Foi em 9 de agosto de 1997 que ele se foi. O irmão do Henfil, da marcante obra de arte que é a música O BÊBADO E O EQUILIBRISTA. Herbert José de Sousa, o Betinho, que veio em corpo ao mundo em 1935, nasceu em Bocaiúva, interior de Minas Gerais. Já na década de 50, muito jovem encontrou os dominicanos, foi influenciado pelas vocações da teologia da libertação e entrou para a Juventude Estudantil Católica. Continuando os estudos, entrou para a Universidade de Minas Gerais, onde cursou sociologia e seguiu seu ativismo na JUC – Juventude Universitária Católica.

Mas não parou. No ano de 1962 foi um dos fundadores da Ação Popular (AP) tendência política que defendia o socialismo e atuava contra a ditadura, na qual foi um dos dirigentes de destaque. Hemofílico, assim como seus irmãos, não se rendeu à doença. Ainda que muito tenha sofrido por ela, teve atuação marcante no enfrentamento da ditadura militar. Ficou exilado no Chile, trabalhou com Allende e, para fugir do Pinochet, refugiou-se na embaixada panamenha e foi morar no México e no Canadá. Retornou ao Brasil em 1979 e em 1981 foi um dos criadores do Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas.

Betinho completa em agosto de 2017, 20 anos de falecimento. Sofreu todas as consequências imposta pelo sistema capitalista, contra o qual foi um crítico, ativista de todas as horas: sofreu pela inexistência de uma rede pública de saúde com qualidade mínima para manter a dignidade humana, inclusive com hospitais do Estado que não tratam pessoas, nem ao menos as doenças. Pelo contrário, criam doenças, pois foi no próprio sistema de saúde que foi contaminado pelo HIV, através de uma das transfusões de sangue que fez durante o seu tratamento de hemofilia; sofreu com a ditadura militar de 1964, expressão aberta de autoritarismo de um sistema que coloca o lucro acima da vida; sofreu com a vida das pessoas que pagam pela miséria do corpo, da fome, da ausência do mais básico.

Com essa compreensão de atuar pela dignidade humana, defender os direitos, apostar na cidadania ativa, formulou e fundou organizações memoráveis. Sua última investida em vida foi o projeto AÇÃO DA CIDADANIA CONTRA A FOME, A MISÉRIA E PELA VIDA. A defesa da vida, assim como a celebração diária da vida, foram marcas de ensinamentos que imortalizaram sua história que vão muito além dos seus livros publicados.

Nos dias atuais, muito vale a lembrança da história desse homem. Os ensinamentos de vida e com formulações sobre a humanidade, a política e sociedade civil fazem eco na prática de sua existência. O Observatório de Favelas conclama todas as pessoas a buscarem esse alimento plantado por Betinho para construir um novo mundo, conquistar a democracia em todos os seus aspectos, superar os limites do autoritarismo, conquistar a convivência, com direito à diferença e superação das desigualdades e construir uma cidade de direitos.

Mergulhado na pedagogia da potência da periferia, o Observatório de Favelas lembra a história de Betinho e dos alimentos por ele inventados, plantados, regados, pela vida digna em todas as dimensões humanas. Betinho: presente!