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Fachada do Centro Educacional Prefeito Mendes de Moraes – Crédito: Agência Brasil

Por Nyl de Sousa*

A rua é o ponto de partida ou o ponto de chegada para diversas manifestações. Através dela fiz e sigo fazendo amizades, criando redes e ampliando repertório. Nessa caminhada a rua e seus caminhos me levaram à escola Prefeito Mendes de Moraes durante a ocupação organizada pelos próprios alunos. O primeiro contato foi através de uma intervenção de Rap que realizei com o Movimento Quilombo Brasil-RJ.

Toda essa ocupação teve início nas ruas, durante os atos dos professores em greve onde os estudantes deram apoio. A repressão policial e a falta de diálogo com a direção foram os estopins para os jovens ocuparem a escola e fazerem pressão no Governo do Estado. A decisão foi feita em assembleia entre os próprios estudantes e teve início no dia 21 de Março. Até o fechamento da matéria, eram contabilizadas 73 escolas estaduais ocupadas. Confira aqui o mapa

“Pensamos na ocupação daqui da Mendes pelo fato de ser uma escola vista como modelo para quem é de fora. Vimos que poderia dar uma visibilidade” diz Michel, 17 anos, um dos responsáveis pela comunicação da ocupação e morador da Nova Holanda, Maré.

A gestão é autônoma e feita de forma totalmente horizontal. Qualquer decisão que afete a todos é votada. Há divisões de equipes de comunicação, cozinha, segurança, produção cultural e a limpeza é feita em mutirão. Por sinal, ambiente limpo e muito organizado.

As pautas específicas dos estudantes da Mendes vão desde a exoneração do diretor da escola até o uso pleno da estrutura disponível: laboratório de informática, auditório e piscina. Um pedido de desculpa da SEEDUC (Secretaria de Estado de Educação) também é listada. A SEEDUC soltou uma nota repudiando a ocupação, dizendo que a escola havia sido invadida e depredada pelos jovens.

As pautas gerais das ocupações gritam para a reforma do sistema educacional. Apontam ineficácia no SAERJ – Sistema de Avaliação de Ensino do Estado – afirmando que este gera muitos números e pouquíssimas proposições. Uma gestão progressivamente democrática no ambiente escolar, em que os estudantes, de fato, tenham voz e possam eleger seu próprio diretor.

Apesar de não quererem se identificar, havia alguns professores no local apoiando os alunos. Eles relataram surpresa ao ver os estudantes mobilizados e dispostos a ocupar a escola. Além disso, frisaram que a ideia da ocupação partiu integralmente dos estudantes.

Com a noção de pertencimento do espaço e a vontade aflorada de mudança, os jovens transformaram uma escola em um espaço de produção de conhecimento, convivência e centro cultural com autonomia. Há um cronograma de atividades diárias que inclui de 2 a 3 grandes períodos de aula, tempos de práticas esportivas ou atividades culturais, além de café da manhã e almoço preparado por eles mesmos.

“Basicamente, achamos que isso é o que deveria acontecer no colégio normalmente. A gente vê como parte da educação um debate com o movimento LGBT, por exemplo. Como você forma um cidadão que não vai ser preconceituoso lá fora? Como você leva a questão das mulheres na sociedade e contribui para que não haja machismo? São questões que passam pela educação”, frisa Michel.

Já há uma visão de práticas e projetos para se manter pós-ocupação. O funcionamento pleno da biblioteca, a manutenção e ampliação da horta criada por eles mesmos para retirar o lixão que havia, um grêmio forte que represente o interesse dos estudantes e que cobre transparência na prestação de contas da direção. Em suma, fazer da escola um lugar aprazível, que dê gosto de estar presente e que contribua para a formação de cidadãos melhores.

A sensação que fica para os que estavam ali presentes –  estudantes, professores, artistas e ativistas – é que aquela escola não será mais a mesma. A ocupação é parte do processo de transformação. Urgente criar novas formas de dialogar e desconstruir antigas práticas.

De fato, essa juventude está reinventando o espaço escolar. Nota 10!

 *Nyl é MC e aluno da Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC)