Por Quitta Pinheiro (quitta@observatoriodefavelas.org.br) e Priscila Rodrigues (priscila@observatoriodefavelas.org.br)

Rio de Janeiro – O que é ser mulher negra no Brasil de hoje? O que é ser mulher trans no Brasil de hoje? O que é ser mulher periférica no Brasil de hoje? O que é ser mulher gorda no Brasil de hoje? O que é ser mulher lésbica no Brasil de hoje? Talita, Elis, Érika, Mariah e Ana Paula, a partir de seus lugares, respondem. Cinco mulheres com trajetórias diversas. Em comum, trazem estampados em seus corpos e discursos as experiências de viver no país que cerceia seus direitos, elimina seus pares e invisibiliza suas trajetórias. Mas, protagonistas de suas histórias, seguem reafirmando suas existências no mundo.

Talita Nascimento - Moradora da Penha Circular - Fotógrafa e cineasta

Talita Nascimento – Moradora da Penha Circular – Fotógrafa e cineasta

“Falo no lugar de uma mulher sapatona e vivente das zonas periféricas do Rio de Janeiro desde o nascimento. A partir desse lugar percebo os muros que já atravessaram minha existência, as opressões que vieram em diferentes camadas (desde a invisibilização até as violências verbais por conta da minha sexualidade). Sempre vi o processo do fazer artístico como algo elitista e feito para poucos e para quem tem toda condição financeira. A construção em me entender como artista demorou anos desde que comecei a fotografar e só percebi quando troquei com algumas mulheres também artistas que tiveram toda essa vivência em espaços periféricos onde o direito à subjetivação sempre nos foi negado. Ser mulher no Brasil hoje é ser obrigada a andar na corda bamba no meio do caos porque além de termos que lidar com toda projeção e violência patriarcal colocada pra cima da nossa existência, temos que lidar com a obrigação da síndrome de altas produções no mercado de trabalho. Onde o tempo inteiro temos que reforçar nossas vozes, provar nossa competência e produzir aceleradamente. Ser mulher é saber articular nossa subjetividade com nossa construção de mundo sem cair e ser pisoteada pela estrutura.”

Elis Pinto - Moradora de Duque de Caxias - Escritora e artista visual

Elis Pinto – Moradora de Duque de Caxias – Escritora e artista visual

“Ser mulher no Brasil já é ser considerada menos capaz de ser produtiva financeiramente do que um homem. Porém a sociedade faz questão de menorizar o tanto que contribuímos com a humanidade desde o nascimento de cada ser que sai de dentro de nossos ventres e que amamentamos, no meu caso amamentei meu filho até os 1 ano e 7 meses, pra que possam se alimentar de outras formas. Ser mulher negra em um país colonizado, eurocêntrico, patriarcal, é massacrante. É ter que se superar pra provar pra sua própria família que você pode ser uma artista, intelectual e superar as frases do tipo, você não é a mulher que escolhi pra ser mãe dos meus filhos, na casa da sua família. Ou pensarem que você é a faxineira por estar em um ambiente onde não esperam ver uma mulher negra. É fazer parte da estatística de 80% das mulheres pretas que sofre violência obstétrica no parto, na rede pública. No entanto pra mim é ser ter beleza, a força, as agilidades das minhas ancestrais que não conheci, mas que sinto no vento, nas florestas das matas, nas águas do mar e dos Rios. O amor que tenho pela vida e por estar nesse lugar em que estou agora é pra mim o sentimento mais verdadeiro e profundo que confirma que tudo que sou veio antes de mim e ser artista é agradecer e devolver o que me foi dado. E canto, pinto, escrevo e me declaro negra com orgulho. Adoro ser mulher negra.’

