Por Gabriela Anastacia (gabriela@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Nos dias 23 e 24 de agosto aconteceu na Maré o seminário “Defesa da Democracia em Tempos Ultraconservadores”, evento organizado pelo Observatório de Favelas em parceria com a Uniperiferias, Redes da Maré e Casa Fluminense e apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil. A atividade buscou mobilizar moradores e organizações da sociedade civil da região metropolitana do Rio de Janeiro em torno do debate sobre democracia e marcou também o momento em que o Observatório de Favelas completa 18 anos de existência.

Seminário Defesa da Democracia. Créditos foto: Davi Marcos

A mesa de abertura abordou estratégias de resistência para enfrentar o conservadorismo brasileiro e contou com a presença de Sueli Carneiro (Gelédes – Instituto Mulher Negra), Wesley Teixeira (Movimento Caxias), Aline Maia (Observatório de Favelas) e mediação de Jailson de Souza e Silva (Uniperiferias).

A ativista antirracista Sueli Carneiro relembrou diversas pautas conquistadas pela população negra, do direito à propriedade das comunidades quilombolas às reivindicações trabalhistas das empregadas domésticas. Ela ainda sugeriu o uso de mídias alternativas e da educação popular para desenvolver novas narrativas libertárias e ressignificar o espaço público para formação de cidadania e para a valorização da nossa história, pois “sem memória não é possível ter projeto para o futuro”.

Abrindo a programação do segundo dia, no sábado (24), a mesa “Direito à Vida como Fundamento da Democracia” composta integralmente por mulheres, trouxe a discussão sobre as políticas de extermínio do Estado. Participaram do debate Lívia Casseres (NUCORA – Defensoria Pública do RJ), Nívia Raposo (Rede de Mães e Familiares da Baixada Fluminense), Rafaela Albergaria (Centro de Referência de Mulheres Vítimas de Violência) e mediação de Raquel Willadino (diretora do Observatório de Favelas).

“Quando mataram meu filho eu senti que foi quebrado o contrato social que o Estado tinha comigo. Existe na Constituição um artigo que garante o direito à vida. Todos os dias esses direitos são violados, tanto nas periferias quanto nas favelas”, declarou Nívia Raposo.

“As políticas públicas são feitas por pessoas”

Com esta afirmação, a mesa “Comunicação, Cultura e Política na Definição do Sentido da Democracia” nos fez refletir sobre a necessidade de retomar o trabalho de base e construir espaços de formação política nas periferias e favelas onde estamos.

“Se formos pensar do ponto de vista da ocupação dos espaços de poder a nossa democracia mesmo nos melhores momentos não foi plena e não fomos representados. E pensar nela com muito saudosismo é equivocado. O nosso movimento precisa ser na construção do que a gente efetivamente que chamar e entende como Democracia”, enfatizou a jornalista Flávia Oliveira.

A mesa contou com mediação do diretor do Observatório de Favelas, Jorge Barbosa e participação da Jornalista e Conselheira Estratégica do Observatório, Flávia Oliveira do Márcio Black (Fundação Tide Setubal) e da Morgana Eneile (Adoulas RJ).

“Estamos resistindo há 519 anos”

A partir das experiências de Gilmara Cunha (Conexão G), Rosi Almeida (Quilombo Camorim) e Marize Para-Rete (Aldeia Maracanã), a mesa discutiu o contexto das “Mulheres Negras, Indígenas e LGBTs diante das reações ultraconservadoras”. As palestrantes, sob mediação da jornalista Priscila Rodrigues (Observatório de Favelas), defenderam que não há democracia sem direito à vida, que há tempos tem sido negado a essas populações.

Reivindicar e celebrar

A programação também marcou o alcance da maioridade do Observatório de Favelas. Comemorando os 18 anos de desafiadoras realizações, como bem descreveu o diretor Jorge Barbosa em sua carta de despedida do cargo de diretor da instituição. Jorge foi homenageado com flores, ao final da mesa que mediava, e discurso da equipe de direção e colaboradores. Depois os festejos seguiram por conta das apresentações do rapper Nyl MC e roda de samba com Lucas Kimer.

Confira o vídeo síntese dos dois dias de atividade com falas de Sueli Carneiro, Aruan Braga, Raquel Willadino, Rafaela Albergaria, Gilmara Cunha, Marilene de Paula e Flavia Oliveira aqui: https://youtu.be/Cs1a6AHPpnE