Por: Eduardo Alves e Jorge Barbosa*

Apresentação da prosa

O mundo que predomina sobre todas e todos que necessitam viver da venda da sua força de trabalho apresenta um lugar para “o trabalhar” que necessita ser pensado e construído, em ideias, conceitos e ações que transformem a realidade. Precisa assim ser porque admitir os limites das possibilidades deve ser alimento para alargar, ampliar escalas e superar. No trabalho isso reside em grande potência, pois possui ligação direta e estreita com a manutenção da vida, em suas várias dimensões, além de se constituir como objeto que se apresenta à exploração econômica em todos os seus aspectos.

Em uma frase mais fácil, ainda que nada de simples, pode-se apresentar facilmente o que se está afirmando aqui: o trabalho se realiza distinto do que é. Não aparecem as marcas da criação e predomina a exploração. Enquanto todas as pessoas vivem o trabalho, em suas múltiplas facetas criativas, essas, por sua vez, tendem a ficar sombreadas e escondidas pela força da exploração.

A relação das pessoas com o trabalho acaba sendo a produção de mercadorias ou a garantia da circulação dessas mercadorias, sem compreender, entre quem produz, quem são os criadores; e os que as repassam no mercado não possuem direitos a utilização das mesmas. Fica-se, assim, com um objeto que aparece como externo para mulheres e homens, com o salário, ainda que majoritariamente pequeno, e com a corrida cansativa em busca de uma vaga. Ter ou não esse trabalho para viver: eis umas das questões.

Quando ambientes se misturam no presente, aquele que aparece como uma utopia de futuro e o que predomina na atualidade, explodem variadas e distintas ações humanas. As pessoas percorrem o tempo se perguntando: a) qual profissão me trará maior estabilidade de garantia do lugar de trabalho e de salários que facilitem minha vida? b) como ter segurança para não ficar sem salário, uma carteira assinada ou um ato de investidura no Estado? c) como me aproximar um pouco do que eu quero e o que possa garantir a minha vida? Enfim, as perguntas são muitas mesmo para as maiorias das pessoas, por várias razões.

Isso, por sua vez, explode em múltiplos destroços e variadas fagulhas quando se encontra um ambiente distinto, no qual o trabalho se apresenta como criatividade, invenção, produção das mudanças, elemento para construção de revoluções que alterem a vida e a sociedade. Fica-se perdido, pois as dúvidas batem forte em corpos e cabeças: querer as mesmas coisas do trabalho que predomina no mundo e que majoritariamente se conhece? Viver com intensidade o ambiente criado, como uma flor que rompeu o asfalto duro, e ser feliz com o trabalho sendo um dos elementos constituintes da felicidade e não da exploração? O que e como fazer?

No trabalho predominante da realidade dura e seca que toma o mundo, em diferentes escalas, pelo lugar que se ocupa no grande modo de produção internacional da supremacia do mercado, viver as contradições impostas exige estéticas cada vez mais complexas. Complexas para sobreviver nelas, principalmente se, articulada a isso, há a origem do lugar de classe e território; mas complexas também pelas possibilidades de se constituir como sujeito de um novo mundo, de novas realidades que só irão florir no jardim se plantadas, cuidadas e colhidas por quem as inventa em construções coletivas.

Eis a importância de dialogar, nesse breve artigo, sobre conceito tão caro para a vida, para a humanidade e para os projetos de transformações: trabalho! Revolução para um mundo ambientado pela produção coletiva e para o melhor comum, que ampare as diferenças de cada pessoa como alimento pleno e não imponha as desigualdades. Inclusive processo que exige, ainda mais no contemporâneo, as atenções e compromissos hoje com a superação das forças de posse do outro, das marcas da escravidão que permanecem, do autoritarismo institucional que pigmenta todo o corpo e das formas estruturais do Estado que se manifestam em racismo e machismo.

Como prosa da vida

Entra-se assim na parte mais densa, pois está repleta, recheada de filosofia por todos os lados, todas as formas, todo o centro. O trabalho que é determinado pela sociedade da exploração econômica, essa sociedade mercantil que toma o mundo, é o trabalho que nega o sujeito em sua potencialidade humana. Assim, os donos do poder, que usam os que são chamados de trabalhadores para que sejam objetos de sua satisfação, com o lucro ocupando parcela fundamental e se colocando acima da vida, possuem do seu lado a cultura da importância deste não trabalho humano. A maioria das pessoas correm desesperadas para garantir sua sobrevivência, buscando um canal para não produzir a morte biológica com aquilo que já produziu a morte humana no seu significado mais pleno.

Com isso temos dois trabalhos: o que predomina no mundo atual, um trabalho fake, um não-trabalho disfarçado em trabalho, pois é um instrumento necessário para sobrevivência do corpo, mas que transforma os humanos que dele necessitam e o realizam em objetos; e o outro trabalho, que existe em frestas do mundo atual, que só poderá ser colhido em outro modelo de sociedade, em outra forma geral de produzir, de se relacionar e viver, e fica condenado aos sonhos ou a uma “utopia do futuro inalcançável”. Nota-se, no entanto, que ele pigmenta vários espaços da sociedade atual.

