Por Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro –
Se Diva Guimarães foi a musa improvável da XV edição da Festa Literária Internacional de Paraty. De Lázaro Ramos já se esperava muito. E ele não decepcionou. Do palco principal, passando pela Flipinha, pela Casa Folha ou na Livraria da Travessa, Lázaro foi o mais aclamado. Sua presença foi garantia de “casa cheia”. O autor de “Na Minha Pele”, livro lançado em 2017 pela editora Objetiva, demonstrou toda a sua versatilidade durante a Festa. E, como já é recorrente em suas aparições, não se furtou de abordar questões sobre as relações raciais no Brasil.

Na abertura da Flip, Lázaro foi Lima Barreto. Em uma performance emocionante, já não se sabia onde começava e terminava o personagem. Na pele do grande homenageado do evento, Lázaro falou sobre racismo, loucura, intelectualidade, alcoolismo, decepção e tantos outros temas inerentes à trajetória de Lima Barreto. A frieza com que a imprensa carioca recebia suas obras e a sua relação com a Academia Brasileira de Letras (ABL) também foram abordadas. Em dado momento ele sentencia. “É triste não ser branco!”

Já na pele de espectador, no terceiro dia, se uniu em lágrimas a uma plateia emocionada com o discurso da, carinhosamente apelidada, “D. Diva”. A senhora de 77 anos pegou o microfone durante a mesa “A pele que habito”, e, se dirigindo a Lázaro Ramos, narrou um episódio de racismo que sofreu quando tinha apenas 5 anos de idade. Ao fim do debate, o ator entregou seu livro autografado a professora.

Lázaro tem aproveitado os holofotes para abordar questões sobre as relações raciais no país. Na Flip não foi diferente. Dono de frases memoráveis como “Eu não crio meus filhos na demanda do racismo”, foi também como pai que denunciou o genocídio da juventude negra. Sua fala se alinha a ações da sociedade civil, como a campanha Instinto de Vida que pretende reduzir pela metade, em 10 anos, a violência letal na América Latina.

“Várias potências estão sendo assassinadas todos os dias”, denunciou. Ao ler o trecho que foi suprimido do seu livro, Lázaro reiterou o seu compromisso com a causa. “O mundo insiste em ser bárbaro. Sim, somos racistas! Sim, somos classistas! Sim, somos violentos! A crise é civilizatória”, afirmou. Ainda como escritor, experimentou, com “Na Minha Pele”, o prestígio de ser o autor do livro mais vendido da 15° Festa Literária Internacional de Paraty.