Érika Lemos - Moradora de Campo Grande - Educadora Social

Érika Lemos – Moradora de Campo Grande – Educadora Social

“Acredito fortemente, principalmente por ser criada por mulheres, que nunca foi fácil ser mulher no Brasil e ainda que coletivamente mulheres brasileiras tenham suas vidas rasuradas pela sociedade elitista, machista, sexista e branca, nossas vivências são também muito individualizadas. Do meu lugar de fala ser mulher é ser continuamente testada, invisibilizada e rasurada, ainda mais quando racializamos certas pautas como as posições de instrução, liderança e convívio. Da alfabetização à graduação tive um número reduzido de professoras – mulheres – e ainda mais reduzido de professoras negras – é sabido que é mais recorrente na educação básica do que no ensino superior e nesse lugar agradeço minha mãe, pedagoga negra, por ter me alfabetizado. Na prática da pesquisa já me vi sem saber o nome ou o artigo definido de gênero de autoras justamente por terem esses marcadores apagados. E nos ambientes de trabalho que trilhei, continuamente eu era o “fator cota” da instituição. Felizmente, sem denominar conceitos, sempre tive no meu convívio processos de aquilombamento: estar em conjunto de mulheres pretas. Tecendo redes. Bolando projetos de inserções das superestruturas. E é justamente por esse viés reafirmar ser mulher que tenho tecido minha vida: circulando pelos espaços demarcando social ser e estar mulher no mundo. As potências. As lutas. Os gozos. Por fim, trazendo com o meu corpo a pauta da educação integral, acredito que pratico a educação de gênero, a educação racial, a educação geracional nos cotidianos: no elevador, no ônibus, nos museus e centros culturais, nas salas de aula, nos bares e esquinas.”

Mariah Rafaela Silva - Moradora de Engenho da Rainha - Pesquisadora e ativista pelos Direitos Humanos

Mariah Rafaela Silva – Moradora de Engenho da Rainha – Pesquisadora e ativista pelos Direitos Humanos

“Hoje vivemos um desafio político, ético e estético na “produção de mulheridades” num dos países em que mais se mata mulheres cis e trans no mundo. Diante disso, ser mulher no Brasil hoje é lidar com constantes riscos (de estupro, de morte, de violência física e simbólica etc.), com a desigualdade salarial e a criminalização de sua “condição” de gênero. Entretanto, há uma potência quase orgânica, especialmente entre as mulheres negras e transexuais, que nos move e nos faz desejar uma vida imanente. Não se trata de resistência, mas sobretudo de uma potência do vivido e do experimentado frente aos paradigmas reacionários de poder que buscam dominar os nossos corpos, nossos gêneros e nossas sexualidades. Ser mulher no Brasil hoje nos coloca diante de desafios algumas vezes injustos e intransponíveis, mas coletivamente vamos compondo e desejando esse possível para muito além da matabilidade (literal ou não) de nossos corpos.”

Ana Paula Gualberto - Moradora de Irajá - Produtora Cultural

Ana Paula Gualberto – Moradora de Irajá – Produtora Cultural

“Atualmente é cada vez mais desafiador ser e se perceber mulher no mundo. na conjuntura sociopolítica atual, ter sua subjetividade respeitada é uma luta diária. as poucas conquistas recentes, como a Lei do Feminicídio e Maria da Penha, apesar de serem importantes ferramentas, não nos deixam seguras para exercermos nossas vontades. A sociedade se diz evoluída, mas a todo tempo nos julga pelo nosso modo de vestir ou de falar, e quer nos dizer onde temos que estar. Porém, mesmo com todas as dificuldades, é importante que estejamos cada vez mais articuladas e preparadas para reagir a toda e qualquer postura que tente nos impedir de ser quem queremos ser.”

O que é ser mulher no Brasil de hoje? É amar outra mulher? É tornar-se mulher? É ser mãe? É ser intelectual? É ser artista? É ser livre? A pergunta segue sem resposta. Ou, quem sabe, com inúmeras respostas. Múltiplas. Diversas. Assim como o grito que ecoava das multidões que ocuparam as ruas no último 8 de março. Ser mulher “é poder ser quem a gente quiser!”