Por: Piê Garcia (pie@observatoriodefavelas.org.br)

A luta feminina tem resultado em inúmeros avanços na ampliação de direitos das mulheres e na diminuição das desigualdades sociais. Essas conquistas foram realizadas pela potência, mobilização e criatividade dos movimentos de várias guerreiras do cotidiano. Ainda existem grandes desafios para atingir a sonhada equidade de gênero, mas o caminho está aberto. E tem muita mulher protagonizando essa construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Nesse sentido, muitos coletivos femininos vêm surgindo e se estabelecendo com muita força. Com isso rompem o rótulo de que mulheres são essencialmente competidoras entre si. Juntas, elas trabalham, constroem uma nova realidade, amplificam suas vozes e seus repertórios, além de destruir esse velho estereótipo. É assim que as mulheres têm conseguido pautar mudanças no executivo, legislativo e judiciário, reverter indicativos negativos e criar políticas públicas que possam fazer a diferença no enfrentamento das desigualdades de gênero e na promoção da igualdade racial.

O coletivo Meninas Black Power é composto por mulheres pretas, com formação em diferentes áreas e dialoga sobre estética, política, cultura e educação afrocentrada. O coletivo incentiva a consciência do valor cabelo crespo natural e, sobretudo, do amor e valor que cada mulher crespa deve possuir aos próprios olhos.

Sobre as atividades do coletivo, Jessyca Liris, uma das integrantes, conta: “Acreditamos que nosso trabalho é importante por ajudarmos a redefinir a lógica da educação e do acesso ao saber, mas principalmente por criar, através da exposição da nossa imagem e visibilidade de imagens como as nossas, a nova lógica de que a negritude (revelada na herança cultural, características físicas etc.) não nos limita. Nosso trabalho potencializa nós, mulheres pretas, que sempre ocupamos o lugar de cuidado de outros, mas nunca com o protagonismo necessário, iniciativas como as nossas também colocam a mulher negra como protagonista, contadora de sua própria história.”

Meninas Black Power Seminário Internacional Encrespando por Meninas Black Power - PUC RJ Foto: Thales de Lima
Meninas Black Power Seminário Internacional Encrespando por Meninas Black Power – PUC RJ Foto: Thales de Lima

O #AfroGrafiteiras é um programa de formação em arte urbana focado na expressão e promoção do protagonismo de mulheres afro-brasileiras. É uma iniciativa da Rede NAMI (Rede Feminista de Arte Urbana) que tem como objetivo empoderar mulheres afro-brasileiras através da arte urbana. O projeto reflete sobre o papel dessa mulher na sociedade.

Viviane Laprovita, uma das integrantes do programa, contou que “atualmente o coletivo Afrografiteiras realiza oficinas de graffiti pelo fim da violência doméstica, onde percorremos escolas e instituições, promovemos debates e rodas de conversa sobre a lei Maria da Penha e sobre a violência doméstica e em seguida grafitamos com os alunos inspiradas pelo tema.”

Viviane Laprovita na atividade. Foto:  Panmela Castro
Viviane Laprovita na atividade. Foto: Panmela Castro

As Mulheres de Pedra mantêm vivo o circuito cultural de Pedra de Guaratiba. Elas garantem um fluxo contínuo nesses espaços para fazer do Atelier Massas com Artes uma casa que recebe acolhe e exibe arte e expressão, promover encontro, trazer gente de fora da Pedra, acolher artistas de Pedra, da zona oeste como um todo. Exaltando arte, educação popular e economia solidária.

