Por: Camille Rodrigues (camille@observatoriodefavelas.org.br)

Foto de Capa: Augusto Batista

A Feira Crespa emplacou no mês de março a sua segunda edição. Fruto de uma iniciativa da primeira turma do Agência de Redes para Juventude da Pavuna, o evento é cada vez mais reconhecido como um espaço de valorização da cultura negra. A Feira surgiu como um desejo de proporcionar às mulheres negras e moradoras da Pavuna alternativas de embelezamento.

 

Durante o evento, que aconteceu no dia da mulher, 8 de março, a equipe do Notícias e Análises conversou com duas realizadoras: Elaine Rosa (criadora) e Priscilla Barbosa (apresentadora do evento). A Design de moda, Gabriela Monteiro, infelizmente conhecida por denunciar comentários racistas em sua universidade, também esteve presente e conversou com a equipe. 

As trajetórias de empoderamento dessas mulheres você pode conferir na entrevista.

Notícias e Análises: Como surgiu a ideia de organizar a Feira Crespa?

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Elaine Rosa: A Feira Crespa nasceu do processo da Agência Redes para a Juventude. Eu tive que investir em algo que me representasse, algo que fosse meu, minha ideia, meu desejo e me vi criando algo que já existia dentro de mim. Minha mãe teve um salão de beleza em casa… Eu estava passando um processo do meu cabelo crespo, unindo meu desejo junto a mais 4 jovens que queriam falar de moda e estética dentro da pavuna, para mulher da pavuna, de periferia que em sua maioria é negra. Eu comecei a ver que isso podia ganhar uma notoriedade, porque dentro da agência não havia nenhum outro projeto que tratasse dessa temática tão incisivamente. E também aproveitamos que o crespo está em alta.

 

NA: Quais dificuldades uma mulher negra protagonista enfrenta?

 

ER: Em todas as minhas ações eu tive uma questão de liderança muito grande, porque isso é meu! Comecei a ver que as pessoas estavam fazendo referências em relação a mim. A Agência veio na minha vida para fazer diferença! Fez de mim realizadora! A partir do momento que eu pensei em algo grande, a parte de me fazer realizadora fez com que eu virasse referência para muitas meninas. A minha preocupação com isso é a minha postura! Até que ponto o que eu falo pode servir de influência para uma pessoa?

Eu venho de uma religião que é a Messiânica, onde nosso maior objetivo é fazer a vida do outro feliz, então isso é muito meu. Como posso fazer a vida do meu proximo, do meu semelhante feliz? Eu encaro como uma missão na sociedade, não uma missao dentro da igreja, porque eu sempre fui assim, sempre fui lider nas coisas que eu fazia.

 

NA: Como é trabalhar em prol do empoderamento e da elevação da autoestima das mulheres ao se reconhecerem negras?

ER: Nunca foi pretensão minha! Só queria executar meu projeto e causar impacto na vida das meninas da pavuna. Mostrar de uma certa maneira, para um grupo seleto, que a gente podia fazer a diferença… Está acontecendo!

NA: Quais as dificuldades que uma uma mulher negra protagonista enfrenta?

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Foto: JotaC Angelo – Blog O ultimo Black Power

 

Priscila Barbosa: Na verdade eu nunca encontrei dificuldades para conquistar um espaço, por ser negra. Eu acredito que esses empecilhos até apareciam, mas sempre fui criada em um ambiente onde o “não posso, não devo e não vou conseguir” não existiam, logo acredito que isso influenciou para que os comentários negativos e preconceitos passassem despercebidos. Porém ao longo da vida, conforme você vai crescendo e se conhecendo e/ou se autoafirmando, você começa a entender que o mundo não é assim tão lindo.

 

Todo mundo passa por um momento de transição na vida e eu passei por isso diversas vezes, mas definitivamente o mais forte aconteceu quando gradativamente eu resolvi mudar meu visual. E essa foi uma escolha minha, sem referencias, pressão ou imposição de alguém. Foi algo que veio de mim mesma, naturalmente porque algo dentro de mim gritava com uma força maior, o primeiro passo foi mudar o cabelo, que vieram através das tranças e depois o black, que consequentemente muda todo o resto. Dizer que venci seria, digamos pretencioso demais, eu venço um perrengue a cada dia, os tabus, as imposições de todos os lados, de todos os gêneros.

 

NA: Conte um pouco sobre os trabalhos que realiza nesse sentido: do processo de autoestima da mulher ao se reconhecer negra.

