Por Felipe Néo¹ e Luiz Camillo Osorio²
Foto destaque: Marcella Pizzolato

Rio de Janeiro –O grafite é uma arte urbana. Ele vai construindo várias narrativas pela cidade, constituindo novas visualidades, abrindo brechas democráticas, transpondo os limites das galerias e interpelando diretamente o transeunte. Há uma tendência em considerar tudo que é interferência gráfica na cidade como sendo grafite – do stencil, ao mural; do bomb ilegal feito às pressas, até os desenhos pagos e autorizados pelos proprietários dos muros. Há uma dentre estas formas de grafias urbanas que parece, ao menos à primeira vista, resistir e distanciar-se do grafite: trata-se do pixo (escrito com “x” e chamado assim por seus praticantes).

O pixo interfere clandestinamente na cidade, não pede licença e é uma marca visual daqueles que ficam sempre invisíveis e sem lugar. Seu objetivo não é a decoração, tão pouco sujar a cidade. É um manifesto à impossibilidade de se comunicar cotidianamente criando formas de expressão no limite do grito visual, assumindo-se assim como uma ação transgressora. Neste aspecto podemos pensá-lo a partir da noção de resistência às sociedades de controle, como propõe o filósofo francês Gilles Deleuze. O controle é um desdobramento da sociedade disciplinar, gestado na crise institucional dos meios de confinamento que antes caracterizavam as sociedades disciplinares.

Para pensar o pixo nesta chave da resistência deleuziana, gostaria de trazer à baila duas intervenções urbanas recentes. Refiro-me a Dória e Não fui eu. Por um lado, elas resistem a uma categorização que pretende separar o grafite e o pixo. Por outro, procuram provocar novas formas de interação com a arte urbana. Por se tratar, entretanto, de obras limítrofes entre grafite e pixo e dado o contexto de criminalização de um e legalização e incentivo ao outro, faz-se necessário investigar onde essas formas de arte na cidade se aproximam ou se separam.

De certa forma, o contexto inicial de guerra ao grafite no Brasil parece ter contribuído para a sua legalização posterior. Uma legalização estratégica. Ao menos é o que se percebe no decreto publicado no ano de 2014, no qual a prefeitura do Rio de Janeiro tornou legal a atividade do grafite, reconhecendo seu valor para a cidade. Ao mesmo tempo, o decreto acabou por determinar a criminalização do pixo. Ou seja, ao legalizar a prática mais domesticada do grafite, o poder público acabou por coibir a pichação. Quem determina o que é um e o que é outro?

Isto é, para fins de minimizar a presença do pixo na paisagem urbana, utilizando-se da solidariedade aparente entre pichadores e grafiteiros, determinou-se pela legalização do grafite. Neste processo criou-se uma fronteira entre estas ações, até então bastante indefinida. Apesar de não desejar diluir seus limites, para que um seja entendido como arte e outro como crime, seria necessário, ao menos para objetivos legais, esclarecer suas fronteiras. A separação entre pixo e grafite torna-se ainda mais turva quando são analisadas as diversas técnicas presentes no que se tem por grafite ou quando são observadas obras limítrofes entre grafite e pixo.

Como um exemplo disso, tanto Não fui eu quanto Dória transitam entre o grafite e o pixo. O Não fui eu não parece se encaixar em nenhuma das modalidades do grafite, o que o categorizaria como pixo, apesar das letras cursivas e da comunicação ambivalente. Normalmente o pixo, além dos desenhos característicos dos pichadores, evidenciam assinaturas de seus nomes em letras grandes, conhecido popularmente pelos artistas como bomb. Esta técnica é nada mais que a assinatura do artista, isto é, sua tag em letras cheias e preenchidas. São assinaturas cifradas que se disseminam nas paredes e empenas mais inatingíveis da cidade. Uma competição arriscada em que as marcas dos desconhecidos se impõem na cidade. Entretanto, não há nesse caso do Não fui eu uma assinatura autoral que se multiplica pela cidade, como é característico do pixo; há, ao contrário, uma declaração de não-autoria por parte do autor.

