Por: Jailson Souza e Silva (jailson@observatoriodefavelas.org.br)

“Aquele que luta com monstros deveria olhar para si mesmo para não se tornar um deles. E quando você olhar para um longo abismo, o abismo também deve olhar para você.” F. Nietzsche, Para além do bem e do mal, 1886.
O termo Pedagogia define um processo regular e orientado de formação de um determinado tipo de pessoa numa determinada direção. Ele tem servido para situar um conjunto de proposições sobre os tipos de seres sociais que precisamos formar para constituir a sociedade que vivemos. Minha hipótese nesse texto é que as nossas instituições sociais, em geral – Família, Escola, Igreja, Partido, Estado, Mercado etc – têm produzido um processo de socialização dos indivíduos onde se naturalizam comportamentos que geram a “monstrualização” de seres específicos: do “outro”, do “diferente”. Esse processo pedagógico é que sustenta, por exemplo, a naturalizacão e banalizacão da violência contra parcelas específicas da população brasileira, dentre outras.
Quando monstrualizamos, arrancamos o outro de sua humanidade, deixamos de percebê-lo como alguém semelhante a nós e desejamos que ele saia de nosso convívio. Os nazistas, antes de começarem a matar os judeus, os monstrualizaram, construindo uma representação na qual se obliterava a condição humana daquele povo. A partir do momento que se consegue atingir o sucesso na massificação dessa representação, pode-se partir para a eliminação dos monstros.
Os monstros podem ser diferentes de acordo com a posição política e perspectiva de mundo. Os mais universais são os traficantes de drogas. Embora o tráfico – e vendedores de drogas – só existam por causa da demanda, há um processo generalizado de complacência com a morte invisível – pois sem nome, idade, subjetividade, família, desejos e humanidade – dos traficantes. Os grandes jornais, por exemplo, não se dignam nem mesmo a dar os seus nomes, idades, características individuais. São demônios, monstros a serem eliminados.
O pedófilo é outro monstro universal. Deixa-se de reconhecer que seu crime, da pior espécie, certamente, é de alguém humano, dominado por um sofrimento e uma doença que é produzida por características subjetivas, mas também na dinâmica social.
A travesti é outro monstro característico, pois coloca em questão para os homens machistas – e a grande maioria de nós o é – questões no campo da própria identidade sexual ou de gênero.
Vamos aprendendo, desde o seio familiar, que existem pessoas de bem e as monstruosas – “ – Não ande com fulano que ele não é boa companhia”; vamos aprendendo que certas práticas sociais, em particular sexuais ou em relação a alguns tipos de drogas, são muito perigosas. No limite, como vocalizam muitos fundamentalistas religiosos, as mulheres, especialmente as “bruxas”, as que aspiram ser autônomas, são expressões da vontade do Demo. Só há um caminho para superar essa pedagogia da monstrualização que vai sendo construída no cotidiano: através de uma pedagogia da Convivência. Falarei disso em breve.