Foto: Rodrigo Zefferino

Pensar em liberdade, nos remete a muitas percepções: liberdade de expressão, livre arbítrio, ir e vir, sendo que todas, de alguma forma, se relacionam com a liberdade dos corpos. Os poucos (e quentes) dias deste 2014, dentro e fora da rede, trouxeram à tona uma série de acontecimentos e fatos que questionam a liberdade, em especial a liberdade do corpo negro, jovem, periférico e popular.

Os rolezinhos que tanto ‘circularam’ por diferentes territórios do país, são uma prova disso. Em todos os locais por onde passou, o traço que deixou em comum foi o preconceito com o corpo inesperado que deseja ocupar o lugar “errado”. A maioria dos corpos inesperados que se fez presente nestes encontros, sem nenhuma coincidência, era o corpo jovem, negro, pobre. No Rio de Janeiro não foi diferente: um grupo de jovens resolveu marcar um encontro pacífico, convidando outros jovens de favelas do Rio, para dar um rolezinho num shopping famoso também por ser palco de outros episódios de preconceito, o Fashion Mall. De acordo com os organizadores, “O Facebook recebeu uma notificação judicial, movida pelos advogados do shopping, alegando que o evento incitava ao vandalismo. O agravante do processo exigia o número de IPs e a localização, além de todas as informações das contas de facebook dos organizadores da ação”. Esse processo, contra o Facebook e envolvendo diretamente os organizadores, incide diretamente na liberdade de expressão, de ir e vir e na liberdade de estar, por si só, já está dando muito que falar.

O primeiro boletim de Notícias & Análises do ano propõe, dentre outros temas, a discussão que envolve a liberdade do corpo negro e pobre, do incômodo que ele causa quando ocupa lugares que normalmente não são destinados a ele e onde, geralmente, não são bem-vindos. O caso do jovem que foi aprisionado desnudo, pelo pescoço a um poste, no bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio, é um retrato desta mal-querência que nada tem de contemporâneo. A foto deste jovem, postada sistematicamente pelos mais diferentes grupos nas redes sociais e em diferentes meios de comunicação, rendeu todo tipo de comentário e repercussão, só não superou o fato da hipervisibilidade branca não causar perplexidade justo no último país a abolir a escravidão.

Além de ‘agradecer’ ao fato de estar vivo, cenas como esta que, lamentavelmente vem se repetindo, demonstram o quanto a nossa sociedade ainda precisa avançar em termos de desconstrução de estereótipos onde qualquer negro, morador de território popular é um potencial criminoso. Assim, como os dados do Mapa da Violência apontam que um jovem negro tem três vezes mais chances de ser assassinado do que um jovem branco, e isso é uma realidade. O Observatório de Favelas repudia qualquer forma de violência, nós defendemos a vida e o direito de acesso à justiça para que, todo cidadão – se necessário – responda pelos seus atos perante a lei.

Para finalizar, o boletim retoma a pauta das remoções forçadas em função dos Megaeventos que a cidade vai receber esse ano e em 2016. Além de uma reportagem sobre a dificuldade que muitas famílias enfrentam no início do ano, quando precisam matricular seus filhos em escolas e creches públicas. Todos os temas são pautados pelos direitos e pelo desejo de que a ausência deles não banalize as evidências.

Começamos o ano a todo vapor, tendo clareza de que esse será um ano de transformações que podem influenciar diversas mudanças na cidade. Esperamos que estas mudanças sejam para melhorar a vida, o acesso e os direitos de todos os cidadãos, independente de sua cor, poder econômico ou classe social.