Por Rodrigo Azevedo (rodrigo.azevedo@observatoriodefavelas.org.br)

No último dia 21 de julho, sexta-feira, passamos cerca de quatro horas em um encontro marcante durante a Reunião Geral de Julho do Observatório de Favelas, agenda mensal que promove discussões de temas diversos e sugeridos pelos colaboradores da nossa organização e que recebe convidados de dentrofora do Observatório.

Além dos convidados que marcaram presença, o tema da atividade e o período que vivemos em nossa organização foram – todos – fundamentais para o debate ganhar fôlego e intensidade. Explicando. O Observatório vem, junto de muito do que conhecemos atualmente, se transformando e vendo a necessidade de reinventar. Ou, se provocando e reinventando. E os seus campos de Comunicação e Cultura vivem esse desafio com muita intensidade neste último período.

Projetos como o Imagens do Povo, Escola Popular de Comunicação Crítica – ESPOCC, Agência Diálogos, a própria Comunicação Institucional tem repensado as suas ações junto e com o OF – como carinhosamente tratamos o Observatório de Favelas. E esse pensar é também fundamental para que possamos superar o momento atual, conseguindo dialogar com os diversos interlocutores, compreendendo as nossas diferenças e buscando maneiras, meios e formas de fazer com que discussões ganhem fôlego e, juntos, possamos superar essa crise que se instaurou.

A comunicação tem de compreender e repensar suas ações dentro de um cenário de algoritmos, bolhas, conglomerados midiáticos tomando posições políticas cada vez mais ortodoxas e de interesses contrários aos da população… enfim, a gente precisa buscar formas e meios de dialogar, de passar por cima do volume absurdo de propagandas, representações equivocadas e mostrar flores onde se enxerga somente deserto. Vida, onde apresentam apenas dor. Caminho e norte para irmos além. E isso envolve, diretamente, o fazer comunicação. E envolve diretamente um dos campos de atuação da nossa organização.

Assim, era inevitável que este momento da organização não se desdobrasse na pauta do dia, que tinha como chamada e/ou provocação: AUDIOVISUAL E O NOVO JORNALISMO NAS PERIFERIAS. Discutir o jornalismo, produção de conteúdo, o papel do vídeo, das imagens, do registro, do partilhar, a responsabilidade e o papel que estas frentes têm na conjuntura atual e quais os desafios para que possamos atuar nesse campo se contrapondo às linguagens, narrativas e estéticas que predominam, deslocando o fazer e o olhar para outros personagens e regiões, indo, em especial, para as favelas e territórios populares, colocando em cena formas para além daquelas que as grandes e consagradas redações e produtoras criam e veiculam, trazendo para o centro o trabalho que as favelas e periferias constroem em seus territórios com uma desenvoltura, sagacidade e qualidade incríveis.

Ou que não sejam produzidos nesses espaços, mas tenho no desenrolar dos seus processos, sejam eles criativos, decisivos etc. sejam também produzidos por seres pensantes que venham das favelas, que sejam pretas e pretos. LGBTTs, indígenas… enfim, que tenha a diversidade na sua base. Assim como é diversa a nossa sociedade. Prova disso são os inúmeros projetos, coletivos, articuladores que estão hackeando, dominando e fazendo uso cada vez melhor das tecnologias, dos canais, redesenhando os leads’s e briefing’s e, se apropriando e adaptando de uma contundente frase dos Racionais MC’s “Entrando pelos seus rádios, jornais, internet, tomando e vc nem viu…”.

Com a participação da Flávia Oliveira, mulher, jornalista, negra, de origem popular e que escreve para “O Globo”, integra o Estúdio I do canal GloboNews, com grande experiência na área econômica e que chegou na nossa reunião já afirmando: “Se deixar eu falo até amanhã”. E falou. Falou, provocou, dividiu, emocionou, trouxe e levou debates e marcou o encontro com questionamentos como: “Por que eu, mulher, com baita repertório econômico sou convidada, quase que sempre, para falar de racismo? Por que não me chamam para falar de economia?”. Além, claro, de afirmar diversas vezes que tem é gente arrebentando, produzindo, criando, dialogando e mostrando muito trabalho importante e potente. E essa galera, ao contrário do que o imaginário nos faz pensar, estão naqueles locais onde, no geral, se enxerga carência, dor e sofrimento: nas favelas e periferias. E citou, entre outros nomes, a querida Ana Paula Lisboa, também colunista em O Globo e que, entre diversos trabalhos, liderou A Agência Redes Para Juventude.

Junto da Flávia, os desafios e discussões que o Observatório vem travando internamente e os seus projetos e trabalhos que, em breve, entraram no circuito foram apresentados, entre eles, a Agência de Narrativas, que a partir de 2018 irá mergulhar na produção de conteúdos, trazendo para a Maré um espaço que irá discutir, produzir e veicular a junção da produção de notícias e do trabalho de dados em um projeto interessantíssimo.

O I Encontro Nacional de Comunicadores de Periferia, promovido pelo Instituto João e Maria Aleixo, reunirá em outubro dezenas de comunicadores de diversas regiões do Brasil para discutir durante um fim de semana no Complexo da Maré. O Imagens do Povo, com sua nova coordenação e equipe que vem trabalhando para apresentar uma nova fase a este que é um dos projetos mais marcante e fundamental na área da fotografia. E Agência Diálogos, que até então era uma agência escola da ESPOCC e começa a assumir o papel de entrar na discussão da publicidade e propaganda trazendo para a roda a publicidade afirmativa.

Esses encontros todos, como podemos perceber, não tinham como se encerrar com menos de quatros horas de discussões. E não tinham como deixar todas e todos que participaram saírem sem a sensação que temos pela frente muito mais o que discutir, construir, colocar na rua e, claro, comunicar.

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E a galera que participa de cada frente entendeu o recado e vem trabalhando, pensando e avançando bastante. No último fim de semana, por exemplo, cerca de 17 pessoas entre publicitários, jornalistas, artistas plásticos, bailarinas, hackers, músicos, produtores culturais e de audiovisual participaram de dois dias de intensa troca e construção na Arena Carioca Dicró, na Penha, durante o “Encontro Diálogos, inventando e reinventando” que marcou o início do desenvolvimento do Planejamento Estratégico da Agência Diálogos enquanto a Primeira Agência de Publicidade Afirmativa, saindo do guarda-chuva da Escola Popular de Comunicação Crítica e ganhando vida própria.

Em Paraty, também no último fim de semana, durante a Feira Literária Internacional de Paraty – FLIP, Priscila Rodrigues, jornalista da nossa Comunicação Institucional, levou sua experiência na área de comunicação para cobrir a feira, fortalecer, além de ampliar seu background com o Coletivo de Mulheres Intelectuais Negras. Isso em uma das edições mais marcantes da FLIP. Estamos falando de uma experiência que, sem dúvida, trará novos olhares, reflexões e construções para o Observatório.

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Os desafios são muitos. E a vontade, também. Aliás, desafio é um dos motores que nos movem, junto do sonho de uma cidade para todas e todos. Um mundo fraterno e feliz também. Se o sonho é grande, o trabalho também será. E comunicando tudo isso aí, até porque, queremos falar mais e com muitos. E se você quiser chegar e colar nesse e outros desafios (sendo repetitivo de propósito), é só chegar. O Observatório de Favelas vive e quer encontros. Muitos.