Da mesma forma, o Dória, apesar de feito por um pichador (Iaco Vianna), a própria obra subverte, tal qual o Não fui eu, o conceito de pixo, visto que a assinatura apresentada pela obra Dória é a assinatura de um terceiro, o então prefeito João Dória. O poder público que atacou frontalmente tanto o grafite como o pixo, foi transformado em pichador. Essas duas intervenções lidam com contextos locais e fazem a cidade refletir e problematizar, anônima e impessoalmente, o momento político em que se vive. Ambas as intervenções, deslocando a autoria, colocam o cidadão que passa como coadjuvante, provocando-o e chamando-o à responsabilidade.

Como apontado por Deleuze, as sociedades de controle exercem sobre o indivíduo um poder rarefeito e sutil, internalizando formas de comportamento e fechando todas as brechas de expressão singular. Para o filósofo francês, um dos meios de se exercer esse controle é através da informação e da sua circulação massificada. A contra-informação é uma estratégia de enfrentamento, mas por si só ineficaz para abrir linhas de fuga e horizontes de possibilidade para uma vida mais plural. Resistir é inventar formas de expressão não codificadas e produzir novos meios de disseminação. A arte que para o filósofo francês “não contém a mínima informação”, seria um lugar de se constituírem atos de resistência.

É nesta chave que vemos as duas intervenções destacadas acima. O Não fui eu, refletindo uma sociedade que prefere transferir ao outro sua própria omissão, proferindo um ato de negação ilocucionária no qual o outro, apesar de oblíquo no ato, é o responsável intrínseco da recusa: o outro é sempre culpado. O Brasil são os outros. A afirmação espalhada pela cidade reflete o sujeito performando o ato enquanto o nega, explicitando um sujeito que não se responsabiliza por nada. Por meio do Não fui eu, dois grupos sociais se separam: eu e os outros, onde eles são os responsáveis. Ao apelar à individualidade contra o coletivo, a pichação parece mostrar ao cidadão comum sua isenção de qualquer participação na produção do comum; isto é, o Não fui eu denuncia a ausência do nós e afirma a existência do eu apenas enquanto vítima.

Por outro lado, em outro contexto e como resposta à guerra contra o grafite que vivia São Paulo, surgiu também a obra Dória, na qual o autor escreve o nome do então prefeito por doze vezes em um muro cinza que era, no dia anterior, um dos maiores murais da cidade. Fruto do projeto Cidade Linda de João Dória, o apagamento levanta a questão sobre o que o então prefeito e atual governador propõe como padrão de beleza na cidade de São Paulo. O padrão estético- urbano do governo parece afirmar que não há espaço para a arte urbana na cidade. O pixo de Iaco Vianna simboliza a autoria do prefeito sobre os muros cinzas e põe em suas mãos a lata de tinta. Limpeza e pichação misturam-se. O prefeito que se empenhou na luta contra o grafite e o pixo, acordou um dia como pichador, assinando doze vezes o seu nome sobre o muro cinza que ele mesmo criou. Foi ele, fui eu.

Estas duas obras mostram o pixo como modo de resistência política. O enfrentamento da apatia e da censura, a expressão da (não)autoria, a cobrança de responsabilidades, a invenção e a luta por espaços mais pulsantes de vida em comum. Ter voz e visibilidade são parte do jogo político democrático. Muitas vezes conquistados através do ruído visual do pixo, outras na vibração de linhas e cores do grafite. Suas fronteiras são móveis e a legislação deve lidar com essa ambivalência se não quiser ser apenas forma de repressão. Não fui eu, fomos nós.

¹Felipe Néo é Graduando de filosofia e bolsista Pibic PUC-Rio / CNPQ
²Luiz Camillo Osorio é Professor Associado de Filosofia PUC-Rio, Bolsista de produtividade CNPq e membro do Conselho Estratégico do Observatório de Favelas