Por Elena Wesley (elena@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Da Zona Oeste à Zona Norte, da Baixada ao Leste Fluminense, os territórios populares se conectam por conta de diversas semelhanças. Tais fatores ganham visibilidade por meio da estética desde março no Galpão Bela Maré, com a exposição “Metrópole Cultural – Retratos das Periferias do Rio de Janeiro”. Na mostra, 14 artistas visuais deram cor e forma a desafios e invenções comuns a quem mora no Rio Metropolitano.

Exposição reúne diferentes linguagens artísticas (Foto: Galpão Bela Maré)

Exposição reúne diferentes linguagens artísticas (Foto: Galpão Bela Maré)

O escultor Davi Marcos é um deles. Para abordar a exclusão social, o mareense utilizou pedaços de acrílico e outros resíduos sólidos na elaboração de “Golen – Invisível”. Inspirada na cultura judaica, a obra reproduz o monstro que se volta contra seu criador.

“Quando mal descartado, o lixo se volta contra a população. Da mesma forma, o próprio ser humano descarta seu semelhante, menospreza aquele que não se enquadra nos padrões. Estou muito próximo aos usuários de crack, por exemplo, e percebo o quanto a sociedade os trata como se fossem invisíveis. Trouxe tudo isso em Golen, com a proposta de provocar o exercício de se ver no outro”, explica o artista.

Resistência política e racismo também estão entre os temas abordados na Metrópole Transcultural. Na inauguração da mostra, o paraense Rafael Bqueer questionou a objetificação dos corpos negros e a ausência de narrativas afro-brasileiras no imaginário infantil dos anos 1990. Já Ronald Duarte, que assina a curadoria da exposição, surpreendeu os pedestres que passavam pelas passarelas 09 e 10 da Avenida Brasil, com a manada de cabeças de boi. Sua criação “Boiada de Ouro” reflete sobre como a sociedade condiciona a maneira de pensar e agir, sem permitir escapes, como o boi durante a boiada.

Performance “Super Zentai”, de Rafael Bqueer (Foto: Marcia Farias)

Performance “Super Zentai”, de Rafael Bqueer (Foto: Marcia Farias)

Em menos de um mês, mais de mil pessoas conferiram a Metrópole Transcultural. Para além das obras expostas, a mostra está em constante movimento e interação a partir de atividades com visitantes de todas as idades. A equipe do Educativo despertou nas crianças o interesse pela arte em uma oficina com garrafas PET.

Os jovens também movimentaram o Galpão durante os sábados nos encontros da Oficina Imagens da Metrópole. Na formação de 20h, a turma composta por 16 fotógrafos e fotógrafas pensou e produziu novas formas de representação do Rio Metropolitano, que possam fugir dos estigmas e evidenciar as potências das favelas e periferias e seus moradores.

“O fotógrafo de origem popular tem a capacidade de contrapor a voz única da mídia sobre a favela e torná-la múltipla porque é sensível a quem ele está retratando. O favelado não é número; ele tem nome e sobrenome. Por ser continuada, essa relação permite uma representação afetiva, que considere a história, respeite os códigos locais e, por isso, evidencia menos o estereótipo e mais a virtude”, avalia o coordenador do Imagens do Povo, Bira Carvalho, que ministrou a oficina junto a Francisco Valdean.

O fotógrafo João Roberto Ripper, fundador do Imagens do Povo, esteve em um dos encontros da oficina

O fotógrafo João Roberto Ripper, fundador do Imagens do Povo, esteve em um dos encontros da oficina

Para Isabela Souza, diretora do eixo Arte e Território, a mostra concretiza um desejo do Observatório de Favelas em reafirmar o Galpão Bela Maré como um espaço de promoção e incentivo à arte em um território marginalizado, cujos sujeitos são estigmatizados quanto ao acesso à cultura.

“Há um ineditismo em reunir os trabalhos dos artistas periféricos, porque geralmente eles precisam expor em galerias das áreas centrais ou da Zona Sul. Trazer artistas já consolidados afirma a favela como local possível para a arte contemporânea. Os trabalhos expostos trazem questões revelantes que dialogam com o território”, enfatiza Isabela.

Em menos de um mês, Galpão Bela Maré ultrapassou mil visitantes (Foto: Marcia Farias)

Em menos de um mês, Galpão Bela Maré ultrapassou mil visitantes (Foto: Marcia Farias)

Graças ao apoio de um ‘timaço’ de parceiros – Casa Fluminense, Rede Globo, Sesi/Firjan e Instituto Maria e João Aleixo – a conclusão da mostra foi um seminário que mobilizou agentes culturais da metrópole fluminense, a fim de potencializar ações já existentes e propor uma agenda coletiva que dialogue com tantas trajetórias.

Mesa de abertura do Seminário questiona mesa

Mesa de abertura do Seminário questiona “Qual a política cultural que o Rio metropolitano precisa?”

O seminário foi realizado no último sábado (27) no Bela Maré e contou com a participação de empresas, órgãos públicos, universidades e organizações da sociedade civil para a ampliação de redes e articulação de parcerias. Produtores de diferentes áreas como cinema, teatro, dança, música, literatura, entre outros tiveram um espaço de troca de experiências.