Por Rebeca Brandão (rebeca@observatoriodefavelas.org.br)*

Rio de Janeiro – A Arena Carioca Dicró faz parte da rede de Lonas e Arenas da cidade do Rio de Janeiro. Eu não sei se todos estão cientes, mas sem as Lonas Culturais e toda luta simbólica empenhada em cada conquista dos 10 equipamentos, cada dedicação de cada gestor em tornar seu equipamento um espaço de excelência territorial, ratificando o sucesso do projeto, as 04 Arenas Cariocas não estariam aqui. Esses equipamentos atendem as regiões norte e oeste da cidade, áreas marcadas historicamente pelo esvaziamento de uma identidade cultural própria.

São espaços públicos cogestionados pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e por organizações da sociedade civil, reafirmando o caráter democrático e plural do fomento à cultura na cidade. Nós fazemos parte do Observatório de Favelas, uma instituição que existe há 17 anos, com base na Maré e atuação nacional e internacional no desenvolvimento de políticas públicas que contribuam para a diminuição das desigualdades e supere a dimensão da carência: para nós favela é lugar de potência, criatividade e inventividade. É daqui, com todas as nossas gambiologias, que acreditamos sair as soluções para um mundo menos desigual. Estamos na gestão deste equipamento há 06 anos e durante esse tempo, trabalhamos incansavelmente para explorar todas as dimensões de fomento, criação e difusão que essa casa nos oferece. Este é o lugar de onde falamos hoje.

Durante os últimos 06 anos fomos palco de grandes espetáculos e shows: por aqui passaram Fernanda Montenegro, Lenine, Teatro Mágico; fomos espaço de formação de projetos revolucionários como os cursos de formação da Escola Portátil de Música e o polo do Teatro em Comunidades, da Unirio; fomos espaços híbridos, nos aulões de dança de salão e de passinho, que existem majoritariamente para promover o encontro; fomos residência do Teatro da Laje e, hoje somos residência das bandas Safira 90, 9º Planeta, Cia Teatral Malta e a Cia Passinho Carioca, que no último mês empregou 25 jovens no espetáculo Resistência: Um Sonho se Realiza. Nós criamos metodologias de aproximação e transformamos isso num eixo central do nosso trabalho, que chamamos de Participação Ampliada; criamos formatos de residências menores, e chamamos esse eixo de Vivências. Criamos um núcleo para conversar com o território, entender suas demandas e mobilizar pessoas. Dentro desse eixo temos desenvolvido atividades em transbordamento que levam nossos projetos para as escolas, para as ruas, para as clínicas da família e para Igreja da Penha.

Tudo isso mobilizados pela questão da democratização do acesso, que nos parece, é apenas uma etapa da constituição dos sujeitos emancipados como donos da própria história.

Há pouco mais de um mês fomos impedidos de realizar nosso trabalho por cerca de 30 horas. O motivo? A única intervenção militar em um equipamento público de cultura que se tem notícia. Não é aleatório, mas nós acreditamos que a cultura é uma tática de reivindicação política. Para nós, produção cultural é linguagem e fazer a gestão de um equipamento em área de conflito também. A intervenção cultural realizada no último dia 29 de setembro na Arena Dicró é a nossa resposta porque ação se sobrepõe ao discurso.

Junto a secretaria, juntamos nosso melhor bonde, nesse dia que já amanheceu histórico com tantas lutas, para promover um dia de encontros e sorrisos. Passaram por aqui as pratas da casa: Passinho Carioca e Safira 90, a banda Céu de Pedra, a bateria da escola de samba Independentes de Olaria, Elis Mc, o projeto Viva Wanderley!, Olala fa e Recicloteka.

Se me permitem, gostaria de terminar com parte do discurso de abertura do ministro Gilberto Gil, em 2002. Eu gosto de dizer que nossa equipe é muito jovem, do ponto de vista de uma formação política identitária. Esse discurso foi feito há 17 anos e eu tenho certeza que o que estamos realizando aqui é um desdobramento direto deste projeto de país:

“E o que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta “classe artística e intelectual”. Cultura, como alguém já disse, não é apenas “uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos”. Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra “folclore”. Os vínculos entre o conceito erudito de “folclore” e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. “Folclore” é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antigüidade, no panorama da cultura de massa é produzido por gente inculta, por “primitivos contemporâneos”, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual. Não existe “folclore” o que existe é cultura.

Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta para além do mero valor de uso. Cultura como aquilo que, em cada objeto que produzimos, transcende o meramente técnico. Cultura como usina de símbolos de um povo. Cultura como conjunto de signos de cada comunidade e de toda a nação. Cultura como o sentido de nossos atos, a soma de nossos gestos, o senso de nossos jeitos.

o acesso à cultura é um direito básico de cidadania, assim como o direito à educação, à saúde, à vida num meio ambiente saudável. Ao investir nas condições de criação e produção, estaremos tomando uma iniciativa de conseqüências imprevisíveis, mas certamente brilhantes e profundas já que a criatividade popular brasileira, dos primeiros tempos coloniais aos dias de hoje, foi sempre muito além do que permitiam as condições educacionais, sociais e econômicas de nossa existência.”

Obrigada por estarem aqui. Esse também é o nosso levante.

*Rebeca Brandão é baixadense, coordenadora da Arena Carioca Dicró, produtora cultural, pesquisadora e curiosa da cultura independente carioca e fluminense. Vive em fluxo.