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Jailson de Souza e Silva durante lançamento do livro “Bruxas e Bruxos da Cidade” – Crédito: Bruno Thomassin

Por Jailson de Souza e Silva*

“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”

A frase em epígrafe é uma das mais famosas do Barão de Itararé, grande humorista brasileiro. Eu a uso em consideração à falta de panelaços dos defensores do Impeachment em razão da queda de Eduardo Cunha. Afinal, a alegação fundamental para a forte intolerância com o PT se deveria ao fato dele ter provocado o que foi batizado de “maior escândalo de corrupção da história do país”. Considerando a folha corrida do ex-presidente da Câmara, os críticos do PT deveriam ter ido às ruas com o mesmo entusiasmo. Por que não o fizeram?

São bem conhecidos os erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores em suas sucessivas gestões. E eles são imperdoáveis. O maior partido de esquerda da história brasileira e um dos principais do mundo perdeu grande oportunidade histórica de reinventar a política e, por extensão, a sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, sabemos que o ódio de muitos ao PT – e não se pode colocar todos os defensores do Impeachment nessa condição – se deve muito mais aos seus acertos do que aos seus erros: a inserção de milhões de pobres no mercado de trabalho, de consumo e na universidade; o enfrentamento da questão racial, mesmo de forma limitada; a melhoria do salário mínimo; a maior presença do Estado na economia etc

Logo, em que pese a lamentável intolerância que domina a postura de muitos que não sabem conviver com a diferença, a presente divisão da sociedade brasileira tem um ponto positivo: ela deriva do fato de ter sido colocado em questão, mesmo de forma restrita, um conjunto de mecanismos que permitia a reprodução continuada das desigualdades nacionais e locais. A divisão presente só será superada se for construído um novo projeto hegemônico em termos eleitorais, políticos e imaginários. Que sejam os grupos democráticos a fazê-lo; isso exige, todavia, a reinvenção do projeto de esquerda no Brasil.

A primeira característica de um novo projeto de esquerda começa pelo que foi a principal fraqueza do PT em seu desenvolvimento: a afirmação de uma perspectiva republicana em que a ética é parte fundamental do processo de atuação na gestão política, nas atividades empresariais e na sociedade civil. Essa perspectiva é a base para a construção das relações entre os entes sociais no espaço público e deve ser construído como um atributo inerente ao conjunto das práticas sociais.

O segundo elemento central na reinvenção da esquerda é o reconhecimento dos direitos fundamentais do indivíduo. O que implica limitar o poder do Estado controlar os corpos e as vontades dos cidadãos em questões como consumo de drogas, direito ao aborto, casamento e adoção por casais do mesmo sexo, assim como criar políticas que desestimulem práticas racistas, machistas, sexistas, homofóbicas etc.

O terceiro elemento é o mais expressivo da tradição revolucionária: a luta pela igualdade, o que significa, no contemporâneo, a definição de uma agenda básica de garantia de direitos tendo como norte a noção de igualdade da dignidade humana. Sabendo-se que essa condição é histórica e vai modificando de acordo com as disputas sociais, econômicas, políticas e culturais. Nesse campo, os direitos coletivos e individuais não podem ser dicotomizados, mas devem ser trabalhados de forma integrada, sempre que possível.

Por fim, o quarto elemento fundante de um novo projeto de esquerda para o Brasil tem como base o direito à convivência. O termo busca dar conta da necessidade de se respeitar o direito do outro a viver, de afirmar sua condição na vida pública, de estimular formas de sociabilidade que contribuam para superar as formas de hiperindividualização da vida urbana, especialmente, que gera insegurança, medo de conviver e hostilidade com o outro, o diferente. Essa é uma razão central para que as mortes no Brasil estejam chegando a 60.000 pessoas, em geral jovens, negros e pobres das periferias e favelas.

Um projeto reinventado de esquerda se sustenta na utopia de um mundo social onde as instituições existem para servir os sujeitos e não para transformarem estes em seus objetos. Um mundo social no qual o compromisso consigo mesmo seja marcado pelo sentimento de pertencimento e engajamento em instituições que afirmem o bem comum. Um mundo social no qual se supere o capitalismo por formas sustentáveis de afirmação da vida humana e de suas potencialidades. Esse é um projeto de esquerda que estamos sendo desafiados a construir nesse atual momento brasileiro e mundial. E ele começa já.

*Jailson de Souza e Silva é escritor e fundador do Observatório de Favelas