Por Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Créditos foto: Davi Marcos/Imagens do Povo

Rio de Janeiro – O Programa Imagens do Povo é um centro de documentação, pesquisa e formação de fotógrafos populares. Realizado pelo Observatório de Favelas desde 2004, o programa alia a técnica fotográfica às questões sociais, registrando o cotidiano das favelas através de uma percepção crítica, que leve em conta o respeito aos direitos humanos e à cultura local.

Em agosto deste ano, o IP completou 15 anos de existência. Em diálogo constante com as mudanças contemporâneas, o Programa vem se reconstruindo ao longo desse período, mas sem jamais perder o objetivo ou a ternura: democratizar o acesso à linguagem fotográfica. Confira abaixo a entrevista com o fotógrafo, Francisco Valdean. Ao lado do também fotógrafo, Bira Carvalho – ambos moradores da Maré e ex-alunos do Programa – coordena atualmente o Imagens do Povo.

Notícias & Análises – Ao longo dos últimos 15 anos, o Imagens do Povo construiu uma história na fotografia, sobretudo na fotografia popular. Muitas pessoas passaram pelo programa e, além de compartilharem conhecimento, deixaram um pouco de si. A partir dessa história escrita a tantas mãos, o que é o Imagens do Povo hoje?

Francisco Valdean – O Imagens do Povo é este projeto feito por “muitas mãos” é um pouco o resultado de empenhos pessoais como do Ripper (João Roberto Ripper), nosso fundador e primeiro coordenador. Depois tivemos a coordenação de Kita Pedroza, Joana Mazza e de Rovena Rosa. E hoje a minha e do Bira Carvalho.

Mas também é fruto dos muitos alunos que se formaram e depois se empenharam na construção do projeto. É um projeto muito especial. Tem também as contribuições de muita gente de vários dos segmentos do Observatório de Favelas, neste sentido as contribuições são incontáveis.
Só é possível contar a história do Imagens do Povo, quando levamos em conta este emaranhado de participações. É um projeto que disputa as narrativas e as imagens populares.

Notícias & Análises – Como destacado na pergunta anterior, a história do Imagens do Povo se confunde com a história de muita gente, entre estes a dos atuais coordenadores. Você e Bira foram alunos e hoje coordenam o programa. Aluno-professor-fotógrafo. Quais sãos os desafios desses lugares individualmente e em diálogo?

Francisco Valdean – Eu costumo dizer que o Imagens do Povo é importante para a minha formação. É no contexto do projeto que eu inicio ou acesso reflexões do campo da técnica, estética e da política das imagens das favelas do Rio de Janeiro, em especial a Maré, nossa terra natal.
São os conhecimentos da técnica, estética e político que levo para outros campos do meu fazer artísticos e educativos dentro e fora do Imagens do Povo. Costumo dizer também que nestes 15 anos de vivências no Imagens do Povo já experimentei diversos lugares da fotografia, seja como fotógrafo, como educador nos muitos processos formativos e também como curador.

Notícias & Análises – O objetivo do Imagens do Povo é democratizar o acesso à linguagem fotográfica, após esses 15 anos de trabalho, vocês acreditam ter alcançado esse objetivo? Em que medida essa democratização, altera a representação das favelas e periferias?

Francisco Valdean – O Imagens segue sendo um projeto importante para a questão da democratização da fotografia, mas entendemos que o momento tecnológico de 2019 é muito diferente do contexto com o qual iniciamos em 2004. Se nos inicias tínhamos certas lacunas quanto a produção das imagens, hoje, por conta da tecnologia, as imagens são produzidas de forma maciça. Mas acreditamos que o Imagens do Povo continua sendo relevante, inclusive como projeto com capacidade de formar novos atores no cenários da produção fotográfica.

Hoje os celulares com suas câmeras se tornaram verdadeiras avanços para os registros, o imagens segue sendo importante para a formação e reflexão de uma melhor qualificação desta massa de imagens registradas.

Notícias & Análises – As fotografias produzidas pelos fotógrafos do Imagens do Povo expressam bem o conceito de “Paradigma da Potência”, em contraponto ao “Paradigma da ausência”, reivindicado pelo Observatório de Favelas para fazer a disputa de narrativas ao longo desses 18 anos. Não por acaso, o Imagens do Povo é um projeto estruturante da instituição. No entanto, a instituição está em transição. Equipe e diretoria renovada e novos desafios, em diálogo com as mudanças na sociedade, se desenhando. Nesse cenário em mudanças, quais são os próximos passos do Imagens do Povo em seus dois eixos centrais: formação e difusão?

Francisco Valdean – O Imagens do Povo no momento tem realizado algumas ações, dentre elas, o curso “Lugar da Imagens” e “”Imagens do Povo Convida”, um encontro realizado uma vez por mês na Maré, onde queremos construir um espaço de debates sobre a fotografia contemporânea.

Temos também trabalhado com outros fotógrafos e coletivos de fotografia do Rio e fora do Rio, tal como no exemplo da exposição “Entre Maré e Alemão relatos do cotidiano”, uma exposição com fotógrafos (as) do Alemão e da Maré.

Da esquerda para direita, Francisco Valdean e Bira Carvalho, coordenadores do Imagens do Povo

Créditos foto: Francisco Valdean