Por João Felipe Pereira Brito* (joao@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Segundo o urbanista e pesquisador Kevin Lynch, as vias de uma cidade são um dos cinco elementos fundamentais para percebê-la – os outros quatro são os bairros, os marcos, os pontos nodais e os limites. Para a formação da imagem urbana, diz Lynch, as vias são “elementos predominantes” pelos quais “as pessoas observam a cidade à medida que nela se deslocam e os outros elementos organizam-se e relacionam-se ao longo dessas vias”. Poetizando este argumento, pode-se trazer Fernando Pessoa: somos do tamanho do que vemos. E, nas cidades, se “nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar”, tornamo-nos pobres, “porque nossa única riqueza é ver”.

Não há bairro do Rio tão exposto quanto a Maré. Tampouco há outro bairro que exponha tanto a cidade quanto este. Complexo de conjuntos habitacionais, loteamentos, favelas e fábricas reinventadas, a Maré tem ao redor de si três grandes vias expressas: a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela. Por estas, a cidade percebe a Maré. E percebe-se na Maré. Talvez por isso, algum míope enfiou placas de acrílico nas muretas das linhas Vermelha e Amarela: “a Maré é um Rio de Janeiro explícito demais para os olhos de quem chega com pressa, para quem chega desavisado”, deve ter ele pensado. Tentaram fazer da Maré um soslaio, logo ela que é sobressalente. Só lhe trouxeram mais olhares curiosos, como se os tapumes, muros e matagais não lhe escondessem coisa alguma, mas a fizessem ainda mais insinuante.

Nem só de fluxo viverá a urbe, mas de toda parada que o fim da tarde trouxer. Em dia de chuva, em tempo de obras, em sextas e feriados, a cidade se concentra ali entre as passarelas sete e dez. O que era deslocamento se transforma, diante da Maré, em percepção profunda. O que era distante vira vitrine. O que era confuso, nitidez. Os percursos ordinários encontram na altura da Maré uma cidade vívida, aberta a comparações, contradições, visitações. No ponto do supermercado Vianense ou no da Escola Bahia, a Maré é referência de encontros, chegadas e partidas, biscoitos e guaravitas. Na passarela caracol ela é forró e piscina, é baldeação pra Bonsucesso, pra faculdade, pra Ilha.

Dos elevados que lhe atravessam, produzindo baixios e esconderijos, a Maré reage em economia criativa: lava-jato, guarda-carros, desportistas, dançarinos, musicistas, grafiteiros, moradias. Uma cena de crack, como na TransBrasil que se inicia. O comércio do ilícito, como se um mercado regulado fosse ironia. É tanto vai-e-vem sobre a favela, pela favela, diante dela, que parece mentira que ainda tentem segregá-la com tanques, barricadas e tiroteios. A Maré é a cidade que avança por um pedaço de terra outrora de margem e manguezal, e agora de vidas pretas e nordestinas que importam, num território central. A Maré se move, e como se sabe, sob efeito da lua. Quando cheia, transborda nas pistas. Minguante, demanda direitos, afirmando cidadania.

Quem vive à beira da estrada costuma pensar a cidade como passagem. A cidade como trânsito. Avenida como cidade. As fachadas e rostos da Maré preenchem milhares de olhares que transitam por aí todo santo dia. É a cidade se enxergando, se expandindo, em velocidades incertas. Passa tudo naquelas janelas e para-brisas; passa tudo na cabeça de quem deixa a favela pra ganhar a vida. Só o que não passa é o desejo de urbe – e um ônibus vazio quando a gente mais precisa.

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Para saber:

“A Imagem da Cidade”, de Kevin Lynch.
“O Guardador de Rebanhos (VII – Da Minha Aldeia)”, de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa).

*João Felipe Pereira Brito é carioca e nasceu e cresceu em Bangu, periferia oeste do Rio de Janeiro. É pesquisador e atua no eixo “Direito à vida e Segurança Pública” do Observatório de Favelas. Bacharel em ciências sociais pela UFRJ, fez mestrado e doutorado em sociologia e antropologia pelo PPGSA-UFRJ e extensão em planejamento e gestão de políticas socioambientais pela PUC-Rio.