Reportagem: Nyl de Sousa (nyl@observatoriodefavelas.org.br)
Arte: Taiane Brito (taiane@observatoriodefavelas.org.br)

Muito do que se tem estabelecido no mundo de forma hegemônica, foi moldado através de imagens. Pinturas, fotografias e filmes, por exemplo, colaboraram e colaboram muito para a construção do imaginário popular. Quando analisamos marcadores como raça, classe, gênero e território de quem historicamente dita essas narrativas, fica mais perceptível quem sempre foi colocado no lugar de sujeito outro, aquele carregado de estereótipos quando retratado: pessoas pretas, pobres, mulheres, LGBTQIA+ e que residem em lugares mais precarizados. Apesar das desigualdades estruturantes, a possibilidade da criação de imagens e narrativas nunca esteve somente de um lado: ela sempre aconteceu e acontece.

“Quando a gente fala de artistas oriundos das periferias, subúrbios e espaços populares, a gente precisa ter uma compreensão ampla de quais são as formações dessas pessoas, os repertórios, as vivências e, a partir de então, tecer uma narrativa que contemple o acesso e essas presenças de forma legítima nos espaços da arte” aponta Jean Azuos, curador do Galpão Bela Maré, centro cultural gerido pelo Observatório de Favelas e que completa 10 anos em 2021. Entender as possibilidades destes espaços passa pela democratização do acesso. Segundo Jean, a possível grande disputa é essa ciência política de artistas sobre o poder acessar. “A partir disso se busca estratégias e caminhos para infiltrações no próprio circuito da arte que é super excludente e seletivo”, pontua Azuos.
 

Desde 2019, o Observatório de Favelas, em parceria com a produtora Automática, elabora no Galpão Bela Maré a ELÃ – Escola Livre de Artes, projeto experimental de formação artístico-pedagógica que surge do desejo de construção de um espaço para criação e reflexões no campo estético e político; fomento à produção artística contemporânea e de um ambiente aberto a jovens artistas das regiões periféricas da metrópole do Rio de Janeiro. A segunda edição da ELÃ integra as ações brasileiras do Global Grace, realizado em parceria com Instituto de Relações Internacionais – PUC-RIO, pela Uniperiferia e pelo Promundo

Elã – Escola Livre de Artes 2020-21 / Foto: Marcia Farias – Imagens do Povo

Um de seus participantes é Wallace Ferreira, que artisticamente se apresenta como Patfudyda. Ele faz da dança, performance, teatro e artes visuais seus principais meios de expressão. Cria de Vigário Geral, Zona Norte do Rio, seu lado artístico foi alimentado pelas festas de família e o contato com o pagode baiano, funk, hip hop, stiletto e vogue. Além de compor a turma 2020-2021 da ELÃ, a graduação em dança na UFRJ o aproximou das relações com as galerias, venda e consumo de arte em espaços mais conceituais e, consequentemente, o aproximou de outros desafios. “É importante estar nestes espaços mais ricos da arte, mas que nossas imagens sejam vistas em plena potência e que não seja apenas para cumprir cota enquanto artista periférico” afirma Wallace.

Neste lugar, a fala do artista vai ao encontro da Escola Livre, que se torna fundamental para democratizar a formação em arte e traz para uma cena contemporânea artistas que não eram contemplados. “A partir da escola se constitui também uma rede. E essa rede cria e estabelece seus próprios agenciamentos, que vai se desdobrando para as cenas outras que a gente vai inventando neste tempo” enfatiza Jean Azuos.  

Novos desafios e outras possibilidades em tempos de pandemia

Em 2020 fomos empurrados para um novo contexto geral do mundo. A pandemia nos forçou a mudar hábitos e a forma de consumir arte e cultura. O que antes era uma experiência a partir do encontro e da presença em espaços físicos, se tornou conteúdo e uma vivência a partir do virtual e do encontro das pessoas com as telas de seus computadores ou smartphones. 

Elã – Escola Livre de Artes 2020-21 / Foto: Marcia Farias – Imagens do Povo

Luiza, mais conhecida como Loo Stavale, fez Gravura na Escola de Belas Artes da UFRJ, é mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos na UERJ e também compõe a turma 2020-2021 da ELÃ. A artista, que aborda a relação do corpo feminino com a cidade e integra o coletivo Gráfico, ressalta os desafios colocados nos tempos atuais. “É muito difícil viver de arte e está cada vez mais, principalmente agora. Mas, de certa forma, eu tenho conseguido” afirma Loo, que também reforça a potência dos encontros, mesmo que de forma online, para falar e estudar arte. “Me sinto plena intelectualmente, me sinto grata por ter tido coragem de seguir esse caminho”, comenta. 

Nesse contexto, se as tecnologias, cada vez mais difundidas nesses tempos, permitem a versatilidade dos artistas, o acesso a algumas funcionalidades se torna uma questão. “Temos um contraponto dado: ao mesmo tempo em que é uma situação desafiadora, no que diz respeito à inserção tecnológica e virtual, é também uma ferramenta fundamental pra esse tempo para que esses artistas se conectem em lives e consigam falar sobre suas poéticas, pesquisas e arranjos nesses tempos. A perspectiva do futuro é sempre uma hibridização dos campos físicos e virtuais, e que isso se potencialize.” afirma o curador do Bela Maré 

De fato, a arte se torna mais necessária para o horizonte ainda cinzento colocado para 2021. Mas se o futuro ainda não é tangível, há perspectivas e projeções interessantes. “Os tempos trazem inquietações de como seguir, mas consigo enxergar esse futuro de múltiplas possibilidades para o que a gente vem criando e inventando dentro de uma perspectiva política que reflete gênero, raça e sexualidade de forma mais eloquente e com mais equidade entre as fazedoras e fazedores, trazendo uma cena mais plural e repleta por mais presenças. Uma reconfiguração desta cena e uma ampliação de perspectiva.” finaliza Jean. 

No ano em que o Galpão Bela Maré completa 10 anos, também será o ano da segunda exposição da ELÃ – Escola Livre de Artes, que será aberta no dia  8 de Maio. A arte sempre encontra um jeito de acontecer.