 

Recentemente recebi um e-mail falando sobre a feira crespa e eu senti uma vontade enorme de ajudar mais, de alguma forma. Em 2011 eu já tinha sido organizadora de uma movimento sobre beleza negra e isso foi bem interessante. Agora mais madura e com algumas coisas traçadas em mente, eu acreditava que poderia agregar valor no projeto da Elaine Rosa e de mais pessoas que estavam (e estão) envolvidas. É importante ressaltar que essa questão de trabalhar em prol do empoderamento negro nunca foi algo que eu busquei, que forcei através de uma imagem, foi algo que fui aprendendo, adquirindo com o tempo, gradativamente e de uma forma bem gostosa. Eu tenho muito amor pelo que faço, e vou te contar um segredo que ninguém sabe: eu e minha nega (mãe) fizemos um trato: toda vez que a gente passava por um perrengue a gente falava que um dia ia sair dessa lama toda e lutar por aqueles que vivem na mesma situação que vivíamos, lá do cantinho sossegado onde está, eu sei que ela tem assinado em baixo.

Ser negro no nosso país não é fácil! Não é mesmo! E eu só aprendi isso depois de adulta, quando tive alguns projetos “frustrados” e quanto tive alguns materiais rejeitadas por alguns veículos de mídia.

Através do blog, Coisa de Menina Indecisa, eu comecei a falar sobre autoestima, direcionando o conteúdo para mulheres em geral que precisavam de um levante e um up na questão da autoestima. A feira crespa tem me dado a oportunidade de falar e representar mulheres negras. Isso é algo maravilhoso, já que infelizmente na maioria dos eventos que vou, sou minoria. Apesar de não gostarem desse discurso (eu também não entendia) é a mais pura verdade. O espaço está crescendo, isso é fato. Os negros estão se posicionando muito mais, quebrando barreiras e construindo um caminho maravilhoso, mas muita coisa ainda tem que ser feita. Acredito que é possível se construir uma nova imagem, ou melhor, inserir a nossa imagem de forma descente e ao contrário do que alguns pensam, não é preciso se vitimizar, pelo contrário: É preciso se posicionar, investir em si mesmo e mostrar que sabe do que se está falando.

 

NA: Como foi seu processo pela ESPOCC, e o que mudou em sua vida?

 

PB: (Risos) Falar de mim e não citar a ESPOCC é praticamente impossível, chegar até o Observatório foi algo bem despretensioso, eu não fiz a matrícula para mim mesma, mas como eu costumo dizer: Deus sabia mesmo onde estava me mandando e fez algo lindo comigo! Tive oportunidade de conhecer um mundo totalmente diferente do meu, que nem tinha noção que existia. Foi um divisor de águas, e posso até dizer que estar na ESPOCC me direcionou para todo o restante. Não tem como resumir tudo o que eu conquistei e não foi algo acadêmico apenas, foi pessoal e emocional. Conheci pessoas que levo pra vida, que estão comigo sempre, que torcem por mim, que são parte da minha história pra sempre. Eu indico e voltaria quantas vezes fosse preciso. Quem tem a oportunidade de estudar hoje no observatório e joga essa oportunidade no lixo, com certeza não sabe a besteira que está fazendo. Acredite, esse lugar é um mundo mágico de conhecimento pra vida!

 

Hoje eu sou blogueira, Social Media em uma agência de publicidade, produtora nas horas vagas, sou uma mulher (eu era só uma garotinha perdida), sou dona dos meus ideais, dos meus objetivos e sei exatamente o que quero! E tudo começou na ESPOCC.

 

NA: Conta pra gente como foi a repercussão do caso e como isso contribuiu para o seu fortalecimento.

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Foto: Renato Galvão

 

Gabriela Monteiro: Todas nós somos protagonistas, por acaso aconteceu algo comigo que tomou uma repercussão e  na verdade acontece com diversas de nós, e por muitas vezes a mulher, não fala, não reclama, se cala porque acha que não pode acontecer nada com a pessoa que à agrediu, que falou algo que a feriu. Aconteceu algo comigo eu falei, eu reclamei, e acabei ganhando destaque, cabe a cada uma de nós ser protagonistas da nossa história, da nossa vida, é uma força que cada uma tem e cada uma tem que correr atrás disso e não se deixar calar, não se deixar desanimar pelas coisas que acontece na vida.

 

Viver não é fácil, o sistema da sociedade é cruel, esta aí para na verdade desanimar a gente, e nos deixar cada vez mais fracas, pensando que não somos capazes, mas na verdade todas somos! Se agente põe um objetivo na cabeça e foca nisso e tem vontade de fazer de verdade, de coração aberto, e também para receber as pessoas de trocar ideias, é super possível de você fazer o que você quiser.