hospital, não resistiu e faleceu.

Gilmara, sensível, engajada e reconhecida por seu ativismo, critica o Estado por esse assassinato. Como afirma na nota de falecimento, segundo agências internacionais, metade dos crimes no mundo contra a população LGBT ocorre no Brasil. Logo, assim como há evidências concretas de um genocídio da população jovem e negra, podemos dizer que o mesmo vem ocorrendo em relação a essa população. Justin Trudeau, primeiro ministro canadense, fez recentemente um belo pedido de desculpas às ações de perseguição do Estado, por décadas, a funcionárias² canadenses devido à condição homossexual. O fato de um país como o Canadá – em níveis de desenvolvimento humano bem superior ao do Brasil – ter esse tipo de prática até há pouco tempo mostra a abrangência do processo de discriminação dessa população. Mas, pelo menos, lá há hoje um reconhecimento do problema e a busca de superá-lo. Enquanto isso, os sucessivos governos brasileiros não se dignaram nem mesmo a produzir estatísticas confiáveis sobre o número de pessoas LGBTs assassinadas em função de sua condição. Do mesmo modo, delegacias especializada em crimes de motivação homofóbica praticamente inexistem no país e muitas igrejas fundamentalistas continuam a efetivar uma ativa postura monstrualizadora da população LGBT, especialmente as trans. Nesse caso, como ocorre com a população jovem e negra, há uma naturalização e invisibilização da violência, especialmente a letal, contras essas populações, com uma conivência não consciente da maior parte da sociedade.

Diante disso, cabe sempre trazer o tema à consciência e refletir: “onde guardamos o nosso preconceito?” Quando naturalizamos as formas sexistas como uma pessoa LGBT é tratada, estamos contribuindo para esse processo de monstrualização. Quando não incorporamos à pauta LGBT a nossa agenda de luta, estamos contribuindo para que suas lutas não ganhem a ampla repercussão necessária; quando não empregamos pessoas trans em nossas organizações, aumentamos a dificuldade delas – mesmo aquelas com alto grau de qualificação – em conseguir empregos de melhor qualidade e remuneração. Com efeito, é direito de uma pessoa trans trabalhar no ofício que quiser, inclusive no de acompanhante, nos termos de Gilmara. O que não é razoável é que este seja um dos poucos ofícios no qual ela pode sobreviver com uma renda um pouco mais digna.

Logo, lamentar a morte de Luany se faz necessário. Mas, uma violência tão sem sentido e desumana deve nos estimular a lutar junto com a população LGBT para que sua dor seja a de todas, para que suas demandas sejam visibilizadas e assumidas pelo conjunto das organizações e sujeitos sociais. Pois, de fato, só teremos uma revolução democrática nesse país quando as pessoas, todas, puderem viver sua experiência subjetiva/objetiva de vida de forma plena, autêntica e do modo que desejar, sem correr o risco de sofrer discriminações ou mesmo ser morta por causa disso. A lógica medieval fundamentalista está mais forte do que nunca no mundo atual. Cabe a nós construir um mundo mais pleno e lutar contra ela, a cada dia, em nome de Luany e de todas as outras jovens, com tantos sonhos e desejos, que são mortas todos os dias nesse Brasil.

Luany, presente.

¹ Jailson de Souza e Silva é Fundador do Observatório de Favelas, Professor da Faculdade de Educação UFF/RJ; fundador do Instituto Maria e João Aleixo.
² Para colocar em suspenso meu sexismo e o da língua portuguesa, todas as palavras que designam o gênero têm como premissa o termo pessoa, por isso são escritas no feminino.