Por Carolina Aleixo (carol@observatoriodefavelas.org.br)*

“(…) celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma a educação na prática da liberdade.” (hooks, 2013)

Rio de Janeiro – Busco me movimentar no mundo a partir da perspectiva apresentada por bell hooks, na constante tentativa de encontrar as brechas que nos possibilitem alargar as fronteiras pré-definidas. Como educadora, faço parte da equipe do Galpão Bela Maré, um centro cultural localizado na favela Nova Holanda (Maré, Rio de Janeiro), compondo o educativo junto com Érika Lemos Pereira e Jean Carlos Azuos. Nessa busca pelas brechas, constato que a própria existência do Galpão Bela Maré é uma delas, porque sua criação, em 2011, e as suas recriações ao longo desses anos de existência, são uma constante forma de afirmação do papel primordial que as favelas têm como produtoras e consumidoras de artes.

O programa educativo tem o desafio de funcionar como uma espécie de ativador das potências do Galpão Bela Maré. Dentro do nosso educativo, trabalhamos com a perspectiva de que, como educadores, mais do que simplesmente falar sobre obras de artes, o que buscamos é proporcionar uma experiência que possa ser disparadora em um processo de educação que seja, acima de tudo, emancipador. Nesse sentido, entendendo a escola como espaço fundamental de formação, o educativo do Galpão Bela Maré realiza ações nas escolas públicas do território, compreendendo que essa articulação é importante tanto para estreitar os vínculos com as escolas que já visitam o centro cultural com alguma regularidade, quanto para acessar grupos que, por uma série de razões, não conseguem visitar o espaço. A essas ações realizadas dentro do ambiente escolar damos o nome de Bela em Movimento.

Entre fevereiro e março deste ano, realizamos dois Belas em Movimento com as turmas de nono ano da E.M. Clotilde Guimarães em que propomos discussões entorno da palavra “democracia”. A democracia é um conceito em disputa. Por exemplo, o movimento Escola sem partido, diz em seu site que: “A doutrinação política e ideológica em sala de aula ofende a liberdade de consciência do estudante; afronta o princípio da neutralidade política e ideológica do Estado; e ameaça o próprio regime democrático, na medida em que instrumentaliza o sistema de ensino com o objetivo de desequilibrar o jogo político em favor de um dos competidores”. A partir desse trecho, é possível apreender que, para os defensores do Escola sem partido, a democracia pressupõe neutralidade. A neutralidade, no entanto, pode ser vista, por si só, como uma postura política, porque, na prática, é a dominância de uma perspectiva única.

Em contraponto à ideia apresentada pelo Escola sem partido, propomos que a construção de conhecimento se dê a partir de pontos de partida diversos entre si, pautando o direito à diferença. Tal conceito é desenvolvido por Jailson de Souza e Silva para abordar a construção das possíveis relações entre sujeito e cidade, ressaltando que para que a cidade seja um lugar em que todas as pessoas tenham um patamar mínimo de dignidade, é necessário que as diferenças sejam reconhecidas e legitimadas, ao invés de serem temidas. Portanto, é a partir das diferenças que a cidade se torna mais democrática. O mesmo pode-se dizer a respeito dos processos educativos: os conflitos de ideia são fundamentais para que tais processos sejam democráticos. Portanto, é importante que diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto sejam apresentadas.

No primeiro Bela em Movimento realizado na E.M. Clotilde Guimarães, falamos sobre democracia a partir do amor, entendendo amar como um ato também político e pautando os direitos das pessoas LGBTQI+. Ao perguntarmos à turma se eles já tinham escutado essa sigla, escutamos a resposta: “Sim! O Rennan da Penha fez um baile para essa galera, né?”. Essa colocação nos dá um indício de que o funk, mais que um gênero musical, é um movimento importante para a construção de subjetividade de muitas das pessoas que vivem na cidade do Rio de Janeiro. Portanto, por mais criminalizado que o funk continue sendo em nossa sociedade, é inegável que ele se constitui como um movimento importante nos processos educativos de uma parcela considerável daqueles que vivem no Rio de Janeiro, ainda que não esteja necessariamente presente nas dinâmicas escolares.

Na segunda ação, nosso objetivo era refletir de que maneiras a democracia está presente ou ausente em nossas vidas cotidianas. Como disparador dos debates, utilizamos as músicas “Identidade”, do Jorge Aragão e “Afronta”, do Nyl MC. Destacamos os seguintes trechos: “Somos herança da memória/temos a cor da noite/filhos de todo açoite/fato real de nossa história (…) sai desse compromisso/não vai no de serviço/se o social tem dono, não vai”; “Além arte e poder de consumo/vitória/saúde/diploma/direitos/em suma, não acredito em nenhum projeto de mudança/que não tenha gente preta na liderança”. O samba de Jorge Aragão, o rap de Nyl MC e o funk de Rennan da Penha compartilham da mesma origem negra e popular. Se analisarmos as músicas correspondentes a esses gêneros musicais, podemos perceber que eles funcionam como uma outra forma de sistematização de conhecimento, diferente daquelas a que somos introduzidos pela escola.

Uma das premissas do movimento Escola sem partido é a de que a experiência escolar deve ser plural, o que é coerente, mas se o caminho para a pluralidade é a neutralidade, o que realmente significa essa experiência plural? Para os parâmetros do Escola sem partido o neutro é, na verdade, o que possibilita a manutenção de uma sociedade racista, misógina e classista. Se a educação brasileira, historicamente, serviu como ferramenta colonizadora e dominadora, o samba, o funk e o hip hop se constituem como outras formas de sistematizar os saberes negros e populares, de contarem as histórias que não são contadas pelos livros didáticos e de compartilhamento de experiências da parte da população brasileira que muitas das correntes de pensamento a respeito da educação buscam apenas instrumentalizar.

Para ser emancipadora, a educação precisa ser plural e, portanto, precisa levar em consideração outros saberes para além daqueles que já estão estabelecidos nos currículos escolares. De acordo com Jailson de Souza e Silva, as periferias propõem relações e experiências “que podem ser centrais para a democratização da cidade”. As relações de desigualdade da cidade estão marcadas dentro do ambiente escolar. Portanto, a presença, nos processos educativos, dessas formas de sistematização de saberes que se originam na periferia é um caminho para a construção de uma educação mais plural e democrática, possibilitando a construção de uma cidade mais plural e democrática. Em Afronta, Nyl MC diz: “eu vim para ser o moleque preto de asa”. Celebro a construção cotidiana de uma educação que possibilite a todos nós nos tornarmos moleques de asa.

Referências:

hooks, bell. “Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade”; tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

Instituto Brasileiro de Museus. “Caderno da política nacional de educação museal”. Brasília, DF: IBRAM, 2018.

SILVA, Jailson de Souza e. “As práticas culturais das periferias mobilizando a cidade”. In MESSEDER, C.A.; BRANCO, C. (Org.) “40 vozes do Rio: avaliações e propostas culturais para uma cidade única”. Rio de Janeiro: E-papers, 2015. p.142-146

“Por uma lei contra o abuso da liberdade de ensinar”. Disponível em . Acesso em: 16 de junho de 2019.

*Carolina Aleixo, jovem, mulher preta, bacharel em cinema e estudante de letras, pisciana, sonhadora e educadora do Galpão Bela Maré, um dos projeto do eixo arte e território