Por Fernando Lannes Fernandes*

Rio de Janeiro – O Observatório de Favelas está completando 18 anos. Apesar disso, o alcance da ‘maioridade’, todavia, me parece ter sido anterior: a robustez conceitual, a qualidade do trabalho e o comprometimento com as causas sociais que afetam os grupos e territórios periféricos já se demonstrava com grande maturidade desde os primeiros anos dessa organização a qual me orgulho de ter sido um de seus membros fundadores, e a qual devo uma considerável parcela de minha formação política e intelectual.

O Observatório de Favelas é um patrimônio político-intelectual da cidade do Rio de Janeiro e, como a trajetória da organização demonstra, do Brasil. A relevância e importância de uma organização do caráter do Observatório no contexto histórico e político brasileiro é fundamental para se entender o papel que esta organização teve, e ainda tem, no processo contínuo de diálogo e produção de pontes entre as periferias e o conjunto da cidade. Tendo como ponto de partida a crítica da ideia de ‘cidade partida’, muito difundida no começo dos anos 2000, o Observatório se propôs a apresentar um outro olhar sobre as periferias urbanas, onde o reconhecimento das favelas como cidade tem sido uma marca fundamental no âmbito das formulações, proposições e metodologias desenvolvidas pela organização.

Para além, um esforço permanente de se pensar os sujeitos das favelas como cidadãos plenos tem sido fundamental no que se refere ao reconhecimento de sua legitimidade na produção do urbano – em suas múltiplas dimensões: culturais, econômicas e sociais – e no reconhecimento do valor da vida, tem sido pautas fundamentais da agenda política, intelectual e de ação dessa organização.

Todos esses conceitos, todavia, adquirem potência na medida em que a instituição adotou como filosofia fundadora a participação e formação de quadros políticos, artísticos e intelectuais das periferias. A aposta na constituição de uma ampla rede de “intelectuais da favela” tem sido uma marca constante no trabalho desenvolvido pelo Observatório na busca pela ampliação dos espaços de participação e incidência política dos sujeitos periféricos para a afirmação de um projeto plural de cidade.

Acredito que tem sido em função disso que o Observatório de Favelas se estabeleceu como uma força junto às organizações da sociedade civil, em particular aquelas que atuam junto às periferias, e também, por sua capacidade agregadora, de dialogar com grupos diversos na cidade. Não é por menos que os vínculos, inclusive afetivos, permanecem, e alimentam, a cada novo desafio – e são tantos nesses dias, a energia que nos move e nos mobiliza a continuar lutando por uma cidade mais justa, de sujeitos plenos e autônomos, a partir do reconhecimento de suas potências transformadoras.

Eu não poderia terminar sem repetir aqui as palavras que deixei escritas no dia em que me despedi, quando me mudei para o estrangeiro – de que é ali onde minhas raízes estão fincadas. Não é para menos que apesar da distância física, o compromisso, e a vontade de continuar atuando em parceria, me mobiliza dia após dia, e que se renova a cada momento de interação com meus colegas de trabalho e companheiros de vida que conquistei neste lugar.

*Fernando Lannes Fernandes é Professor e Pesquisador Sênior da Universidade de Dundee, Escócia. Ele atuou no Observatório desde a sua fundação, até 2009, tendo sido um dos seus diretores no período de 2005 a 2009.