Por Eduardo Alves*

Rio de Janeiro – O mundo vive um período histórico repleto de contradições e o fardo pesa como nunca em uma intolerância pigmentada na sociedade e em todos os ambientes de poder. A exploração econômica segue seu rumo variando, com tonalidades diversas, poderes em escala global. As múltiplas formas de intolerância chegam esquentando as desigualdades com formatos que esquentam sentidos como se houvesse novos esporões de poder. Há também várias forças e símbolos que surgem como novas frestas para avanços de democracia e liberdade. O quanto o novo e o velho ganham e perdem identidade, misturam-se e se confundem nesse processo, é algo assustador. Uma monstrualização constante se faz presente e um véu sombrio cai, escondendo a cabeça da medusa.

No Brasil isso aparece com vernizes que cheiram enxofre e podre. São jovens gritando por prisões, ressoando brados moralistas do passado, reivindicando o novo do liberalismo do século XVII, com plásticas aparentemente contemporâneas, que ciscam pelas interdições de todas as diferenças. Grupos que deixam aparecer as pessoas com idades da juventude, aqueles que nem chegaram aos 30 anos de idade, em discursos que zombam da diversidade e exigem fechamento de museus. No arranjo de letras moralistas, lançando mão de todos os recursos, restringindo a fé em um Deus déspota e autoritário e o humano ao moralismo tosco das denúncias escrachantes ou do autoritarismo cerceante.

A mistura, a velocidade e a facilidade de formar ambientes conservadores, que rasgam a política com o moralismo de uma ideologia de onde sobressai um poder de homem, branco, dominante e capitalista, aparecem como assustadoras. Neste contexto, negros tornam-se os perigosos, enchem prisões e são assassinados com a violência letal. Lésbicas, gays e trans são tratados com o desrespeito máximo que ultrapassa a desumanização do capital. Índios, dizimados no passado, hoje sem direito de recompor o pouco da terra e a multiplicidade de um povo existente por uma diáspora cruel. Mulheres, e com destaque as mulheres negras, para além das múltiplas jornadas e do desrespeito forçado pelo machismo, pelo sexismo, pelas múltiplas interdições, sofrendo o fardo de uma força que atinge do corpo à alma sem limites. Um tribunal constante da farsa anacrônica do moderno, que já é velho, decrépito e distorcido em ideologias da purificação inexistente.

Mistura-se as possibilidades de análise. Nazismo, fascismo, autoritarismos múltiplos de ditaduras cruéis, desenham bordas com traços que parecem atuais, mas com os pinceis impregnados do autoritarismo dominante. Os sujeitos da atualidade no tempo atual, os moradores das periferias, aqueles que são a marca de territórios potentes de criações múltiplas, da sobrevivência à convivência, são as principais vítimas. Misturam ali a força do preconceito com a avassaladora consequência que não garante a vida, muito menos a igualdade.

O peso da exploração econômica, que coloca o lucro acima da vida em todas as dimensões, encontra aliados perversos com a violência letal, com as guerras fabricadas para o lucro com drogas e armamentos, com as prisões lotadas para uma higienização humana na cidade. As panelas batem, os sinos silenciam e lamentavelmente aparecem os sons mais retrógados. As desigualdades ficam escondidas em uma imensa nuvem aterrorizante, com pessoas das várias classes, que vivem múltiplos problemas sociais, das várias raças e religiões, afirmando por aí que o principal problema do país é a corrupção. Momentos assim recolocam o passado com força extrema em tempos atuais, um fardo violento, que chega nas ações mais indignas como a destruição dos terreiros das religiões de origem ou influências africanas.

Nessa situação, por vezes, parece se viver um jogo de quem prende mais. Os conservadores que posam de moderninhos, outras aparentes estéticas modernas que transformam a esquerda em desejosas cadeias para os outros. Nesse caso, o outro, a outra, as pessoas, seguem condenadas por um peso, que às vezes se sombreia de avassalador: todos os lados disputando quem ganha nas prisões, nas interdições, nas narrativas de ideologias e propagandas de factoides. Para além do anacronismo da incapacidade da liberdade artística, padecem fronteiras de esquerda e direita, tão importantes em outros tempos, que o fardo do tempo atual dissolve como um ácido na disputa das mãos.

Esse é momento de potencializar a potência. Um momento de se identificar que a esquerda precisa ser muito mais que um boton partidário. Um período em que o contemporâneo tem que se firmar na assertividade da liberdade. Um tempo em que a democracia deve piscar com participação e desfolhar, ao máximo, o Estado. Está se vivendo a hora em que a exploração econômica, que força a miséria do corpo, deve ser combatida com todas as outras misérias do machismo, do racismo, do sexismo e do possessismo. Mais que disputar os olhares, as versões, as propagandas e discursos, precisa-se disputar a vida com dignidade. São as pessoas que encarnam o sujeito no contemporâneo as que possuem o elmo para essa ação.

Trata-se sim de um desafio de organização, aprendizagem e formulação teórica do tempo histórico. Movimentos que devem se enlaçar com a formação dos sujeitos na esteira da potência das periferias. Momento em que coletivamente, negras e negros, nordestinas e nordestinos, índias e índios, personagens da origem de suas vidas ao corpo atual existente, precisam levantar o elmo e pigmentar o poder. Uma grande aliança dirigida pelos sujeitos na atualidade com força de enfrentar e superar a ordem estabelecida. Personagens na cena que possuem condições de envolver vários personagens que vivem as várias dimensões dos antagonismos da supremacia do lucro em suas versões atuais, com o fardo da cultura do autoritarismo e do controle institucional.

Esse momento clama por mais museus, mais exposições artísticas, mais manifestações de liberdade, mais criações humanas. A potencialização humana estrutural e espiritual precisa pigmentar as cabeças, os corpos, as almas, as ações e as novas culturas revolucionárias no contemporâneo. Não há novidade com fardos históricos anacrônicos interditando a potência inventiva dos dias atuais, muito menos com denúncias em poços do lodo decrépito de um passado que não pode pesar para além da memória. E nessa hora, faz-se necessária uma grande unidade, que unifique a superação das desigualdades, com as estéticas da mais profunda liberdade em nome da convivência. Com uma mobilidade plena, articulando o movimento dos corpos e simbolismo das energias para transformações na qual a dignidade humana, em todos os seus aspectos, assuma a centralidade na cidade.

Não é tempo de autoritarismos e escarros de violência. Vivemos hoje tempos que clamam pela convivência com as diferenças, pela superação de desigualdades e pela pavimentação da liberdade.

*Eduardo Alves é membro da executiva do Observatório de Favelas