Por Eduardo Alves*(edu@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – Os fenômenos, a todo momento, puxam os tapetes do pensamento, nas reflexões e nas formulações. Principalmente na política, quando é colocada sempre a questão de “o que fazer” frente ao que se é pensado. Quando Gramsci formulou, nos conhecidos Cadernos do Cárcere, que “Todos os homens são intelectuais […]; mas nem todos os homens exercem na sociedade o papel de intelectual” já indicava que o exercício fenomênico de tal papel, inerente a todas as pessoas, não aparecia na manutenção das condições de vida. Assim, um dos grandes objetivos que nos é colocado é a superação dos fenômenos apresentados pela política.

Tal processo de superação nos coloca o desafio de lentes teórico-conceituais, por meio de análises cada vez mais profundas a respeito de quais são os verdadeiros desafios e de como a gira da unificação pode ser a alavanca para a superação das desigualdades. O desafio da sociedade na qual vivemos, na qual o valor é construído pelos que precisam vender seus corpos ao trabalho e estão progressivamente distantes de tudo o que produzem, é enfrentar as desigualdades reconhecendo a sua verdadeira gênese e seus constitutivos grilhões.

No artigo de Jailson de Souza e Silva para o JB, publicado no dia 5 de abril e disponível no site do Observatório de Favelas. (VEJA AQUI) ele afirmou:

“O movimento conservador no âmbito do Estado é fortalecido na sociedade civil por grupos geralmente coordenados por fundamentalistas religiosos e ultraliberais no campo econômico; eles estabelecem uma guerra no campo do comportamento – tendo como foco o controle dos corpos, da liberdade de expressão e artística – a fim de avançarem no processo eleitoral e imprensarem os grupos sociais progressistas que defendem os direitos individuais. No caso do Brasil, as recentes ações de censura no campo das artes e da educação – Escola sem partido – são expressões concretas dessas estratégias. Elas objetivam, além disso, tirar o foco da população sobre a questão econômica, onde as oligarquias realizam um conjunto de medidas que tem contribuído para precarizar a vida da maior parte da população, retirar direitos históricos e favorecer o Mercado, gerando o aumento da pobreza e da desigualdade”.

Há um movimento conservador hegemônico no Estado. Há, na sociedade civil, vários setores que escoam o conservadorismo pigmentando a vida das pessoas. Mas, como bem coloca o artigo, tais fenômenos, pelo modo como aparecem às consciências e dada a sua natureza superestrutural, tiram as lentes do movimento econômico operado pelas oligarquias que seguem impondo e organizando as desigualdades para ampliar o progressivo lucro. A despeito da vida, da dignidade humana, da potência criativa, desenvolve-se uma espiral de desigualdades que alcança todas as dimensões, limitando, interditando e bloqueando o desenvolvimento da potência humana. O maior e mais profundo impacto desse processo ocorre nos setores populares e aparece, como fenômeno candente, nas periferias.

A reprodução ampliada do lucro, neste modelo mundializado de sociedade em que vivemos, ao transformar a composição técnica da produção material, produz o movimento de centralização e de concentração dos lucros em escala mundial. Isso faz com que o enlaçamento das corporações industriais e bancárias formem oligarquias financeiras que passam a dominar o mundo econômico e, através de seu poder, organizar e comandar Estados que expressam seus interesses. Na medida em que o lucro se amplia, as bases técnicas da produção se transformam e produzem fases cíclicas de aceleração e desaceleração da economia, movimento este que acarreta consequências significativas para as condições dos trabalhadores.

Face a necessidade de ampliação de mercados e de domínios territoriais para alimentar a composição de sua base econômica na garantia da reprodução ampliada do lucro, as oligarquias disputam mundialmente os espaços de seu poder, constituindo-se em um verdadeiro império. Neste cenário de predomínio oligárquico e de partilha territorial do mundo, a política é transformada em ideologia: seu caráter fenomênico de expressão dos interesses econômicos se converte em seu contrário e se apresenta como motor das desigualdades. A fenomenologia, a partir da qual os setores econômicos e de poder apresentam-se mascarados de conotação ideológica, produz o ambiente da guerra no espaço da política, mascarando sua gênese e os verdadeiros obstáculos para a superação das condições impostas. Superar tal fenômeno e enfrentar a política no Estado – em todas as suas instituições – e nas organizações da sociedade civil indicam condições objetivas para alterar as bases programáticas fundamentais para enfrentar as desigualdades em todas as suas dimensões.

As oligarquias são os sujeitos que fazem aprofundar as contradições inerentes, colocando Estado e mercado ajoelhados aos seus serviços. Assim, todas as desigualdades existentes na superestrutura da sociedade demandam um rumo assertivo na direção dos direitos, do enfrentamento e da superação das desigualdades econômicas. Nesse processo, a convivência com as diferenças estéticas e culturais precisam de um impulso antagônico ao da guerra. Os conflitos, que podem ser insumos para o crescimento contínuo que brota no encontro da diversidade, são alimentos para a superação da ordem atual hegemônica.

Identificar a potência humana, as ações nas periferias dos setores populares mais preeminentes e atuar para ampliá-las e unificá-las é uma das mais preciosas ações nesse momento político. Os fenômenos falam muito, com muita força, organizando mais facilmente os sentidos. Por isso, é tarefa fundamental organizar o conhecimento e avançar em estudos coletivos, com a formação de organizações na sociedade civil que possuam força para atuar por uma unidade qualificada no vetor do estudo, de formulações teórico-políticas e de ações transformadoras no mundo.

É necessário conhecer para além dos fenômenos, olhar para além do alcance desse espelho d´água e enfrentar os reais obstáculos, para os quais está colocado o desafio do conhecimento como instrumento de superação das aparências fenomênicas e o desafio da formulação de uma terra político-teórica firme para uma ampla unidade popular nesse momento. Não há o que não possa ser conhecido. Não há o que não possa ser transformado.

Coloca-se o desafio de superar as desigualdades, como um grande mar de fortes ondas para construir uma sociedade na qual o Comum seja objeto de ampliação da potência humana criativa. Assim será possível desfolhar o Estado e alterar a vida, colocando-a sempre acima do lucro.

*Eduardo Alves é Diretor do Observatório de Favelas