Por Gabrielly Pereira (gabrielly@observatoriodefavelas.org.br) e Gabriela Anastacia (gabriela@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Para um país que reserva apenas 5% do seu PIB para o Plano Nacional de Educação, segundo dados do INEP, o Brasil ainda está longe de ser referência no assunto. Contudo, existem organizações e pessoas que buscam métodos alternativos aos tradicionais para obter conhecimento e capacitação. No Complexo da Maré, há quase 18 anos e com atuação internacional, o Observatório de Favelas é uma das entidades que se propõem a desenvolver ações que valorizem múltiplas formas de conhecimento tendo como princípio a potência de espaços populares e de sujeitos através de seus saberes únicos e coletivos.

Criada em 2005, a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), anualmente recebia cerca de 90 pessoas (maioria mulher, negro e periférico) que concluíam uma formação qualificada articulando múltiplos conhecimentos: históricos, científicos, técnicos, filosóficos, populares. Para além disso, a partir do conceito de publicidade afirmativa, construído no próprio Observatório de Favelas, havia um ambiente favorável para ampliação do papel de sujeitos na sociedade.

Turma da ESPOCC em aula de fotografia na Maré

Turma da ESPOCC em aula de fotografia na Maré

“A ESPOCC juntava as águas do Rio com as águas do Mar, permitindo encontros que ampliavam, entre a juventude, uma visão socio-histórica sobre a mobilidade plena e a mobilidade simbólica. A ESPOCC construiu um ambiente favorável à formação humana. Assim foi possível apostar na convivência com a diferença e os participantes se construírem como sujeitos do processo. Para além do aprendizado com ajuda dos parceiros do OF e dos colaboradores da organização, o ambiente criado permitia que os participantes atuassem para nutrir, construir e atuar como sujeitos para o conhecimento pulsar coletivamente”, afirma Eduardo Alves, coordenador das três últimas turmas da Escola.

O produtor de eventos Helcimar Lopes buscava uma formação mais técnica quando, em 2013, participou do processo seletivo para o projeto. “A ESPOCC pra mim foi um abrir dos olhos. Olhar o mundo de uma forma crítica e sempre buscar tirar o melhor de cada ação. Até a minha forma de comunicação com as pessoas melhorou. Foi muito bacana poder olhar todos os acontecimentos, todas as propagandas, tudo o que a grande mídia, as grandes agências oferecem ao mercado com o olhar crítico”, destaca.

Mesmo diante dos indicadores sociais do país demarcarem o aumento de pessoas periféricas em centros universitários (IBGE), a lógica da educação e sua formalidade ainda está concentrada nesses espaços que por sua vez, são majoritariamente rígidos e impermeáveis. E outras formas de educação buscam consolidar um caminho efetivo para a democratização da informação e do conhecimento através de espaços populares e plurais, além da proposição de novas metodologias e conceitos em ambientes acadêmicos.

Desmistificar estereótipos territoriais para que cada indivíduo reconheça suas potencialidades, para além do operacional, formando jornalistas, produtores, publicitários, fotógrafos, pesquisadores, empreendedores entre outras profissões. Somados a Espocc, mais de 20 mil pessoas já passaram por projetos formativos idealizados pelo Observatório de Favelas e distribuídos em seus quatro eixos de atuação: Comunicação, Arte e Território, Direito à Vida e Segurança Pública e Políticas Urbanas.

Equipe da Narra em visita à sede da Uol em São Paulo

Equipe da Narra em visita à sede da Uol em São Paulo

A partir do acúmulo da organização em experiências de formação e o diálogo com outras metodologias como a da Agência de Jornalismo Énois (SP), atualmente acontece, na sede do Observatório de favelas, a Agência Narra, uma agência-escola de jornalismo, em parceria com o Data Labe e apoio da Fundação Ford, composta por um grupo de onze jovens da região metropolitana do Rio de Janeiro. Para a estudante de publicidade Ellen Marques (22) e hoje integrante da equipe de comunicação da Arena Carioca Carlos Roberto de Oliveira – Dicró a participação na Narra foi fundamental para consciência de disputa do espaço acadêmico.

“Sempre quis estudar Comunicação, fazer Jornalismo e há quatro anos, vinha tentando ingressar na faculdade nessa área e não conseguia. Quando vim para entrevista achei que não ia rolar porque não tinha faculdade, mas uma semana depois peguei dois resultados decisivos para mim: que eu iria compor o time da Narra (que na época a gente só chamava pelo que é “agência escola de jornalismo”) e ingressei na faculdade, no curso de publicidade. Nunca vou me esquecer de como me senti completa por sentir que estava realizando meus sonhos, mas eu nem tinha noção do quão gigante a Narra é.”

O começo de tudo

O projeto estruturante, Conexão de Saberes se transformou em uma política pública encampada pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (Secad), em parceria com o Observatório e 33 universidades federais brasileiras. Além de contribuir com a permanência de jovens periféricos acadêmicos, os resultados do projeto incidiram na discussão a nível nacional do sistema de cotas previamente estabelecido pelo Governo Federal, além de dezenas de publicações científicas.

“A questão educacional sempre foi uma perspectiva central para o Observatório de Favelas, nos constituímos como uma organização formativa, preocupada em formar cada vez mais pessoas nas periferias, produzir conceitos, metodologias, novas tecnologias sociais. E isso implica numa discussão sobre direito à cidade e o sujeito. Desenvolvemos todas as novas práticas formativas na construção de um novo olhar para cidade”, afirma Jailson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas.