Depois de uma acirrada disputa eleitoral, com uma votação apertada para um novo mandato da presidenta Dilma, entramos em novembro. O mês da consciência negra muito tem para nos falar, ensinar e mobilizar. A disputa eleitoral que acabamos de viver apresentou graus de intolerâncias e de desrespeitos que estão crescendo no país. Articular conhecimentos, práticas e projetos para avançarmos em direção a uma cidade mais humana, com direitos garantidos e ampliados e com mais participação, se torna prioridade neste momento.

Nesse sentido, a história do povo negro tem muito a nos ensinar: as conquistas de direitos, a valorização e reconhecimento de suas culturas e práticas são fruto de muita organização e de um histórico movimento por resistência. O racismo estrutural que ainda impregna a sociedade brasileira, com muito peso cultural na sociedade civil e ainda predominante nas ações do Estado, precisa ser enfrentado e superado no novo século. Isso significa, em linhas gerais, ampliar a formulação de políticas públicas positivas, como a das cotas raciais, quanto acumular outra cultura sustentada no respeito à diferença e na solidariedade.

E é justamente nesse mês, que segue para votação o PL 4471 de 2012 que exige, a partir de sua aprovação, alterações positivas no Código de Processo Penal, para que todos que exerçam ações de violência letal, sejam do Estado ou da Sociedade Civil, tenham o inquérito devidamente instaurado. Uma investigação total para policiais ou qualquer ser humano que cometa assassinato. É o fim legal, em todo o território nacional, desse absurdo chamado “auto de resistência”.

Com isso vamos fortalecendo nossa linda juventude, que vem morrendo em todo o país, vítimas de homicídio. Principalmente nossos jovens negros, que são as principais vítimas desse atentado. Uma iniciativa fundamental para alterar um quadro triste e lamentável de um Estado que é um dos que mais mata, em defesa também dos policiais, que são também uns dos que mais morrem. Assim alteramos culturas e práticas de abordagem e relações na sociedade, o que é fundamental. É pela vida que vamos seguir, vida de todos, na sociedade civil e no Estado, nas periferias, favelas, em toda a cidade e nas polícias pelo Brasil.

São grandes desafios, o que exige também, da nossa parte, grandes atos. Por isso começaremos o mês convidando a todas e todos para o encontro “Diálogos Negros na Maré”, sobre o direito à diferença. Para além do respeito à história, trajetória e cultura do povo negro, trata-se de ampliar potências que fortaleçam a superação do racismo em todas as suas faces. Isso implica desafios na elaboração de políticas públicas no campo da saúde, da educação, da segurança, entre outros, que reconheçam e deem conta da diferença. Mas também representa alterações profundas nas estéticas, buscando ampliar a convivência com a diversidade e saber beber dessa aprendizagem cultural histórica.

Nesta edição do Boletim Notícias & Análises, apresentamos também novas metodologias e práticas que representam essa multiplicidade de ações críticas e com conteúdo positivo pela mudança. O Observatório de Favelas lançou o Recorrente, uma forma de Crowdfunding permanente, chamando para um pertencimento mais ampliado e qualificado da sociedade civil, buscando novas práticas de financiamento. Um instrumento que permitirá nossa organização dar saltos mais altos e junto com cada cidadão e cidadã que pretenda uma cidadania cada vez mais ativa na sociedade.

Na mesma estrada, apresentamos uma matéria sobre as modificações que pretendemos no campo da comunicação. Para além de montar uma programação sua no computador, queremos superar a era do telespectador. A busca para que você se marque, se identifique, qualifique sua ação, divida com muitos suas ideias, é fundamental para o rumo da cidadania ativa. Novas tecnologias apresentam alternativas para além de download. A ideia é estimular o número de uploads, onde cada vez mais as pessoas possam compartilhar suas visões de mundo, o comum da sua cidade e suas diferenças.

E nada como falar do direito das crianças e dos adolescentes – dessa geração que já nasce conectada – nessa revolução de condutas e formas tecnológicas. O principal desafio neste momento, é elaborar sentidos, práticas e metodologias para a ampliação da força desse presente que é também futuro: as nossas crianças.

Com tanto rancor e intolerância pavimentando nossas vidas e estradas aparecem propostas cada vez mais conservadoras e autoritárias, como a diminuição da idade penal. Precisamos de humanidade, solidariedade e investimentos em mobilidade, educação, cultura e arte. Assim ampliamos a vida, construindo cidades de direitos e superando as formas de mercadoria que hegemonizam nossas pólis. Então é isso, sem perder tempo, vamos botar o bloco na Rua, nesse novo novembro.

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Davi Marcos / Observatório de Favelas