Por Jailson de Souza e Silva*

Vivo e desenvolvo meu ofício na cidade, território político por excelência; nela circulo desde o espaço universitário até as favelas e periferias onde nasci, cresci e me fiz ser social. Através dessa mobilidade tenho buscado afirmar um projeto político/pedagógico que, em primeiro lugar, permita que eu me realize como um ser humano coerente, emancipado e autônomo. O que só é possível num mundo social também em permanente humanização.

Fiz muitos poemas na adolescência; todos foram parar no lixo por explosões e crises que caracterizam aquele momento. Apenas uma frase sobrou, produzida nos meus 17 anos: “O por que do que é a dúvida da certeza, incerteza”. Desde aquele tempo, me perseguia o desejo de entender por que pensamos como pensamos, por que agimos como agimos. Não queria apenas entender minhas ações e pensamentos, mas os seus processos de constituição.

Nos meus anos 30, outra questão central se somou a essa: quais os vínculos entre os territórios e as práticas dos sujeitos? Como o território produz o sujeito e como este produz o território?

O Novo Carioca, livro que lancei com Jorge Barbosa e Marcus Faustini, reúne uma série de considerações sobre esses temas. Nele reflito, em particular, sobre um determinado tipo de habitante da cidade: aquele que consegue circular em todos os territórios porque tem mobilidades plurais — social, cultural, escolar, econômica e, especialmente, simbólica. Ele se sente pertencente à cidade e a sente pertencente a ele, em todas as suas contradições e complexidades.

Esse sujeito vai a eventos no Centro Cultural Banco do Brasil e na favela; circula no mundo acadêmico com a mesma desenvoltura que num coletivo que não valoriza instituições; lida com a fala das periferias com a mesma naturalidade com que assimila o “sotaque” do povo da Zona Sul da cidade. Pode morar em qualquer lugar da pólis, pois se sente um cidadão pleno dela. Para ele, a cidade é acolhedora, não hostil; é global, não particular; é presente estendido, não nostalgia nem futuro idealizado; é inventiva e inovadora e não entendiante; é viva e sua tensão faz parte dessa energia.

A partir dos meus 40, outras questões se impuseram: o que influencia as instituições? O que as faz mudar ou permanecer? O corolário dessa questão é: o que é revolução no contemporâneo, quem são esses personagens, o que caracteriza suas vidas?

Essas perguntas alimentam meu novo livro, Bruxas e bruxos da cidade. Nele, parto da consideração de que, nos anos 1960, consolidaram-se dois perfis sociais de revolucionários. Um, que chamo de revolucionário clássico, colocava em questão o Estado e o Mercado capitalistas; buscava sua transformação radical, na perspectiva de um Estado socialista, baseado na eliminação absoluta da propriedade privada. O outro, o revolucionário arquetípico, era o hippie. Aquele que buscava construir uma experiência comunitária alternativa, que colocasse em questão o casamento, o consumo capitalista, a sexualidade orientada pelas igrejas monoteístas etc.

Esses dois perfis permaneceram em oposição até os anos 1990. A partir desse período, com a queda do socialismo e de sua metanarrativa, com a emergência generalizada da questão ambiental e com as críticas às formas de significação da vida reduzida ao consumo de bens distintivos, surge o que defino como orevolucionário do contemporâneo — que também chamo de bruxas e bruxos. No passado, os bruxos foram perseguidos, condenados e mortos por ousar afirmar suas convicções diante do poder. Hoje, os que se colocam como sujeitos diante de instituições que tentam nos manter alienados, de nós mesmos ou da realidade, são os revolucionários.

Logo, a revolução é feita no cotidiano, na tensão entre as micro e macro estruturas, entre as práticas subjetivas e objetivas. Não se trata, simplesmente, de mudar o outro e suas estruturas, mas a nós e, ao mesmo tempo, colocar em questão as instituições domesticadoras.

Você é bruxa? Você é bruxo?

*artigo publicado originalmente no site VOZERIO