Rio de Janeiro – No cenário atual, vemos o mundo dominado pela onipotente intolerância contra diversas populações, o recorrente autoritarismo de muitos Estados e o crescente desprezo à democracia. Mesmo assim, pudemos comemorar, nos últimos tempos, medidas como a descriminalização do aborto na Irlanda e na Argentina e a legalização da maconha no Canadá. São pequenas vitórias que nos permitem respirar e recuperar energias para enfrentar atos dominados pela barbárie social, política e econômica.

Nesse quadro, o Brasil foi dominado por forças políticas que representam essa desumanização de forma escancarada, sem pudor ou compromisso com qualquer perspectiva republicana ou democrática. E o território onde esse domínio do desprezo em relação à vida em seu sentido pleno se revela com mais intensidade é o Rio de Janeiro, onde temos um fantoche no cargo de governador que traduz a expressão maior da falência ética, política e econômica do estado.

Nos tornamos uma território sem lei, sem regras, onde a força bruta e irracional nos retira toda a esperança. Onde, em nome da vingança pela morte de um policial, servidores do Estado se tornam assassinos que se dirigem com todo o seu ódio e preconceito contra o povo das favelas e periferias. Essas pessoas que deveriam cuidar da nossa proteção, que são o braço armado do Estado para nos proteger das violências, dos crimes e criminosos, se tornam mais bárbaros que quaisquer outros.

Os disparos de um helicóptero contra uma área residencial, expressão maior da violência ocorrida nesta quarta-feira, 20/06/18, na Maré, lembra cenas da guerra contra o Vietnã, vergonhosamente perdida pelos EUA. Uma guerra insana, arrogante, monstruosa, que revelou toda a prepotência e fragilidade do país que ainda se arroga baluarte da “democracia ocidental”. Não é diferente aqui nessa ação bélica, tão imoral e absurda quanto, contra a população das favelas cariocas promovida, comandada e definida por forças de segurança do Estado.

Nesse momento, depois de contarmos os nossos mortos, adolescentes e jovens que mal têm direito a algum tipo de identidade, só temos lágrimas, dores, sofrimento e luto indignado para trazer nesse texto. Os mesmos sentimentos que tínhamos há 100 dias, quando assassinaram Marielle e Anderson. Vamos reagir, vamos recuperar a energia, vamos continuar lutando pela radicalização da democracia, pela humanidade plena, para superar ódios e as violências.

Mas, por favor, nesse momento, nos deem direito ao choro, à tristeza, ao sentimento de perda de sentido da vida, à incapacidade de suportar tanta violência; nós também, militantes empenhados na construção de uma sociedade livre e democrática, temos esse direito. Nos deem algum tempo, queremos respirar, queremos deixar as lágrimas virem, queremos sentir que ainda há sentido em continuar acreditando que esse Rio de janeiro, esse país, essa humanidade ainda possui chances de sair da barbárie ao conquistar direitos plenos à vida.

Direção do Observatório de Favelas