Pode-se falar que existe um trabalho ôntico, que é esse trabalho da unidade da realização humana em todas as suas dimensões e que articula o material com o imaterial. No material todas as coisas que permitem ao humano ter, fazer, utilizar. No imaterial, todas as coisas que são produtos do processo, da arte, da espiritualidade, da estética, das diversões. Claro que os dois se encontram: a bola, produzida como coisa, permite o jogo de futebol, ambiente de alegrias e manifestações múltiplas da humanidade.

Em um espaço pode ter quem produza a cadeira, quem sente nela junto com o que produziu, e ambos ouvem e participam da mesma música, da mesma conversa, do mesmo som. Há unidades, mas quando elas existem, no mundo que temos, são frestas criadas em busca do desenvolvimento pleno da potência da humanidade, como ocorre nas periferias, em seus encontros de alegria e dor.

No mundo real predomina a sobrevivência do corpo, o ponto assinado, o cartão batido, o tempo contabilizado, o desejo por se desvencilhar para namorar, estudar, ver um teatro, assistir um filme, se divertir e buscar brechas que não são vistas como trabalho. São brechas que o salário pago a cada fim para novo início, geralmente no mês, na maioria das vezes não cobre. Há um assassinato da humanidade para manter o corpo existindo. No seu aporte superestrutural, toda uma cultura predominando para ser esteira de manutenção dessa ordem sustentada na exploração econômica.

Romper com a exploração econômica é, portanto, elemento fundamental, decisivo, estratégico, para que além das frestas, o trabalho alcance sua dimensão mais plena, o de realização das satisfações materiais e imateriais da humanidade, que precisa ser criativa e potente.

As frestas do mundo atual são diversas, individuais ou em grupos específicos que trabalham pequenas escalas da condução profundamente distinta da que predomina no mundo atual. Uma organização específica, um grupo artístico, um grupo religioso, uma comunidade específica, grupos diversos de ações ativistas, uma ação individual das várias formas de artes e manifestações artísticas. Em todos esses casos estão sujeitos aos elementos políticos e jurídicos, superestruturais, que são apoio para sustentação da grande ordem fundamental que mantém o processo de exploração. Mas identificar as frestas, navegar nelas, reconhecer as diferenças, lançar mão da filosofia e produzir conhecimento cada vez mais profundo sobre o que há, são parcelas imprescindíveis para tudo superar.

Assim compreendemos que o trabalho que na cultura existe faz convencer a maioria das pessoas de que é o trabalho, mas trata-se de um trabalho fake. Um trabalho que assassina a humanidade e impede a potência das realizações humanas materiais e imateriais. O trabalho não fake é aquele que não existe em grande escala, justamente porque o lucro segue nesse mundo acima da vida e impõe essa dura realidade. O trabalho pra valer é o que permite a realização plena e potente de todas as necessidades humanas, materiais e imateriais (ditas aqui imateriais, poderíamos chamar de espirituais, que ficaria até melhor, mas como não se está falando do sobrenatural, muito pelo contrário, que fique assim).

Desafios da Prosa

Nossa conversa sobre o trabalho, que iniciamos aqui, de forma rápida e buscando uma comunicação integrada, tem três objetivos centrais:
> Apostar em ambientes coletivos onde se possa construir espaços voltados para fortalecer e identificar caminhos de ampliação do papel de sujeito e alargar as frestas de superação da objetificação e reificação que o mundo da exploração cria. Ampliar tal debate coletivamente é medida fundamental tanto para superar as contradições dialéticas, impostas pelo trabalho que predomina na sociedade sustentada na exploração econômica, quanto para alargar as frestas criadas que ampliam a potência humana para satisfação material e espiritual da vida. Percurso fundamental para construir sujeitos em potencial, novas estéticas, novas teorias e conceitos que podem contribuir para impulsionar uma revolução no contemporâneo.

> Unificar uma ação para que os vários ambientes, artísticos, ativistas, coletivos, possam ser apoios diversos, uns aos outros, para sustentar essa ação fundamental e já revolucionária, no mundo da exploração, para não reproduzir as mesmas práticas e construir, em escalas cada vez maiores, a estética e o compromisso potente desses trabalhadores como sujeitos humanos da transformação.

> Fortalecer a potência da periferia, que já realiza, em vários momentos da sua vida, ações que se contrapõem à sociedade do mercado e apontar, com projeto, o fortalecimento e o autorreconhecimento do novo sujeito revolucionário, para superar o mundo que nos toma.

Vamos construir juntos, com o trabalho coletivo que amplia a potência humana realizadora das necessidades materiais e imateriais, o novo mundo. Vamos construir nossa própria estética e cultura, como alimento para outra sociedade, com a força mais plena de uma cidade de direitos. Vamos, portanto, fazer tremer os vergalhões e os concretos, criando várias flores que nascem no asfalto, pigmentando em todos os lugares e superando limites de marcas para uma escala de totalidade. Subjetividade e objetividade nascem e vivem nesse plano, não são produtos do futuro, mas do presente, que criará um futuro com dignidade humana em todas as suas dimensões.

*Jorge Barbosa – Diretor Geral do Observatório de Favelas
*Eduardo Alves – membro da direção do Observatório de Favelas