Por Silvana Bahia (silvana@observatoriodefavelas.org.br)

Foto de capa: Aline Portilho

“Inventar novas formas de afirmações de sujeitos por meio da construção de espaços políticos de intervenção na cidade” esse foi o ponto de partida para o debate que aconteceu no último dia 20 de outubro, na Escola de Comunicação da UFRJ, sobre mapas, tecnologia, cultura e cidade. O encontro, realizado pelo Guia Cultural de Favelas – mapa colaborativo de visualização de práticas culturais em favelas – reuniu ativistas, pesquisadores, curiosos e fazedores interessados em mapeamentos e cartografias.

O encontro teve a participação do pesquisador e fundador do hackitectura.net Pablo de Soto; do artista Rafo Castro e do desenvolvedor Marcelo Alves do #StreetArtRio;  da coordenadora de produção do filme “Todo mapa tem um discurso” Thais Inácio; e das integrantes da Rede Jovem (Wikimapa) Natalia Ainsengart e Patrícia Azevedo. Os convidados compartilharam experiências e discutiram sobre esta ferramenta política que são as cartografias.

A inovação dessa prática começa a partir da proposta inicial: o trabalho colaborativo. Os mapas e guias produzidos hoje tem a capacidade de acumular referências e narrativas diversas vindas da multiplicidade de experiências nos territórios. Sabemos que mapas são produzidos há séculos. O que faz então com que essa ferramenta tenha tanto espaço nas ações de movimentos sociais? Gilberto Vieira, coordenador do Guia Cultural de Favelas, acredita que os novos mapas só são possíveis a partir da multidão. “Quando atores invisibilizados se juntam para criar narrativas, novas possibilidades de mundo são criadas. O território mapeado ganha a força de quem vive.”

Pablo de Soto falou sobre a experiência do BH Comum, que tem como objetivo um mapeamento das práticas e lugares, como o próprio nome já diz, comuns da cidade de Belo Horizonte. A produção de bens comuns mais a força dos movimentos de BH, frente à especulação imobiliária se torna uma forma de resistência a um modelo de cidade-mercado. No BH Comum foram mapeados ruas e praças (re) apropriadas para festas e performances, construções de agricultura urbana, ciclismo, grupos que lutam pelo direito à moradia, cultura negra, LGBT, Queer, entre outros. “A cidade é o gueto de acumulação do capital que tudo quer. Mapas podem oferecer possibilidades de novos arranjos. As cartografias são insurgências, o mapa é agenda de futuro”, comentou o pesquisador.

Jorge Barbosa, do Guia Cultural de Favelas, comentou a importância política de construir espaços de intervenção na cidade. “Através de uma nova forma de política reconstruímos a dimensão utópica da cidades a partir da diferença. As favelas são conhecidas, mas como são reconhecidas? Os mapas dão visibilidade à existências, mesmo nesse processo tão avassalador do capitalismo que transforma tudo em mercadoria. Como as políticas públicas lidam com a diferença?” Para Barbosa, quando inventamos novos usos, criamos novos conceitos e assim outros espaços para o debate.

Para Patrícia Azevedo a disputa se insere numa questão mais ampla, relacionada ao direito à cidade. “Não queremos criar novos mapas de cidade, como se as coisas fossem separadas. Queremos ser reconhecidos e estar nos mapas oficiais da cidade”, completou.

O que resta são os desafios de tornar essa ferramenta mais difundida, acessível e atrativa para que movimentos e grupos possam se apropriar. Parece que a transformação parte de um lugar mais subjetivo. Se o acesso à tecnologias baratas e de qualidade já são uma realidade de usuários de territórios populares, então os mapas precisam ser reconhecidos como ferramentas de advocacy em que novas narrativas são construídas em plataformas de visibilidade e de disputa por uma nova ideia de cidade.

Construir mapas e cartografias, que dão plasticidade estética a lugares, práticas e demandas de forma colaborativa e interativa, que contribuem para uma visibilidade que nem sempre é garantida e pode ser o primeiro passo para garantia de direitos, é a missão dessa galera que está (re) pensando a cidade.