Por Raika Julie Moisés (raika@observatoriodefavelas.org.br)

Nos anos 2000, um grupo de aproximadamente 300 moradores de favelas e outros espaços populares do Rio de Janeiro, pautados por uma série de ações que marcavam (à época) os sete anos da chacina de Vigário Geral, foram em comboio ao Shopping Rio Sul, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com intuito de relembrar as vítimas da tragédia e se oporem a sociedade do consumo. O ato teve repercussão nacional, lojistas e frequentadores do shopping entraram em pânico e os telejornais esperavam uma onda de saques e confusão.

“A polícia nos esperou na porta de cassetete na mão e os lojistas ficaram apavorados, foram fechando as portas com medo do que iríamos fazer. Nossa proposta era apenas visitar o shopping para sermos menos invisíveis. Aparecemos na imprensa, nos jornais, juntamente com a cara de nojo de lojistas e outras pessoas que estavam ali”, relata Elizabeth Silva, uma das manifestantes que esteva presente no ato e também participou do curta-metragem Hiato.

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Cena do filme Hiato de Vladimir Seixas

Lançado em 2008, o documentário mostra o percurso dos manifestantes até o shopping e as reações de quem lá estava e se deparou com a comitiva. “Esse tipo de intervenção, se assim podemos chamar, pensada e realizada sem violência, por pessoas pobres e oprimidas, era uma novidade. Embora, a discriminação e o preconceito não fosse nenhuma novidade para a maioria dos manifestantes, para quem estava no shopping a trabalho ou passeio o ato trouxe a tona uma série de questões que passam pelo consumo, racismo e a rejeição a diferença. Sendo que todas estas questões são discretas, silenciosas, mas não imperceptíveis”, comenta o diretor do documentário, Vladimir Seixas.

Seixas acredita que a escolha do shopping, para além do forte caráter político pensado para as ações realizadas na época, foi a forma encontrada para evidenciar a segregação e o preconceito. “Naquele momento foram realizadas diversas ações em memória a Chacina, porém nenhuma teve tanto impacto. Acredito que a maioria aconteceu nos locais destinados para estas pessoas se colocarem publicamente: as praças, vias públicas e plenárias. Ir até o shopping foi um caminho irreverente e fundamental de denúncia e até mesmo na estratégia de mídia, de repercussão. O estar ali foi a grande performance por excelência e, diante das fatos e também da discriminação, eles tiveram que ser recebidos, ocupando o  mesmo espaço que todo mundo”, completa.

Passados treze anos, a história se repete: um grupo de jovens, em sua maioria negros, moradores da periferia de São Paulo, marcam um encontro – via Facebook – em um shopping center da cidade. O resultado também é bem parecido com o ato realizado nos anos 2000: tensão, presença ostensiva de seguranças, lojas fechando as portas e a sensação de que o hiato, que supostamente seria minimizado com o passar dos anos, somado ao aumento do poder de consumo dos pobres, está cada dia maior. “Esses jovens não se contentam apenas em consumir, eles vem ultrapassando barreiras simbólicas históricas, anteriores à passagem pelo Rio Sul, não cabem nos moldes que pensaram para eles. No ato do Rio-Sul, foram usados vários argumentos para justificar a rejeição a aquelas pessoas, mas nunca assumiu-se que era preconceito. Desta vez não, rolezinhos não são novidades. Jovens – ricos e pobres – sempre se encontraram em grupos, porém os jovens pobres tinham locais pré-determinados para que acontecessem estes encontros. Não havia o risco da proximidade, e para esta classe que pensou um lugar para o pobre, é inadmissível ver essa periferia negra, jovem e com um estilo próprio ocupando sem receios os shoppings, as universidades, os centros culturais, entre outros locais que sempre foram pensados e ocupados por uma juventude branca de classe média e elite”, analisa a professora e pesquisadora Ivana Bentes.

No Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Shoppings Centers, existem 495 ‘templos do consumo’, sendo que 16,6 milhões de brasileiros, entre 16 e 24 anos, frequentam um destes shoppings, pelo menos três vezes ao mês. Desta forma, muitos shoppings substituem espaços e equipamentos de lazer, cultura e interação social. “Quando os membros do shopping optam por fechar as portas para um determinado público, tendo conhecimento sobre as características deste público, eles não só reafirmam o racismo, como diferenciam inclusão social e consumo. Estes jovens buscam no consumo a existência que lhes negaram enquanto cidadãos”, ressalta Ivana.

