Rio de Janeiro – No dia 31 de agosto de 2016 a democracia brasileira foi duramente golpeada. A votação do impeachment da presidenta Dilma não foi um ato apenas contra um partido ou contra a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil, fato que muito incomodou a elite machista, racista e sexista brasileira. Foi, acima de tudo, uma ação de uma maioria circunstancial do Senado contra mais de 54 milhões de brasileiros e brasileiras que decidiram, nas urnas, quem conduziria o Brasil por quatro anos.

A decisão do Senado foi contra todos os 105.542.273 brasileiros e brasileiras que votaram no segundo turno das eleições de 2014; um desrespeito aos que acreditavam que o voto popular tem importância maior do que o desejo do Congresso e que deveria respeitar o processo eleitoral.

O direito do voto é uma conquista. Somos dos que defendem que crimes de responsabilidade, com utilização das verbas controladas pelo Estado para uso próprio, para enriquecimento indevido, devam sim ser punidos. Mas é inadmissível, identificar que a punição se dá por um golpe de mão – aproveitando de letras do ambiente jurídico – com narrativas de interesses da elite, sem quaisquer acusações com conteúdos que comprovassem tal decisão.

Somos sim solidários a essa mulher, independente do voto dado por cada um de nós nas últimas eleições. Manifestamos nossa mais profunda solidariedade para a mulher corajosa que não fugiu nas cinzas e se manteve firme nessa disputa até o último momento de consolidação do golpe. Mais que isso, nossa solidariedade se expande aos milhões de brasileiros e brasileiras. Principalmente aos que constituem e formam territórios de periferias e favelas por todo o Brasil. Homens e mulheres que criam arte, cultura, educação, se reinventam e mostram que o Estado precisa ganhar, na verdade, o sinônimo de público.

As elites e os setores dominantes do país, aliados às forças conservadoras e reacionárias em nível internacional, estão resistindo contra os direitos conquistados pelo povo brasileiro, tais como as cotas nas universidades, a convivência, a liberdade para expressão da diversidade de orientações sexuais. Estão resistindo contra o direito de pobres comprarem carros, andarem de avião, constituírem suas próprias residências e inventarem suas próprias vidas em seus territórios. O que para muitos de nós é pouco, visto que os direitos precisam ser ampliados e virem acompanhados de ampla participação política, para os setores dominantes tornou-se uma ruptura inaceitável com as históricas formas de opressão que dominam o país.

A ampliação de vagas para pobres e negros em universidades e no ensino médio, assim como a elevação do poder de compra e da presença com repertórios que ampliam a convivência, fez a elite brasileira reagir. Tal reação, por sua vez, feriu a escolha democrática de um país que decide seus governantes por meio do voto. De quatro em quatro anos, o Brasil, com sua jovem e frágil democracia, vive a conquista construída na ação das pessoas por um país de direitos. Muito do que foi feito é produto de conquista, muitas dessas que custaram vidas em nossa história. Afirmamos, portanto, que o ato que marcou o dia 31 de agosto de 2016 cravou uma estaca nesse processo. Mas a retiraremos e seguiremos na busca por mais direitos: vamos avançar e mostrar que “amanhã será um novo dia”.

Nós, que queremos mais instrumentos democráticos, buscamos a ampliação da participação política e de modos de democracia direta. Nós, que defendemos radicalmente o papel do voto e das escolhas populares, queremos ampliar o diálogo, a convivência, o direito à diferença. Nós, que fomos brutalmente atingidos, avançaremos para o controle social do Estado e na jornada de hegemonizar o público no Estado brasileiro, ainda dominado por aqueles que o privatizam. O que queremos é mais. Mais democracia. Mais participação. Mais controle social. Mais respeito à diferença. Mais convivência. Mais direitos. Nossa busca por um país de direitos exige a ampliação da participação social em decisões importantes.

Esse é nosso desafio, seguiremos avançando por mais direitos, mais democracia, mais participação. Avisa lá que nós vamos! Seguiremos avançando, mesmo em dias de golpe, pela conquista de uma sociedade democrática que garanta e expanda direitos em todo o território nacional.