Para Lívia Vidal, uma das líderes do coletivo, afirma que é fundamental a existência de iniciativas como essa. “Precisamos falar pela nossa própria voz, contar nossas histórias, escrevê-las, roteirizá-las, capturá-las, exibi-las, inventá-las. Precisamos e isso é urgente! Dizer para o mundo que complexidade de pensamentos e ações, turbilhão de emoções e expressões, é potência, é criação, é fruição. Nossas potências femininas precisam ser saudadas, honradas, enaltecidas. Saudemos nossa intensidade e força, nossa mistura, nosso ciclo da vida. Saudemos nossa potência, potência maior que carregamos em nossos corpos, ninho humano. Ser mulher é realizar iniciativas valorizando o maior bem que temos: o bem da vida que se desenvolve em nós.”

Mulheres no cinema

Lívia também é uma das responsáveis pelo filme Elekô, sobre o filme, ela conta que decidiram que seria um projeto só de mulheres. “Primeiro, trocamos imagens soltas do que nos vinha à mente, relatei as ultimas referências de Mulheres de Pedra no Sarau, os livros, textos e autoras lidas. A loucura com Estella Patrocínio, Estamira, Bispo do Rosário e “PonciáVicêncio” (de Conceição Evaristo). Compartilhamos também o que nos inspirava o território, zona portuária, trouxemos algumas referências das performances Priscilla Rezende (BH) e Millena Lizia (RJ). E fomos buscando referências outras, nossas raízes, nossa história de chegada, esse espaço como porta de entrada de tantas pessoas, tantos africanos escravizados… Estudamos, discutimos muitos textos do Geledés e referências de orixás.”

Pensando em como são as atuações das mulheres negras no cinema, em que parte do fazer audiovisual estão inseridas, como estão produzindo e construindo suas imagens, elas seguiram convidando amigas, solicitando ajuda aqui e ali, equipamento, técnicas (áudio, edição…) e ficaram juntas 72horas filmando, gravando trilha sonora, editando, renderizando, entre comidinha gostosa, carinho e apoio. “O legal é saber que o resultado final do filme é consequência de um processo muito carinhoso e intenso de produção, o que reflete na tela e causa reações maravilhosas em quem assiste!”, conta Lívia.

Sobre as dificuldades, Lívia diz que “o audiovisual é uma forma de arte e um mercado bastante elitista, que depende de equipamentos que muitas vezes são caros e difíceis de conseguir, o que torna tudo de muito difícil acesso para mulheres e para negros no Brasil. Mas que pode se tornar possível: fazendo coletivamente e buscando diferentes.” O filme recebeu 3 prêmios: Melhor Curta, Melhor Ficção, Som Designer e Menção honrosa.

Cena do curta Elekô
Cena do curta Elekô

O filme Kbela foi um grande destaque na produção audiovisual feminina de 2015. Com o roteiro e direção de Yasmin Thayná – fazedora que atua em diferentes campos como cinema, literatura, jornalismo, entre outros – KBELA é um filme produzido por mulheres negras e narra a construção e a afirmação da identidade da personagem como mulher negra a partir da relação com seu cabelo crespo.

Silvana Bahia, jornalista, coordenadora do Olabi Makerspace e diretora de comunicação do filme, faz uma reflexão sobre o protagonismo feminino: “Mulheres sempre produziram coisas, sempre estiveram na cadeia produtiva e na base da pirâmide econômica e social do país. O racismo e o machismo são, infelizmente, estruturantes na sociedade, por isso qualquer iniciativa que vise a valorização e visibilidade de trabalhos realizados por mulheres eu acho importante. É maravilhoso ver novas narrativas, projetos e ações lideradas por mulheres, pensada por mulheres, sobretudo por mulheres negras, que historicamente foram silenciadas e invisibilizadas.”

Com a certeza de que lugar de mulher é onde ela quiser, essas atividades, projetos e coletivos vêm para fortalecer a união, a autoestima e corroborar a importância da organização feminina para ampliação das conquistas. E nessa perspectiva, é possível dizer que ainda existem muitos indicativos a serem superados, especialmente os que dizem respeito à mulher negra. Porém, é no espírito “Uma sobe e puxa a outra” que as mulheres seguem avançando e vão avançar ainda mais.