Segundo pesquisa realizada pelo Data Popular, metade dos jovens de classe A e B afirmam preferir frequentar locais com pessoas do mesmo nível social. Para 17% deles, os estabelecimentos deveriam ter elevadores separados, e metade defende a criação de produtos na versão ‘para ricos e para pobres’. “Diferente do que ocorre nos Estados Unidos, onde a classe média negra é reconhecida há décadas como consumidora, no Brasil a elite prefere ignorar este fato para perpetuar antigos preconceitos e estigmas”, afirma Ivana.

Redes sociais: combustível para um rolezinho?

Considerando que “uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas”. Neste caso, entende-se o comum partilhado como os espaços virtuais onde se combinam os rolezinhos até a porta dos shoppings. Da porta para dentro, encontram-se as partes exclusivas destinadas aos pré-selecionados através de comportamentos, posturas e uma estética determinante no que diz respeito ao que se pode ou não fazer. E isto, assim como os antecessores ao que agora é chamado de rolezinho, não é de hoje.

Cadu Barcellos, cineasta e morador da Maré, conta que este tipo de encontro de jovens acontece há tempos, mas só agora – após romper as barreiras das partes exclusivas é que ganhou esta repercussão. “Na Baixada Fluminense, estes encontros de jovens, negros e moradores de espaços populares, sempre aconteceu, mesmo antes das redes sociais. Depois surgiram os Orkontros, que eram combinados pelo Orkut e reunia todo tipo de jovem, de diferentes tribos. A novidade está na forma e onde realizamos estes encontros e na força de divulgação e alcance que temos nas redes sociais. E também nas revelações gratuitas que o rolezinho evidencia. Enquanto discute-se a legalidade e o peso político do rolezinho, também ameniza a mensagem que ele trouxe: vivemos em um país racista e preconceituoso”. 1470076_581196411974625_189368503_n

Cadu que é um dos organizadores do Rolezim no Fashion Mall, marcado para este domingo, explica que o ato é um protesto pacífico contra as ações preconceituosas que cercam os rolezinhos, onde todos são bem-vindos. “Muitas coisas que envolvem o universo do jovem, morador de favelas já vem cercadas de preconceito. Se o jovem for negro então, o estigma é ainda maior, todos os gestos são ainda mais observados e precisam de ainda mais explicação ou justificativa. O cabelo crespo, blackpower é uma prova disso. Quase sempre nos perguntam o porquê deste cabelo. Por isso, é tão importante que a gente se afirme nestes rolês e que nossas propostas sejam ouvidas. O preconceito não pode sair vitorioso e nos calar”, destaca.

Ir ao shopping nem sempre está relacionado ao consumo, mas sim a inclusão neste ambiente dito seguro, limpo, onde uma minoria usufrui integralmente deste privilégio e a maioria mal pode adentrá-lo sem ser observado. Diante de todo o reboliço que se criou em torno do rolezinho, resta saber se ele – passado um tempo – será percebido como uma costura que concentre esforços na diminuição da fenda entre a juventude branca de elite versus juventude negra de periferia, permitindo aproximações e diálogos em espaços comuns, sem partes exclusivas ou se irá alimentar o hiato perpétuo que define o lugar de cada um, que permite olhares desconfortáveis para morenos e negros, independente deles serem bem parecidos com que os olha. Pelo sim, pelo não, enquanto isso dê um rolê!

* Segundo os organizadores do evento, o Facebook recebeu uma notificação judicial, movida pelo as advogados do shopping, alegando que o evento incitava ao vandalismo. O agravante do processo exigia o número de IPs e a localização, além de todas as informações das contas de facebook dos organizadores do ação. Ainda segundo eles, no dia marcado (domingo, dia 2 de fevereiro de 2014), seguranças e advogados estavam na entrada do shopping com fotos dos organizadores, aguardando-os para que fossem notificados logo na chegada para atuarem quem aparecesse.  Com o conhecimento do que poderia acontecer com os organizadores, tal como o pagamento de multa e outras sanções, o evento não foi realizado. O processo segue em andamento.