Por: Piê Garcia (pie@observatoriodefavelas.org.br)

Foto de capa: Gabriela Doria Cesar

O Atlas das condições de vida na Região Metropolitana do Rio de Janeiro é uma contribuição para um maior conhecimento da cidade. A obra do diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC, professor Cesar Romero Jacob, em parceria com Dora Rodrigues Hees, também da PUC, e Philippe Waniez, da Universidade de Bordeaux, foi lançada seis meses antes do aniversário de 450 anos do Rio. O objetivo é que se faça uma reflexão sobre as desigualdades.

O Atlas é um estudo socioeconômico dos municípios que compõem a Região Metropolitana do Rio, com dados do IBGE, SUS, ISP e TSE. Foram produzidos 112 mapas que abordam temas, como a distribuição da população, renda, estrutura demográfica, migração, domicílios, educação, emprego, religião, saúde, criminalidade e eleições. O e-book está disponível gratuitamente para download no site da Editora PUC-Rio.

Boletim de Notícias & Análises: Houve avanços significativos nas políticas de superação de pobreza nos últimos 12 anos? Caso tenha havido, isso trouxe quais consequências para as desigualdades?

Cesar Romero Jacob: A divulgação recente da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) revelou uma pequena redução das desigualdades. Porém, programas como o Bolsa Família foram fundamentais para avançar na erredicação da miséria e na redução da pobreza.

BNA: De acordo com o estudo, o Bolsa Família tem um predomínio em região em que a renda é mais baixa. Qual a importância do bolsa família na Região Metropolitana?

CRJ: Os mapas nos mostram uma grande diferença nas regiões da Barra, Zona Sul e Tijuca para o restante da cidade, nesses bairros quase não há presença de beneficiários do Bolsa Família, a não ser nas favelas ali presentes. O mapa revela elevada concentração de beneficiários nos municípios da periferia, que correspondem as áreas com menor rendimento da Região Metropolitana. O benefício desempenha um papel muito importante, pois ajuda a diminuir a pobreza. (fig. 9)

BNA: O mapa mostra que os negros e pardos têm renda mais baixa e são maioria nas periferias e minoria nas classes altas. Ao que o senhor atribui essa construção?

CRJ: A figura 14 mostra o predomínio de população branca na Barra, Zona Sul e Tijuca. Existe uma área intermediária na Zona Norte e o predomínio de pardos e negros na periferia. Se compararmos o mapa de cor da pele com o de renda (fig. 8) podemos concluir que negros e pardos são os mais pobres. Eu não estou dizendo que não tenha negros ricos, é apenas uma questão de predomínio.

BNA: Quais as principais desigualdades, do seu ponto de vista? Como o Estado deveria enfrentar tais desigualdades e com qual urgência?

CRJ: Nos últimos 12 anos houve um avanço na eliminação da pobreza, depois do Bolsa Família e da erradicação do trabalho infantil. Para melhorar é necessário investimento na educação. Oferecer um ensino fundamental e médio gratuito e de qualidade é fundamental para eliminar as desigualdades. A cada ano a mais de estudo, maior a renda. Também é preciso investir em salários, para que não haja mais necessidade do Bolsa Família no futuro. Essa é uma questão de médio a longo prazo. A curto prazo, é essencial que tenha uma melhoria na qualidade de vida das pessoas. O investimento em transporte público de qualidade é imprescindível. Não é possível que um trabalhador perca de três a quatro horas para se locomover até o seu local de trabalho.

BNA: Quais são as suas conclusões sobre o estudo?

CRJ: Esse trabalho é contribuição para um maior conhecimento da cidade. Em 2015, o Rio de Janeiro comemora 450 anos, mas nem tudo é festa! É necessário que reflitamos sobre a cidade em que vivemos. Trazemos inúmeros mapas que convidam para a reflexão e que mostram que existem muros invisíveis na cidade. Vivemos nesse clima de camaradagem, onde as diferenças convivem bem no sambódromo e no Maracanã, mas escondem as desigualdades. Essa percepção não é tão forte para os mais ricos, mas determinantes para os mais pobres. É muito importante que todos tenham a consciência de que a superação das desigualdades é boa para todo mundo, não só para os pobres. Hospitais, escolas e segurança pública são bens para todo mundo. Com esses serviços de qualidade, todo mundo sai ganhando: ricos e pobres. E esse é um período importante, quando os eleitores escolhem quem serão os seus representantes. Escolher canditados que estejam comprometidos com a redução das desigualdades é uma maneira de melhorar a cidade. Portanto, esse trabalho é um convite à construção coletiva.